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Capa do romance Entre sombras e lembranças

Entre sombras e lembranças

Tayler é um guarda-costas reservado que esconde um passado de traumas e amnésia. Ao ser designado para proteger a herdeira Amy em sua cidade natal, ele reencontra alguém que nunca o esqueceu. Amy reconhece no homem endurecido o menino que conheceu na infância e tenta despertar suas memórias perdidas. Enquanto enfrentam perigos crescentes, Tayler precisa confrontar antigas dores para descobrir se o amor pode florescer em meio às sombras do passado.
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Capítulo 1

Deitado sobre a mesa desgastada da sala de aula, meu olhar vagava pela janela, observando o sol se despedir do dia com seus últimos raios dourados. O sinal já havia soado há muito tempo, e a sala estava deserta, apenas eu e minha fiel companheira, a solidão. Com meros dez anos, órfão e vivendo de favor, eu me encontrava ali graças à piedade alheia, que me garantiu uma bolsa de estudos.

Embora me esforçasse para levar os estudos a sério, as dúvidas se infiltravam em minha mente. Será que realmente valia a pena? O que eu poderia me tornar? A sabedoria, por si só, seria capaz de mudar meu destino em um mundo onde apenas os herdeiros prosperam? Inspirando profundamente, levantei-me da cadeira, percorrendo a sala com o olhar. As lembranças dos colegas, sempre radiantes ao contar sobre suas viagens, presentes de aniversário ou as próximas grandes compras de seus pais, assombravam-me. Eu merecia essa felicidade?

Recolhi meus cadernos, colocando-os na bolsa, e comecei a caminhar em direção ao lugar que chamavam de "casa", uma palavra que para mim soava amarga e vazia.

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Ao atravessar a porta da frente, o relógio marcava dezenove horas. Subi as escadas em silêncio, como de costume. A casa estava mergulhada numa quietude total; Dona Izui já devia ter saído. Ela me acolhera em troca de serviços domésticos, uma barganha que eu aceitei sem hesitar, visto que qualquer coisa era melhor do que viver nas ruas.

Após um banho rápido, desci para a cozinha e preparei um pão com suco, o que me servia como uma modesta refeição. Perdi-me em pensamentos enquanto lavava a louça, até que um movimento súbito me trouxe de volta à realidade. Não percebi que alguém se aproximara. Na casa, além de mim, apenas Dona Izui deveria estar presente. Ao me virar, deparei-me com uma figura feminina que me observava silenciosamente. Ela tinha a pele pálida, olhos cor de mel e cabelos negros azulados que desciam até o quadril. Meu coração quase saltou do peito ao notar que ela se aproximava. Sem pensar duas vezes, corri para meu quarto, sem ousar perguntar quem ela era.

A realidade já me sobrecarregava com problemas suficientes, e sabia que, se Dona Izui não mencionara sua presença, certamente havia um motivo. Deitei-me no colchão, tentando afogar as preocupações no sono, o único refúgio onde podia encontrar uma felicidade ilusória. E assim, entreguei-me aos braços do esquecimento noturno, onde meus sonhos pintavam um mundo onde eu não era apenas um órfão, mas alguém que realmente importava.

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Pontualmente, como de costume, levantei-me às quatro da madrugada, guiado pelo rigor de minhas responsabilidades domésticas que precisavam ser cumpridas antes de ir para a escola. Desci rapidamente as escadas, com a mente já fixada na tarefa de completar meus afazeres o mais depressa possível. Hoje seria um dia diferente; teríamos uma excursão, e eu estava ansioso, quase eufórico. A escola era meu único refúgio, e qualquer oportunidade de escapar da rotina era um tesouro inestimável para mim.

Comecei varrendo e passando pano no chão, a urgência em meus movimentos refletindo minha ansiedade. Separei as roupas sujas e as coloquei na máquina de lavar. Felizmente, a louça já estava lavada desde a noite anterior, o que adiantava meu trabalho. Saí para o quintal e, com mãos ágeis, reguei o jardim e a horta, tirando o lixo e deixando tudo em ordem. Quando terminei, o relógio já marcava seis e quarenta e cinco. Sem perder um segundo, corri para me arrumar e sair.

O ônibus partiria às sete e quinze, e corri o mais rápido que pude pelas ruas ainda adormecidas, mas meus esforços foram em vão. Ao chegar ao ponto de encontro, vi apenas o vazio deixado pelo ônibus que já havia partido. A decepção desceu sobre mim como um manto pesado, e meu rosto não conseguia esconder o desânimo. Senti uma mão suave em meu ombro e me virei, encontrando o olhar compassivo da diretora Miranda Bowen.

- Sinto muito, Tyler, sei o quanto você queria ir - disse ela, sua voz carregada de sinceridade e empatia.

Miranda era uma das poucas pessoas que não me olhava com desprezo. Mesmo sendo herdeira da família fundadora da cidade, tratava-me com uma igualdade que aquecia meu coração. Sua gentileza contrastava fortemente com a indiferença que eu geralmente encontrava.

Sem outra opção, dirigi-me à biblioteca, meu santuário de conhecimento e histórias. Ali, entre as estantes repletas de livros, eu passaria o dia.

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Enquanto caminhava pelas fileiras de livros, uma melancolia suave invadia meu peito. A realidade do dia perdido ainda pesava sobre mim, mas ali, cercado pelo silêncio acolhedor da biblioteca, encontrava uma forma de consolo. Sentado em uma mesa isolada, abri um livro antigo e deixei que as palavras me transportassem para um lugar onde a decepção não podia me alcançar. Em meio ao turbilhão de pensamentos e emoções, permiti-me um breve sorriso. Naquele momento, no coração de tantas histórias, eu não estava mais sozinho.

Perdido no universo silencioso dos livros, não percebi a presença de alguém que me observava atentamente. Estava em meio ao meu quinto livro, ou ao menos fingindo lê-lo, pois na verdade apenas folheava as páginas, parando apenas quando algo realmente capturava meu interesse. Levantei os olhos por um instante e, para minha surpresa, encontrei um par de olhos mel fixos em mim, cheios de curiosidade.

Com um sobressalto, levantei-me, espantado ao vê-la ali. Seria ela alguma sobrinha ou neta de Dona Izui? Ela nunca mencionara nada sobre essa garota. Mas, novamente, Dona Izui raramente compartilhava algo comigo.

Tentei ignorá-la, caminhando em direção às estantes em busca do próximo livro. No entanto, senti sua presença como uma sombra, seguindo-me a cada passo. Continuando meu percurso, sentia-me cada vez mais incomodado e, ao perceber que ela ainda me seguia, virei-me de repente, encarando-a diretamente. Talvez, pensei, se ela se sentisse afrontada, iria embora.

Nossos olhares se cruzaram numa espécie de duelo silencioso. Seus olhos, tão serenos e profundos, eram impenetráveis. Senti um frio na espinha, uma sensação de vulnerabilidade sob aquele olhar inabalável. Não sei quanto tempo passamos assim, apenas nos encarando, mas para mim parecia uma eternidade. Eventualmente, minha determinação fraquejou e fui o primeiro a desviar o olhar. Aqueles olhos me davam arrepios, como se pudessem ver através de todas as minhas defesas.

Sentei-me novamente, fingindo retomar a leitura, mas minha mente estava uma tempestade de pensamentos e emoções. Quem era ela? O que queria de mim? O desconforto crescia, mas também uma curiosidade inquietante. Em meio à solidão habitual da biblioteca, a presença daquela estranha parecia quase surreal, um enigma que eu não sabia como resolver.

Enquanto tentava focar nas palavras diante de mim, sua imagem não saía de minha cabeça. Ela era uma intrusão em minha rotina cuidadosamente construída, um mistério que, de repente, eu sentia uma necessidade quase desesperada de desvendar.

Olhei para o relógio na parede e vi que já se passava das dezessete horas. Resolvi que era hora de voltar para casa. Hoje, Dona Izui sairia mais cedo para um destino desconhecido, então eu teria a oportunidade rara de chegar antes do habitual. Deixei para trás a garota, que continuava a me observar com aqueles olhos curiosos, e segui meu caminho.

Ao chegar, constatei que Dona Izui já havia saído, como esperado, e deixado uma pilha de louça na pia. Subi para meu quarto, e após um banho rápido, desci para lavar a louça. A água morna e o sabão eram um conforto simples, uma rotina que ajudava a silenciar os pensamentos tumultuados.

Já passava das vinte e duas horas quando terminei. Amanhã era sábado, e eu não precisava me preocupar com a escola nem com Dona Izui. Por algum motivo, ela sempre saía na sexta e só retornava no domingo à noite. Esses dias eram uma pausa silenciosa, uma chance para relaxar, claro, depois de deixar tudo em ordem.

Estava acostumado a viver sozinho. Não era algo tão ruim; muitas vezes, a própria companhia é a melhor que se pode ter. Respirei fundo, olhando a sala vazia, imaginando como seria se meus pais estivessem vivos. Será que estaríamos rindo juntos em uma sala como esta? Esses sonhos acordados eram minha fuga da realidade, uma forma de pintar um quadro onde a solidão não existia. Mas o problema dos sonhos é que, eventualmente, precisamos abrir os olhos.

E assim fiz. Porém, desta vez, algo era diferente. Havia alguém ali. A garota de antes, a mesma dos olhos mel, estava presente. Por que ela não havia ido com sua tia ou avó? O que ela fazia ali? Pensei em subir para meu quarto, mas, como se lesse minha mente, ela se adiantou e sentou-se na escada. Inclinando levemente a cabeça de lado e com um sorriso enorme, disse:

- Oi, sou Amy Harper

A surpresa paralisou-me por um instante. Sua voz era suave, mas carregava uma firmeza inesperada. A presença dela, naquele momento, quebrou a monotonia da minha solidão de uma forma que eu não conseguia entender. O sobrenome Harper ecoou em minha mente, trazendo uma mistura de curiosidade e apreensão.

- Tyler - respondi, quase automaticamente, sem saber o que mais dizer.

Amy sorriu ainda mais, e aquele simples gesto parecia iluminar o ambiente ao nosso redor. Aquele encontro, tão inusitado, acendeu algo em meu interior. Eu sabia que não poderia ter contato com ela; Dona Izui certamente não aprovaria. Talvez Amy não soubesse disso, então era melhor deixar claro para evitar problemas futuros.

- Senhorita Harper, eu não posso ter contato com você. Dona Izui não irá gostar, e eu já tenho problemas demais para lidar. Não estou afim de levar bronca da sua tia ou avó, seja lá quem for. Me perdoe se fui arrogante ou algo parecido.

- Oh - sua boca formou um perfeito "O", e logo ela soltou uma risadinha. Aquela risada me causou um frio na barriga, um frio bom, como se uma brisa fresca tivesse entrado na sala.

Seu riso, leve e cristalino, ecoou na sala vazia, quebrando a tensão que eu sentia em meu peito. Havia algo desarmante naquela simplicidade, algo que fazia meu coração bater mais rápido.

- Você não precisa se preocupar com isso - disse Amy, ainda sorrindo. - Eu não estou aqui para causar problemas. Apenas queria conhecê-lo. Tenho ouvido falar de você, e minha curiosidade foi mais forte.

Seus olhos brilhavam com uma sinceridade que eu raramente via. A sensação de desconforto começou a diminuir, substituída por uma curiosidade recíproca. Por que uma Harper, alguém de uma família tão importante, estaria interessada em um órfão como eu?

- Ouvido falar de mim? - perguntei, sem esconder minha surpresa.

- Sim - ela respondeu, sua voz suave como uma brisa de verão. - Ouvi dizer que você é muito inteligente e dedicado. Isso é raro, especialmente considerando tudo o que você passou.

As palavras dela me pegaram de surpresa. Eu não sabia que alguém notava ou se importava com meus esforços. Uma onda de emoções conflitantes tomou conta de mim - gratidão, confusão, e talvez até um pouco de esperança.

- Obrigado, Amy - disse, sentindo-me um pouco mais leve. - Eu... não sei o que dizer.

- Não precisa dizer nada - ela respondeu, levantando-se da escada. - Só queria que soubesse que há pessoas que percebem seu valor. Você não está tão sozinho quanto pensa.

Com essas palavras, Amy deu um passo em direção à porta, mas antes de sair, olhou para trás e acrescentou:

- Espero que possamos ser amigos, Tyler. Até logo.

Ela saiu, deixando-me sozinho na sala, mas agora com uma sensação diferente. A solidão habitual tinha sido substituída por uma nova perspectiva. As palavras de Amy ecoavam em minha mente, oferecendo um vislumbre de que talvez, só talvez, eu não estivesse destinado a viver sozinho para sempre.

Continua............

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