
Entre Vingança e Paz: Um Novo Fim
Capítulo 3
O tempo se arrastava na escuridão fria do poço. Meus gritos tinham se tornado sussurros roucos e, por fim, silêncio. Eu me agarrava a uma saliência de pedra na parede úmida, o corpo inteiro tremendo sem parar. A morte parecia certa, uma repetição inevitável do meu destino. Eu estava exausta, pronta para soltar e deixar a água me levar.
Foi quando ouvi um barulho vindo de cima. Um som de corda raspando na pedra.
Levantei a cabeça, com o coração disparado. Uma corda grossa desceu pela abertura do poço, balançando lentamente até chegar perto de mim. Agarrei-a com as poucas forças que me restavam.
"Segure firme", uma voz grave e autoritária rosnou lá de cima.
A voz era familiar. Me causou um arrepio que não era de frio. Era Coronel Valdemar. Um homem rico e poderoso da região, conhecido por sua crueldade e por tratar as pessoas como mercadoria. Na minha vida passada, Pedro, em seu desespero, quase me vendeu para ele. O medo que senti dele era visceral.
A corda começou a subir, me puxando para fora da escuridão. Meu corpo raspava na parede áspera do poço, arrancando pele dos meus braços e costas. Quando finalmente cheguei à borda, caí no chão, tossindo a água suja e tremendo violentamente.
Valdemar me olhava de cima, um charuto no canto da boca, seus olhos pequenos e calculistas me analisando como se eu fosse um animal ferido.
"Parece que você arrumou problemas com os Silva, garota", ele disse, soltando uma baforada de fumaça.
Ele se agachou ao meu lado, e o cheiro forte de charuto e de algo azedo me enjoou. Sua mão grande e áspera tocou meu rosto, e eu recuei instintivamente.
"Não tenha medo. Eu te salvei. Agora você me deve uma."
Seus dedos apertaram minha mandíbula, forçando-me a olhá-lo. O terror me paralisou. Eu sabia o que ele queria. Ele não era um salvador, era um predador que tinha encontrado uma presa fácil.
"Me solta!", consegui dizer, tentando empurrar sua mão.
Ele riu, um som baixo e gutural.
"Você não está em posição de dar ordens."
Sua outra mão começou a subir pela minha perna, por baixo do meu vestido encharcado e rasgado. O pânico me deu uma força que eu não sabia que tinha. Chutei, gritei e me debati com toda a fúria de uma vida de injustiças. Consegui me soltar de seu aperto e corri.
Corri sem olhar para trás, sem rumo, apenas para longe dele. Meus pés descalços pisavam em pedras e galhos, mas eu não sentia a dor. O único pensamento na minha cabeça era fugir.
Saí do quintal dos fundos e dei de cara com a frente da casa. A festa ainda estava acontecendo. Os convidados estavam espalhados pelo jardim, rindo e bebendo. Quando apareci, suja, encharcada, sangrando e com o vestido rasgado, o silêncio caiu como uma pedra.
Todos os olhos se viraram para mim.
"Meu Deus, é a Maria Clara!", uma mulher sussurrou.
"O que aconteceu com ela? Parece que saiu do inferno", disse outro.
Os sussurros se transformaram em um zumbido de julgamento. Vi os olhares de pena, de nojo, de curiosidade mórbida. A vergonha me queimou mais do que o frio. Eu estava exposta, humilhada diante de toda a cidade.
Então, Pedro apareceu na porta. Seu rosto, que antes exibia um sorriso cruel, agora estava contorcido de fúria. Ele marchou na minha direção, seus olhos ardendo de ódio.
"Sua vagabunda!", ele gritou, o som ecoando pelo jardim silencioso. "O que você fez? Tentou se matar para estragar a minha festa?"
Ele não me deu tempo de responder. Sua mão veio com força contra o meu rosto. O estalo do tapa foi alto, chocante. Caí no chão, a bochecha ardendo, o gosto de sangue na boca.
"Você não se cansa de me envergonhar?", ele continuou, em pé sobre mim, o rosto vermelho de raiva. "Eu te dei uma chance de sair com dignidade, e você volta assim? Suja, imunda, se mostrando para todos!"
Ele me agarrou pelos cabelos, me forçando a ficar de joelhos.
"Olhem para ela!", ele gritou para os convidados. "Olhem para essa louca! Ela tentou seduzir o Coronel Valdemar no meu quintal e, quando foi rejeitada, se jogou no poço para chamar atenção!"
A acusação era tão absurda, tão cruel, que me deixou sem palavras. Eu olhei para as pessoas, buscando um pingo de compaixão, um rosto amigo. Não encontrei nenhum. Eles acreditavam nele. Eu era a órfã, a agregada. Ele era Pedro Henrique Silva.
Meu corpo todo doía. A dor do tapa, a dor dos arranhões, a dor do frio. Mas nada doía mais do que a injustiça. O homem que eu amei, o homem que me jogou num poço para morrer, agora me acusava publicamente de ser uma prostituta e uma mentirosa.
Meu corpo cedeu. A força que me fez fugir de Valdemar, que me fez sobreviver no poço, se esvaiu. A escuridão começou a tomar as bordas da minha visão. A última coisa que ouvi foi a voz suave e vitoriosa de Sofia, se aproximando.
"Pedro, meu amor, não se altere. Ela não vale a pena. Vamos cuidar dela."
E então, tudo ficou preto.
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