
Erros Imperdoáveis, Dívidas Impagas
Capítulo 3
A escolha estava feita. No restaurante silencioso, com o cheiro de mingau e traição no ar, Caio havia escolhido. Ele escolheu o passado. Ele escolheu a garota com o medalhão.
Helena os observava, uma espectadora em sua própria execução. Ela não sentia nada. A parte dela que podia sentir dor por causa dele havia sido arrancada, deixando um vácuo limpo e entorpecido.
Ela queria ir embora, afastar-se da visão deles juntos, tão perfeitamente combinados em sua história compartilhada.
"Estou cansada", ela disse, empurrando sua tigela. "Quero ir para casa."
Caio ergueu os olhos, arrancado de seu devaneio. "Eu te levo."
"Eu também vou!", Clara chilreou. "Quero ver o quarto da Helena. Aposto que é lindo."
Enquanto saíam, um garçom carregando uma bandeja de fajitas escaldantes passou correndo. Clara, em um gesto teatral de surpresa, tropeçou diretamente em seu caminho. A travessa quente inclinou-se.
Caio se moveu com a velocidade de um raio. Ele empurrou Clara para fora do caminho, protegendo o corpo dela com o seu. A frigideira de ferro fundido caiu no chão, errando Clara completamente.
Mas não errou Helena.
Óleo fervente e pimentas quentes espirraram em seu braço, o mesmo que já estava enfaixado. Uma dor lancinante e branca subiu de seu pulso até o ombro. Ela gritou, tropeçando para trás, suas pernas cedendo.
Ela caiu no chão, sua visão embaçando. A última coisa que viu antes que a dor a consumisse foi Caio, com os braços em volta de uma Clara perfeitamente ilesa, sussurrando garantias em seu cabelo enquanto a afastava da bagunça. Ele não olhou para trás.
A queimadura era grave. Segundo grau, o médico da emergência lhe disse. Seu motorista particular, chamado por um gerente de restaurante solidário, a levara às pressas para lá.
Enquanto esperava uma enfermeira fazer o curativo na ferida, ela os viu. Caio e Clara estavam em um cubículo do outro lado do corredor. Um médico examinava o tornozelo de Clara, aquele que ela "torceu" na gala. Caio pairava sobre ela, o rosto marcado pela preocupação, segurando um copo de água em seus lábios. Ele estava tratando o tornozelo torcido dela como uma ferida mortal.
O braço de Helena estava empolado, a dor um fogo constante e latejante. Mas a visão do outro lado do corredor foi o que realmente a queimou.
Ela se virou, a imagem gravada em sua mente.
Caio não ligou por três dias. Quando finalmente apareceu na mansão, Helena estava na sala de estar, cercada por caixas. Um vestido de noiva branco e imaculado estava pendurado em uma cadeira, e uma caixa de veludo na mesa de centro estava aberta, revelando um deslumbrante anel de diamante.
O anel de Eduardo.
Caio parou na porta, seus olhos percorrendo a cena. Uma carranca vincou sua testa.
"O que é tudo isso?", ele perguntou.
"Vou me casar", disse Helena, sua voz desprovida de emoção.
Ele riu, um som curto e sem humor. "Não seja ridícula, Helena. Se você está com raiva, podemos conversar sobre isso. Não há necessidade para esse tipo de drama."
Ele não acreditou nela. Ele pensou que era um jogo, uma manobra desesperada por sua atenção. A arrogância disso era de tirar o fôlego.
Ele tentou apaziguá-la, como se faria com uma criança. Ele comprou um presente para ela, uma pulseira cara que ela não queria. Ela a deixou na mesa, intocada.
Ele pensou que ela estava apenas de mau humor. Para animá-la, ele disse, estava a levando para uma nova exposição de arte.
"Você vai adorar", ele prometeu.
A galeria era austera e moderna. Por um momento, Helena sentiu um pouco de sua antiga personalidade retornar. Ela amava arte. Era uma linguagem que ela entendia.
Então ela viu a placa na entrada: "CLARA BASTOS: UMA RETROSPECTIVA."
Seu coração afundou. Ele não a trouxera aqui por ela. Ele a trouxera aqui por Clara.
A própria Clara apareceu, radiante, e entrelaçou seu braço no de Caio. "Eu sabia que você viria!"
Caio sorriu para ela, um sorriso orgulhoso e indulgente. "Claro. Eu não perderia por nada."
Helena era a terceira roda, um fantasma assombrando o quadro perfeito deles. Ela os seguiu pela galeria, uma observadora silenciosa de sua história de amor, imortalizada em fotografias. Clara no ensino médio, rindo. Clara e Caio em uma praia, silhuetas contra um pôr do sol. Cada foto era um testemunho de uma vida da qual Helena não fazia parte.
A peça central da exposição era uma fotografia em grande escala pendurada na parede do fundo. Era um retrato de Caio.
Ele estava dormindo, o rosto relaxado de uma forma que Helena nunca vira. A luz da manhã entrava por uma janela, iluminando a curva de seus cílios, a suave inclinação de seus lábios. Ele parecia pacífico, vulnerável e tão profunda, profundamente amado. A foto foi tirada da perspectiva de alguém deitado na cama ao lado dele, um momento íntimo e roubado.
Clara se aproximou, sua voz suave. "Eu tirei esta foto na manhã seguinte ao pedido de casamento dele, logo antes de ele ir para o ITA. Ele estava tão cansado, adormeceu segurando minha mão."
Ela se virou para Helena, seus olhos brilhando de triunfo. "Ele nunca olhou para mais ninguém desse jeito, não é?"
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