
Esposa, Doadora, Vítima: Um Casamento Retorcido
Capítulo 3
"Sua mulher malvada!" O grito de Léo cortou a névoa da minha dor. "Você machucou a Genoveva!"
Heitor já estava ao lado de Genoveva, me ignorando completamente. Ele se ajoelhou, sua voz cheia de preocupação. "Você está bem? Ela te machucou?"
Eles me deixaram lá. Deitada em uma poça crescente do meu próprio sangue no pátio de pedra fria. Ninguém veio ajudar. Os convidados da festa olhavam, sussurravam e depois se viravam, convencidos pela atuação de Genoveva.
Eu fiquei ali, o mundo girando, uma risada amarga presa na minha garganta. Era tão absurdo. Tão horrivelmente, previsivelmente cruel. Uma lágrima escorregou do meu olho, misturando-se com o sangue na minha bochecha.
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, alguns funcionários do buffet se aproximaram hesitantemente.
"Senhora? Devemos chamar uma ambulância?" um deles perguntou, seu rosto jovem e pálido.
Consegui balançar a cabeça fracamente. "Não. Apenas... me ajudem a levantar."
Eles me ajudaram a sentar em uma cadeira na varanda, longe dos olhares curiosos. Uma delas, uma mulher de rosto gentil, limpou suavemente o corte na minha cabeça com um guardanapo. A ardência era aguda, mas não era nada comparada à ferida aberta na minha alma.
"Devemos chamar seu marido?" ela perguntou suavemente.
"Não", eu disse, a palavra com gosto de cinzas. "Não há ninguém para chamar."
Eu podia ouvi-los à distância, um murmúrio de vozes discutindo meu "ataque vicioso" à "pobre e grávida Genoveva". Grávida. Claro. Outra mentira para angariar simpatia.
Outra risada, esta mais alta e mais descontrolada, escapou dos meus lábios. Parecia o choro de um animal moribundo. Os funcionários do buffet trocaram olhares preocupados e recuaram lentamente.
Meu corpo gritava em protesto, mas me forcei a ficar de pé. Eu tinha que sair. Tropecei pela casa, minha visão embaçando e focando. Meu voo estava saindo em breve.
Cheguei ao meu quarto, o mundo balançando violentamente. Desabei na cama, cada músculo do meu corpo tremendo. Apenas alguns minutos, eu disse a mim mesma. Apenas alguns minutos para reunir minhas forças.
Meus olhos se fecharam.
Fui acordada por uma dor aguda e lancinante no meu braço. Meus olhos se abriram.
Uma onda de choque anafilático me atingiu. Minha garganta começou a fechar, minha pele irrompendo em vergões vermelhos e irritados. Eu ofegava por ar, meus pulmões queimando.
Léo estava ao lado da minha cama, um sorriso triunfante e cruel no rosto. Em sua mão havia um punhado de amendoins. Ele sabia que eu era mortalmente alérgica.
"Você não vai a lugar nenhum", disse ele, com a voz fria.
Eu recuei instintivamente, tentando me afastar dele.
"Caneta... de adrenalina", engasguei, minha voz um sussurro estrangulado. "Na minha... bolsa."
Ele riu, um som agudo e arrepiante. Ele pegou minha bolsa da mesa de cabeceira, remexeu nela e tirou minha caneta de adrenalina.
Ele a ergueu, balançando-a na frente do meu rosto. "Procurando por isso?"
Eu estendi a mão para pegá-la, meus movimentos desajeitados e desesperados. Ele a puxou de volta, seus olhos dançando com alegria maliciosa.
"Você não merece ser salva", ele zombou, seu rosto uma máscara distorcida de ódio.
Ele caminhou até a janela aberta e, sem um momento de hesitação, jogou meu remédio salva-vidas na escuridão.
"Não!" O grito foi um soluço cru e desesperado.
Tropecei para fora da cama, meu corpo gritando em protesto, e rastejei em direção à janela. Eu tinha que pegá-lo. Eu tinha que.
Mas meu corpo estava me traindo. Eu estava ficando mais fraca, minha visão se afunilando. Desabei no chão, minha cabeça batendo no tapete grosso.
O impacto foi suave, mas desencadeou uma nova onda de agonia. Dores agudas e perfurantes irromperam por todo o meu corpo. Olhei para baixo.
O chão ao redor da minha cama estava coberto de cacos de vidro. Fragmentos de todos os tamanhos, brilhando ao luar. Ele havia armado uma armadilha para mim.
Minhas mãos, meus joelhos, meus braços - todos estavam cortados, sangrando livremente. Um caco quase atingiu meu olho, deixando um corte profundo e ardente logo abaixo dele.
Eu não conseguia gritar. Minha garganta estava muito inchada. Tudo o que consegui foi um gemido baixo e agonizante.
Eu estava morrendo. Esta criança de seis anos, a que eu criei e amei, estava me assassinando.
A porta se abriu. Heitor e Genoveva estavam lá, silhuetas contra a luz do corredor.
Genoveva olhou para a cena, para Léo de pé orgulhosamente sobre meu corpo quebrado, e suas primeiras palavras não foram de horror, mas de aborrecimento.
"Léo! O que eu te disse sobre fazer bagunça?" ela repreendeu. "E você poderia ter danificado o rosto dela. A medula dela é a coisa mais importante. Precisamos manter o recipiente em bom estado."
Recipiente.
Um pensamento amargo e autodepreciativo flutuou pela escuridão que estava engolindo minha mente.
Ela não estava preocupada comigo. Ela estava preocupada com sua cadeia de suprimentos.
E então, tudo ficou preto.
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