
Entregue: Sua Nova Esposa
Capítulo 2
LAURA POV
A ideia de São Paulo pulsava em mim como sangue novo, vibrante e emocionante. O passado era um manto pesado que eu usei por tempo demais, mas agora, finalmente, eu estava me despindo dele. Eu tinha duas semanas. Duas semanas para embalar meus poucos pertences, para juntar a pequena quantia de dinheiro que eu havia economizado meticulosamente, centavo por centavo, de anos trabalhando em empregos braçais e dando aulas particulares para Daniel passar nos exames da polícia. Dinheiro que Daniel, no mês passado, sugeriu que "emprestássemos" para Sofia comprar um carro novo, porque o antigo dela estava "dando ansiedade". Eu recusei na época, uma rebelião silenciosa fervendo sob minha superfície complacente. Agora, aquele dinheiro era meu bilhete para a liberdade.
Voltei para o calor familiar e sufocante da casa dos Chagas. O cheiro do assado de Sônia, geralmente reconfortante, agora parecia enjoativo, como uma armadilha. Ao entrar na sala de estar, uma voz aguda e doce veio da cozinha. Sofia. Ela estava sempre em casa, sempre encontrando novas maneiras de evitar trabalho de verdade.
"Ah, Daniel, você voltou!" A voz de Sofia, melosa e deliberadamente infantil, chegou até mim. "Você disse para a Laura o quanto eu senti sua falta? Pensei que ela nunca mais ia te soltar!"
Uma risada baixa de Daniel. "Você conhece a Laura, sempre tão séria. Mas ela entendeu. Ela sempre entende." Sua voz, grossa com uma satisfação presunçosa, fez meu estômago revirar. "Disse que eu deveria me certificar de que você está bem."
"Ah, a Laura é tão doce!" Sofia ronronou. "Mas eu estava tão preocupada com você, com o futuro de vocês... E se eu for sempre assim? E se eu sempre precisar de você, Daniel? Será que a Laura vai entender de verdade?" Sua voz era uma obra-prima de vulnerabilidade fingida, uma ilusão cuidadosamente construída de dúvida.
"Claro que ela vai, meu bem", Daniel acalmou. Sua voz vibrava com um orgulho possessivo. "E mesmo que ela não entenda, eu entendo. Você é minha irmã. Eu sempre vou cuidar de você. Sempre." As palavras, destinadas a Sofia, eram uma faca se retorcendo na velha ferida da minha vida passada. Sempre. Ele também me disse isso uma vez. Promessas vazias, sussurradas sob o disfarce da responsabilidade.
Uma dor aguda atravessou meu peito. A antiga Laura teria desmoronado, lágrimas ardendo em seus olhos. Mas esta Laura, a Laura renascida, apenas sentiu um nó frio e duro de determinação se apertando em sua barriga. Respirei fundo mais uma vez, empurrando a dor para baixo, bem fundo, onde não pudesse me tocar.
Então, abri a porta da cozinha. O som da minha entrada fez os dois pularem. Daniel, ainda segurando a mão de Sofia, pareceu assustado, seu rosto corando levemente. A fachada cuidadosamente construída de fragilidade de Sofia se quebrou por uma fração de segundo, um flash de irritação em seus olhos antes de ser substituído por uma inocência de olhos arregalados.
"Laura! Você voltou!" Daniel disse, afastando a mão da de Sofia como se estivesse queimado. O movimento súbito fez Sofia fazer beicinho. "Tudo bem no cartório?"
"Tudo bem", respondi, minha voz plana, desprovida de qualquer calor. Não olhei para nenhum deles diretamente. Meu olhar varreu a cozinha, notando a pilha de louça suja do café da manhã, as migalhas no balcão – a contribuição usual de Sofia para o caos doméstico. "Só um pouco de papelada."
"Ah, claro, a certidão!" Sofia chilreou, um pouco animada demais. "Eu disse ao Daniel que vocês dois deveriam comemorar hoje à noite! Talvez um jantar chique, só vocês dois!" Seus olhos correram para Daniel, um desafio silencioso.
Daniel pigarreou. "É, Laura, que tal? Hoje à noite? Para comemorar?" Ele olhou para mim, um brilho de incerteza em seus olhos. Ele não estava acostumado a me ver tão... indecifrável.
"Não posso hoje à noite", eu disse, sem hesitar. As palavras tinham gosto de liberdade. "Tenho muito o que fazer. E estou bem cansada."
O queixo de Daniel caiu. Ele literalmente piscou para mim. "Cansada? Mas... este é o nosso noivado! O dia da nossa certidão de casamento!" Sua voz continha uma nota de choque genuíno. Ele esperava que eu pulasse de alegria, que ficasse grata por suas migalhas de atenção.
Nesse momento, Sofia, sempre oportunista, interveio, sua voz tremendo levemente. "Oh, meu Deus, Laura, o que aconteceu com sua pulseira? Aquela que o Daniel te deu no seu aniversário no ano passado? A de prata com a pequena safira? Era tão linda." Ela ergueu o pulso. Em volta dele, brilhando na luz da cozinha, estava minha pulseira. A que Daniel me deu, a única joia que ele já me comprou. A que eu amei e guardei, usei todos os dias como um símbolo de seu suposto afeto.
Meu sangue gelou. A frieza era familiar, um fantasma da minha vida passada, onde Sofia sempre pegava o que era meu. Mas desta vez, não havia dor, apenas uma observação desapegada.
"Ah, essa coisinha velha?" Sofia riu, um som enjoativamente doce. "Eu a vi na sua cômoda, Laura, e achei tão bonita! Espero que não se importe. Não achei que você a usaria hoje, já que está tão ocupada." Ela puxou a manga de Daniel, seus olhos grandes e inocentes. "Não é linda, Daniel?"
Daniel, sempre o protetor, interveio imediatamente. "Sofia, devolva isso para a Laura. É dela." Mas seu tom era suave, não realmente repreensivo.
Eu balancei a cabeça. "Tudo bem", eu disse, as palavras mal um sussurro. Olhei para Sofia, seu sorriso presunçoso escondido sob um rubor exagerado. "Pode ficar, Sofia. Nunca combinou comigo de qualquer maneira."
A pulseira. Aquela pulseira esteve comigo em tantos momentos. Na minha vida passada, quando ele me deu, senti uma explosão de esperança, uma crença frágil de que talvez, apenas talvez, ele me visse, me amasse. Eu a usei durante minha gravidez solitária, durante o trabalho de parto agonizante, durante os momentos silenciosos de luto. Tinha sido um símbolo de uma promessa que ele nunca cumpriu. Agora, era apenas um pedaço de metal. Um fardo.
Tanto Daniel quanto Sofia me encararam, suas bocas ligeiramente abertas. Eles esperavam uma briga, lágrimas, uma cena dramática. Eles esperavam a antiga Laura.
Mas a antiga Laura se foi.
"Vou para o meu quarto", eu disse, minha voz plana. "Preciso estudar." Virei-me e saí, sem esperar por uma resposta. Ouvi o murmúrio fraco de suas vozes confusas atrás de mim, mas não me importei.
Fechei a porta do meu pequeno quarto, o que eu dividi com Sofia por anos antes que ela exigisse o seu próprio. Eu a tranquei. O clique da fechadura foi um baque satisfatório, uma barreira sólida entre meu passado e meu futuro.
Peguei os formulários de inscrição da faculdade de direito, meus olhos percorrendo os requisitos. Minha carta de aceitação de cinco anos atrás, amarelada nas bordas, estava embaixo deles. Desta vez, não haveria adiamento. Sem desculpas. Eu perdi cinco anos, uma vida inteira, para uma família que nunca me viu de verdade.
"Faculdade de direito, São Paulo, bolsa integral", murmurei, lendo a escrita desbotada. Eu tinha que me inscrever novamente, é claro. Mas o sonho ainda estava lá, vibrante e vivo. Eu tinha que trabalhar o dobro, recuperar o tempo perdido. O prazo de inscrição estava se aproximando, apenas um mês de distância. Eu tinha que gabaritar o vestibular. Tinha que escrever redações convincentes. Tinha que provar a mim mesma, e ao mundo, que eu era mais do que a sombra esquecida de Daniel.
Uma batida frenética na minha porta me assustou. Daniel.
"Laura? Você está realmente bem? O que está acontecendo?" Sua voz estava abafada, carregada com uma nota familiar de preocupação paternalista. Ele provavelmente pensou que eu estava tendo um colapso, um momento de nervosismo pré-casamento. Ele não tinha ideia.
Você pode gostar





