
Espere: A Promessa Que Quebrou Minha Alma
Capítulo 3
A dor nas minhas costas era uma brasa constante, mas a ferida na minha cabeça, onde Fiona me empurrou contra a parede, latejava com uma dor mais profunda.
Deitado na cama estreita do pequeno quarto que a família Lawrence me designou, eu olhava para o teto manchado de umidade.
Cada latejar na minha cabeça trazia uma memória.
Lembrei-me do início.
Lembrei-me de como eu a conheci.
Fiona Lawrence, a herdeira do império do café, apareceu na minha oficina na favela como um anjo deslocado.
Seu carro de luxo quebrou, e ela, contra o conselho de seu motorista, insistiu em entrar no meu mundo de graxa e metal.
Seus olhos brilharam de curiosidade, não de desprezo.
Ela começou a voltar.
Todos os dias.
Com desculpas cada vez mais esfarrapadas. Um pneu furado, um barulho estranho no motor, uma luz que não acendia.
Meus amigos na oficina riam.
"Essa moça rica está apaixonada por você, Jacob."
Eu não acreditava. Era de outro mundo, outra realidade.
Mas ela era incansável.
Trazia almoço para mim, comida cara que eu nunca tinha provado. Sentava-se em um caixote de madeira, com seu vestido impecável, e me observava trabalhar, fascinada.
Um dia, um dos meus clientes, um cara perigoso do tráfico local, ficou irritado com a demora no conserto de sua moto.
Ele começou a gritar, a me ameaçar.
Fiona, pequena e delicada, se colocou na minha frente.
"Não fale com ele assim", ela disse, a voz tremendo, mas firme.
O homem riu e a empurrou.
Eu reagi. A briga foi rápida e feia. Acabei com um corte profundo no braço, feito com a faca que ele carregava.
Quando a confusão acabou, e o homem fugiu, Fiona estava chorando.
Não de medo, mas de culpa.
Ela rasgou um pedaço de seu vestido caro e amarrou no meu braço para estancar o sangue.
"Isso é minha culpa", ela soluçava. "Me desculpe, Jacob."
Naquele dia, na minha oficina suja, ela me beijou pela primeira vez.
O beijo selou nosso destino.
O cuidado dela era quase sufocante.
Se eu tossisse, ela aparecia com xarope e chás.
Se eu me arranhasse com uma ferramenta, ela fazia um curativo com um cuidado de cirurgiã.
Ela me mimava, me protegia de tudo.
Uma vez, reclamei do sol forte enquanto trabalhava. No dia seguinte, ela apareceu com uma equipe de operários que instalaram um toldo gigante sobre toda a frente da minha oficina.
"Agora você não vai mais pegar sol na cabeça", ela disse, sorrindo, orgulhosa de si mesma.
Era um amor de conto de fadas, intenso e irreal.
Agora, deitado naquela cama, sentindo o sangue seco no meu cabelo, a memória daquele cuidado era uma tortura.
A mulher que uma vez se preocupou com o sol na minha cabeça era a mesma que me empurrou contra uma parede de pedra e me deixou sangrando.
A porta do quarto se abriu.
Era ela. Fiona.
Seus olhos estavam vermelhos, inchados de choro. Ela se aproximou da cama.
"Jacob, como você está?"
Sua voz era um sussurro.
Eu não respondi. Apenas a encarei.
O cheiro do perfume caro de Hugo estava impregnado nela. O cheiro do homem que ela levou ao hospital enquanto eu sangrava.
"Eu sinto muito", ela disse, tentando pegar minha mão.
Eu a puxei de volta.
"Você sente muito pelo quê, Fiona? Por me empurrar? Por dar o relógio da minha mãe para ele? Ou por acreditar que eu machucaria uma criança?"
Lágrimas escorreram pelo rosto dela.
"Não é isso, Jacob. Eu sei que você não faria isso. É que... é complicado. Hugo é o pai da minha filha. Eu preciso cuidar dele."
"E eu?", perguntei, a voz saindo mais áspera do que eu pretendia. "Eu não sou nada?"
"Você é tudo!", ela disse, desesperada. "Você é o homem que eu amo. Eu juro. Apenas... espere. Espere mais um pouco. Quando tudo isso acabar, vamos ficar juntos. Eu prometo."
"Eu não acredito mais nas suas promessas, Fiona."
Eu me virei de costas para ela, encarando a parede descascada.
Senti a cama afundar um pouco quando ela se sentou ao meu lado.
Ela não disse mais nada.
Apenas ficou ali, chorando em silêncio.
Um choro que, para mim, não significava mais nada.
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