
Escolhida pelo Don
Capítulo 3
O gosto do whisky ficou irrelevante no momento em que ela saiu correndo.
As risadas ao redor continuavam.
Altas.
Irritantes.
Vazias.
Observei a porta da escada pela qual a garota desapareceu enquanto o líquido gelado escorria lentamente pela minha camisa social preta. O tecido grudava levemente na minha pele, mas eu mal percebia.
Porque só conseguia pensar nela.
Nos olhos.
Porra...
Aqueles olhos.
Azuis demais.
Não o azul artificial que mulheres tentavam criar com lentes baratas. Não. Os dela eram diferentes. Claros, vivos, absurdamente intensos.
Pareciam errados naquele lugar.
Como algo puro jogado dentro de um poço cheio de sujeira.
Peguei lentamente o guardanapo sobre a mesa e comecei a secar a bebida da camisa sem pressa alguma.
Ao meu redor, alguns ainda riam da cena.
Idiotas.
Nikolai, sentado no sofá ao lado, soltou uma risada nasal.
- A garota parecia prestes a morrer.
Ignorei.
Outro homem comentou:
- O gerente quase arrancou a cabeça dela ali mesmo.
Mais risadas.
Meu maxilar travou devagar.
Então olhei para o gerente.
Ele ainda recolhia os cacos no chão enquanto tentava sorrir para os outros homens da mesa, claramente nervoso.
Quando percebeu que eu o encarava, o sorriso desapareceu imediatamente.
Bom.
Levantei devagar.
O silêncio começou antes mesmo de eu falar qualquer coisa.
Sempre acontecia.
Não porque eu gritava.
Não porque ameaçava.
Mas porque homens inteligentes percebiam perigo antes dele explodir.
Peguei o paletó molhado do sofá e o entreguei a um dos seguranças sem desviar os olhos do gerente.
O homem engoliu seco.
- Senhor... eu peço desculpas pelo ocorrido. A garota é nova, desastrada, eu-
Aproximei-me lentamente.
Ele calou a boca sozinho.
Interessante.
Parei bem na frente dele.
Mais alto.
Mais forte.
E completamente sem paciência para aquele tipo de verme.
- Você sente prazer nisso?
Ele piscou confuso.
- Senhor?
- Humilhar pessoas.
Minha voz saiu baixa.
Controlada.
Muito pior do que quando eu gritava.
O gerente começou a suar quase imediatamente.
- Não... eu só precisava resolver a situação...
Inclinei levemente a cabeça.
- Resolvê-la?
As mulheres ao redor começaram a ficar quietas.
Os homens também.
- Ela derrubou bebida no senhor, eu precisava-
- E por isso decidiu destruí-la na frente de todos?
Ele abriu a boca.
Fechou.
Abriu de novo.
- Eu...
As risadas atrás de mim continuavam baixas. Alguns daqueles imbecis ainda pareciam achar aquilo engraçado.
Perdi a paciência.
Virei lentamente o rosto para o restante da área VIP.
- Saiam.
Silêncio absoluto.
Uma das mulheres riu nervosa achando que era brincadeira.
Não era.
Olhei diretamente para ela.
Ela parou de rir na mesma hora.
- Todos vocês - falei friamente. - Agora.
Ninguém discutiu.
Nunca discutiam.
Em menos de dois minutos a área VIP inteira começou a esvaziar. Saltos ecoavam apressados pelo piso escuro enquanto homens pegavam bebidas e casacos sem coragem de reclamar.
Nikolai passou por mim soltando um pequeno assobio divertido.
- O pobre coitado vai morrer?
Ignorei.
A porta se fechou atrás do último homem.
Agora restavam apenas eu, o gerente... e meus seguranças perto da entrada.
O silêncio ficou pesado.
O gerente estava quase tremendo.
Aproximei-me novamente.
- Qual o nome dela?
- Senhor?
- A garçonete.
- Anastasia.
Anastasia.
O nome encaixou perfeitamente nela.
Limpo demais para aquele lugar.
Passei a língua lentamente pelos dentes enquanto observava o homem à minha frente.
- Chame ela.
O gerente empalideceu.
- Senhor... ela provavelmente foi embora...
Meus olhos encontraram os dele outra vez.
Ele parou de respirar direito.
- Então encontre.
- Sim, senhor.
Ele praticamente tropeçou nos próprios pés ao sair dali.
Observei a porta se fechar atrás dele.
Então caminhei lentamente até o sofá outra vez.
Sentei.
E pela primeira vez em semanas percebi algo irritante:
Eu não conseguia tirar uma desconhecida da cabeça.
Isso não acontecia comigo.
Nunca.
Mulheres sempre existiram ao meu redor.
Belas.
Disponíveis.
Descartáveis.
Eu nunca prestava atenção o suficiente para lembrar seus rostos no dia seguinte.
Mas aquela garota...
A forma como tentou pedir desculpas mesmo claramente aterrorizada.
O jeito que a voz dela tremia.
E aqueles olhos absurdamente azuis me encarando por um segundo antes do desastre.
Fechei os olhos brevemente.
Perigoso.
Muito perigoso.
Porque obsessão começava exatamente assim.
Pequena.
Silenciosa.
Quase inocente.
Até consumir tudo.
A porta da área VIP se abriu novamente alguns minutos depois.
O gerente voltou.
Sozinho.
Meu olhar ergueu lentamente até ele.
- E então?
Ele engoliu seco.
- Ela... ela não quer voltar, senhor.
Um sorriso frio quase surgiu no meu rosto.
Não quer voltar.
A maioria pisaria nos próprios amigos para entrar naquela área VIP outra vez.
Mas Anastasia tinha fugido.
Como um animal assustado tentando sobreviver.
Interessante.
Muito interessante.
Cruzei os braços devagar.
- Traga ela mesmo assim.
- Senhor... ela está chorando...
Olhei para ele em silêncio.
O homem pareceu perceber tarde demais que tinha falado demais.
- Eu vou buscá-la agora. Desculpe.
Ele saiu quase correndo novamente.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti algo raro crescer lentamente dentro de mim.
Curiosidade.
Porque naquela cidade cheia de pessoas falsas, interesseiras e desesperadas por dinheiro...
A garota dos olhos azuis tinha olhado para mim como se eu fosse apenas mais um homem.
E eu já estava começando a perceber que isso talvez fosse um problema.
Quando a porta da área VIP se abriu novamente, eu esperava encontrar uma funcionária tentando manter a postura.
Mas a garota que entrou parecia prestes a desmoronar.
Anastasia mantinha os braços grudados ao próprio corpo como se estivesse tentando ocupar menos espaço no mundo. O rosto estava vermelho, os olhos inchados e brilhantes pelas lágrimas recentes, e ela tremia discretamente enquanto caminhava para dentro da sala.
Ainda assim...
Ainda era linda pra caralho.
O vestido preto simples do uniforme abraçava o corpo dela sem exageros, o cabelo preso às pressas deixava alguns fios claros escaparem perto do rosto e aqueles olhos azuis pareciam ainda mais intensos depois do choro.
Ela evitava me olhar diretamente agora.
Interessante.
O gerente vinha logo atrás dela, tenso como um condenado indo para execução.
Anastasia parou alguns passos distante de mim.
- Senhor... eu... eu queria pedir desculpas outra vez.
A voz dela saiu baixa.
Frágil.
- Isso não costuma acontecer. Eu realmente tropecei, foi sem querer e-
Ela respirou fundo rapidamente como se estivesse tentando não chorar de novo.
- Eu sinto muito pela sua camisa.
Meu olhar foi imediatamente para o gerente.
O homem mantinha a cabeça baixa agora, mas ainda havia algo ali que me irritava profundamente.
Covardia.
Ele só gritava quando achava que tinha poder.
Odeio homens assim.
Meu sangue ferveu outra vez ao lembrar dela sendo humilhada na frente de todos enquanto aqueles idiotas riam.
Injustiça sempre me irritou.
Talvez porque eu tenha crescido cercado dela.
Talvez porque homens fracos adorassem destruir quem não podia revidar.
Apontei para o sofá à minha frente.
- Sente-se.
Ela piscou surpresa.
- O quê?
- Você está tremendo.
Anastasia hesitou.
Como se estivesse esperando aquilo virar uma armadilha.
Depois sentou lentamente na ponta do sofá, claramente desconfortável.
Peguei uma caixa de lenços sobre a mesa de vidro e estendi para ela.
Os dedos dela tocaram os meus rapidamente quando pegou.
Gelados.
Muito gelados.
Ela murmurou um "obrigada" quase inaudível enquanto enxugava o rosto discretamente.
Então olhei para o gerente.
E toda a temperatura da sala pareceu cair.
- Você está demitido.
O homem levantou a cabeça imediatamente.
- Senhor, eu-
- Por justa causa.
O silêncio ficou absoluto.
Anastasia ergueu os olhos rapidamente para mim.
O gerente empalideceu.
- Senhor Dmitry, eu só estava tentando proteger a imagem da-
- Acho que você não sabe de uma coisa.
Aproximei-me devagar.
O homem começou a recuar instintivamente.
- Esta boate é minha.
Ele parou de respirar direito.
Bom.
Continuei:
- E eu não pago funcionários para humilhar mulheres na frente de clientes como um animal sem controle.
- Senhor, ela derrubou bebida em-
- Foi um acidente.
Minha voz saiu mortalmente calma.
Muito pior.
- E você transformou um acidente em espetáculo.
Ele começou a gaguejar.
- Eu... eu posso melhorar... isso não vai acontecer de novo...
Inclinei levemente a cabeça.
- Suma da minha frente antes que eu mude de ideia e ache que sua cara de bunda não merece continuar viva.
O homem congelou.
Anastasia também.
Por alguns segundos ninguém se moveu.
Então o gerente praticamente saiu correndo da área VIP.
A porta bateu forte atrás dele.
Silêncio.
Voltei minha atenção para Anastasia.
Ela ainda me encarava como se estivesse tentando entender se aquilo tinha realmente acontecido.
Os dedos apertavam o lenço nervosamente.
- Você não precisava fazer isso... - ela murmurou.
- Precisava, sim.
Ela abaixou os olhos.
Bonita até fazendo isso.
Porra.
Passei a mão lentamente pela barba tentando controlar a irritação que ainda queimava dentro de mim.
- Qual seu nome completo?
- Anastasia Volkova.
Volkova.
Quase sorri.
Destino tinha senso de humor às vezes.
- Você estuda?
Ela pareceu surpresa pela pergunta.
- Veterinária.
- Hm.
Ela ajeitou a postura discretamente quando percebeu que eu continuava olhando para ela por tempo demais.
Como se tivesse ficado consciente do próprio corpo de repente.
Fofo.
Perigoso.
Ela limpou a garganta antes de falar:
- Eu vou dar um jeito de pagar sua camisa.
A risada escapou antes que eu pudesse impedir.
Baixa.
Verdadeira.
Isso pareceu surpreendê-la ainda mais.
- Anastasia...
Inclinei-me um pouco para frente.
- Iguais a essa eu tenho muitas.
Ela ficou vermelha outra vez.
- Mesmo assim-
- E eu nunca faria aquilo com alguém por causa de um acidente.
Os olhos dela finalmente encontraram os meus de novo.
Azuis.
Cristo...
Aquela garota tinha olhos capazes de começar guerras.
Ela desviou primeiro.
Claro que desviou.
Pessoas sempre desviavam de mim eventualmente.
Mas não antes de eu perceber algo importante:
Anastasia não parecia interessada no meu dinheiro.
Nem impressionada.
Nem tentando me agradar.
Ela parecia apenas... assustada.
E isso tornava tudo pior.
Porque eu queria fazê-la parar de olhar para mim daquele jeito.
Ela respirou fundo.
- Então... eu estou demitida?
Ergui uma sobrancelha.
- Não.
Ela pareceu genuinamente confusa.
- Não?
Cruzei os braços devagar.
- Agora você é a gerente.
O silêncio seguinte foi tão absoluto que consegui ouvir a música distante da boate lá embaixo.
Anastasia arregalou os olhos imediatamente.
- O quê?!
Quase sorri outra vez.
- Você ouviu.
- Não, não... isso não faz sentido! Eu nem sei administrar uma boate!
- Seu ex-gerente também não sabia.
Ela abriu e fechou a boca algumas vezes claramente sem conseguir processar.
Bonita.
Muito bonita.
Então, antes que eu esperasse, ela segurou minha mão com as duas dela impulsivamente.
Quente agora.
Pequena.
Delicada.
Meu corpo inteiro ficou perigosamente atento ao toque.
- Obrigada... sério... obrigada.
Os olhos dela brilhavam outra vez, mas agora sem lágrimas.
E naquele exato momento percebi algo extremamente inconveniente:
Eu estava completamente fodido.
Porque homens como eu não sobreviviam bem depois de encontrar algo que despertava interesse real.
E Anastasia acabava de se tornar exatamente isso.
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