
Entre seu ódio e amor
Capítulo 3
O diretor quase perdeu a paciência. Mal podia acreditar que a médica a quem pagava um salário considerável ousasse dizer uma coisa dessas.
Quanto a Melanie, jamais imaginara encontrar alguém mais audacioso que a falecida Ximena.
Olhando para a médica à sua frente, cruzou os braços sobre o peito e franziu a testa. "Quem é você para se achar? Operar o filho de Ramon é um privilégio! Saia desse seu pedestal. Se ousar fazer algo que ponha a vida dele em risco, vai pagar caro pelo resto da vida."
"Se é um privilégio tão grande, faça você mesma", retrucou Ximena sem hesitar.
Melanie não acreditou no que ouvira. Agarrando a mão de Ramon, queixou-se: "Ramon, você ouviu o que ela disse? Se algo acontecer com Neil, a culpa é toda dela."
Ximena soltou uma gargalhada. "Que absurdo! Por acaso fui eu quem o empurrou do prédio? Como pode ser culpa minha?"
As palavras atingiram Melanie em cheio, e seu rosto empalideceu. "Pare de dizer bobagens", disse ela, apressada. "Neil caiu sozinho! Ninguém o empurrou. Você é médica ou não? Não fez o juramento de Hipócrates? Como pode ficar aqui perdendo tempo enquanto um paciente está morrendo na sala de cirurgia? Que rancor você tem contra Neil?"
Virando-se para o diretor do hospital, prosseguiu: "Vocês não fazem triagem ao contratar médicos? Como essa mulher conseguiu trabalhar aqui? Se algo acontecer com Neil, vou processar todo mundo!"
Tremendo de medo, o diretor desculpou-se repetidamente a Melanie e a Ramon. Imediatamente providenciou que o doutor Young realizasse a cirurgia.
No entanto, quando o doutor Young estava prestes a entrar na sala, Ramon o deteve.
Seu olhar feroz então se voltou para Ximena. "Você é quem vai fazer esta cirurgia", ordenou, num tom baixo e perigoso.
Bufando de desdém, Ximena virou-se para ir embora.
Foi esse gesto que finalmente fez Ramon perder a paciência. Com um passo rápido, colocou-se à sua frente e agarrou-a pelo pescoço.
"Ramon Mitchell, seu maldito, me solte!" Ximena xingou, arranhando a mão dele.
Um brilho gélido surgiu nos olhos de Ramon. Poucas pessoas no mundo ousavam falar com ele daquele jeito. Uma delas era sua falecida ex-esposa.
Enquanto encarava a mulher que se debatia diante dele, a fúria ardendo em seus olhos, ele parou por um instante, e a imagem da ex-esposa veio à sua mente. Lembrava-se bem de que Ximena tinha um par de olhos marcantes e belos, exatamente como os dessa médica tão feroz.
Os lábios de Ramon curvaram-se num sorriso sem humor. "Se algo acontecer a Neil hoje, a responsabilidade será sua. Este hospital inteiro vai pagar por isso!"
Como para deixar claro, empurrou a médica para o chão, soltando-lhe finalmente o pescoço.
Sentada no chão, Ximena tossiu algumas vezes. Ainda sentia a dor latejante em seu pescoço, como um aviso persistente. Quando ergueu o olhar para Ramon, os olhos se encheram de lágrimas de rancor.
Apoiando a mão na parede, levantou-se cambaleante e disse, com a voz rouca: "Você vai se arrepender disso!"
Em seu coração, só havia ódio puro por aquele homem e, por consequência, nenhum sentimento positivo pelo garoto na sala de cirurgia.
Porém, ao entrar na sala, seu profissionalismo falou mais alto, forçando-a a pôr de lado os sentimentos pessoais. Não queria direcionar todo aquele ódio a uma criança inocente.
Respirou fundo para se acalmar e olhou para o menino inconsciente na mesa. Seu rostinho estava inchado e ensanguentado pelo impacto, mas tinha um estranho ar familiar.
Claro, Ximena não tinha tempo para divagações. O garoto tinha várias fraturas que precisavam de tratamento imediato.
Três horas depois, a operação terminou.
A cirurgia foi um sucesso, e a equipe médica estava eufórica — todos, exceto Ximena.
Como o garoto era filho de Ramon, não parecia adequado deixá-lo coberto de sangue seco. A equipe insistiu em limpá-lo um pouco antes de levá-lo para fora. Coube a Ximena limpar seu rosto.
Relutantemente, ela pegou um chumaço de algodão úmido e passou no rosto de Neil. Nem percebeu que mantinha os dentes cerrados — tamanho era seu ódio por Ramon e, por extensão, por Neil. Mas, ao limpar as manchas de sangue do rosto do menino, ela parou, congelada.
Com as mãos trêmulas, terminou de limpar o resto daquele rosto pálido. Mesmo após terminar, uma descrença atordoada a invadiu. Como era possível?
"Quem é este menino?", perguntou Ximena, sem fôlego, agarrando a assistente ao lado.
"É Neil Mitchell, filho de Ramon Mitchell, o herdeiro da família Mitchell", respondeu a assistente.
"Neil Mitchell... Impossível!" O rosto de Ximena ficou mortalmente pálido.
O garoto na mesa era idêntico ao seu filho! Como duas crianças poderiam ser tão parecidas?
Seu irmão dissera claramente que ela tivera gêmeos, Shawn Griffin e Alina Griffin, ambos criados por ela. E, no entanto... Como poderia existir um menino tão parecido com seu filho?
Se não eram gêmeos, como teriam uma semelhança tão impressionante?
Ximena sentiu o ar faltar. Só se lembrava de que seu primeiro filho era um menino, que deveria ser Shawn. Mas teria ela dado à luz três bebês?
O suposto herdeiro dos Mitchell seria na verdade seu filho? Seu irmão teria mentido?
Mas por quê?
Baixou o olhar para o menino na mesa. Embora a equipe estivesse limpando as manchas de sangue de seu corpo, era óbvio que ele estava gravemente ferido. Ximena mal suportava vê-lo naquele estado.
Ramon a odiava tanto. Se Neil fosse mesmo seu filho, como poderia ser tratado com bondade por ele?
Ximena apertou o bisturi com força, incapaz de conter a fúria em seu peito. Com os olhos injetados de sangue, saiu correndo da sala de cirurgia.
"Doutora, como está o Neil?" Melanie chorou, correndo e bloqueando o caminho de Ximena.
"Saia da minha frente", rosnou Ximena, em voz baixa.
Só então Melanie notou o bisturi ensanguentado. Deu um grito e recuou instantaneamente, tomada pelo medo.
O olhar de Ximena caiu então sobre Ramon. Fazia apenas quatro anos desde o último encontro, mas ele parecia não reconhecê-la.
Bem, não era surpresa. Dois anos de casamento não haviam sido capazes de se comparar a uma única palavra de Lyla. Se Lyla quisesse algo, mesmo que fosse seu filho, Ramon lho arrancaria sem hesitar. E agora ele tratava seu filho assim. O homem era verdadeiramente sem coração!
Porém, Ximena era perspicaz. Ao olhar em volta, percebeu que estavam cercados pelos seguranças de Ramon.
Reprimindo a indignação, anunciou: "A cirurgia foi um sucesso, mas o menino está com febre. Se a febre baixar em 24 horas, ele estará fora de perigo. Até lá, ficará na UTI. Não são permitidas visitas, nem mesmo de familiares!"
Ximena pediu a uma enfermeira que levasse Neil para a UTI.
O diretor acenou aprovador. "Bom trabalho. Com você aqui, não preciso me preocupar."
"Sou médica. Só estou fazendo meu trabalho." Com essa resposta seca, Ximena virou-se e saiu.
Os olhos sombrios de Ramon fixaram-se em suas costas enquanto ela se afastava. Por alguma razão, o modo como o largo avental cirúrgico caía sobre a figura da médica fez-lhe lembrar a mulher de sua memória...
Melanie seguiu seu olhar e franziu a testa. "Há algo errado com essa médica?"
"Quem é ela?", perguntou Ramon, sem desviar os olhos da figura que se distanciava.
Melanie encolheu os ombros. "O diretor disse que a recrutou no exterior. Ramon, por que está olhando para ela assim? Está interessado? Já esqueceu minha irmã?"
"Chega." Ramon finalmente desviou o olhar, e seu rosto escureceu.
Melanie calou-se, sentindo como se um balde de água fria tivesse sido derramado sobre ela.
"É melhor rezar para que Neil acorde logo. Agora, suma daqui!", rosnou ele.
Melanie rompeu em lágrimas. "Ramon, juro que não foi culpa minha. Você sabe que Neil é arteiro. Eu só quis o melhor para ele. Cuid dele de todo o coração todos esses anos, tratei-o bem, na esperança de que não se afastasse de Lyla. Por causa dela, dei a Neil todo o amor que pude, tratando-o como um filho. Nunca quis que nada de mal lhe acontecesse."
"Pode ir."
Sem sequer olhar para ela ou dar atenção ao seu discurso, Ramon afastou-se com passos largos.
Ao avistar uma enfermeira no corredor, segurou-lhe o braço e perguntou: "Onde fica o consultório da médica?"
A enfermeira sorriu educadamente. "Senhor Mitchell, está procurando a médica que operou seu filho?"
"Sim."
"Siga em frente. O consultório dela é logo ali na esquina."
Ramon soltou-a e caminhou rapidamente em direção ao consultório, sem sequer perceber a velocidade de seus passos.
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