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Capa do romance Entre máscaras e motores

Entre máscaras e motores

Dividida entre o desejo de agradar seu pai policial e a paixão pela mecânica herdada dos avós, Maya vive uma vida dupla. Para equilibrar expectativas e sonhos, ela se esconde sob diversas máscaras, enfrentando um turbilhão de emoções até ser forçada a deixar o Brasil. Contudo, um incidente grave com seu irmão exige seu retorno imediato. Agora, ela está de volta, revelando uma personalidade ainda mais implacável para proteger quem ama.
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Capítulo 3

Chegamos na pizzaria e Guilherme está na porta.

- Você mora aí também é? Tem escola não?

- Gata, quanto tempo, já estava com saudades desde ontem quando saiu.

- Sem palhaçada agora Gui. O assunto é sério. Marcos tá aí?

- Vamos por partes porque você fez muitas perguntas. Não moro aqui, estou indo pra escola agora e o Marcos chegou ainda a pouco.

- Obrigada menino - Dou um beijo na bochecha dele- Agora vai atrás das tuas gatinhas que aqui agora o assunto é de adulto.

- Beijos gata. Até mais. Vê se me espera tá.

Ele sai dando uma piscadela e mesmo com ódio não consigo ficar brava ou deixar de rir.

Uma dica. Quando se tem amigos que são quase irmãos eles sabem de quase tudo da sua bosta de vida e com toda certeza no momento certo vão usar isso contra você mesmo que por um bom motivo.

- Marcos eu estou subindo e se você tiver com essa bunda branca pálida de fora pode tratar de cobrir porque eu estou invadindo sua casa.

- Estou vendo que a moeda girou - Ele fala gritando de dentro da casa - A porta está aberta Maya, não precisa arrombar.

Entro e como imaginei ele estava pelado.

- Eu falei pra se vestir merda!

- Não tive tempo. Você já arrombou minha porta várias vezes, não quero perder mais uma.

- Ei! Eu sempre paguei depois.

- Sem enrolação Maya. Se você está na minha casa às 8:30 da manhã e disposta a arrombar minha porta, sei que é por um bom motivo.

Ele passa pela porta do quarto terminando de colocar uma bermuda. E já me jogo no sofá dele com Fabi.

- Avisa a todos que Dom está de volta!

Quando falo isso vejo um corpo nu sair do quarto questionando.

- Donatello está bem? - Olho sem acreditar - Ele saiu do hospital? Finalmente o Dom voltou.

- Sério Marcos? A Prispiranha?

- Olha lá como fala queridinha.

- Primeiramente queridinha é a puta que te pariu. Segundo pega seus trapos, se cobre e sai agora antes que eu faça uma merda.

- Marcos, você vai deixar ela falar assim comigo?

- Priscila saí! A Maya tá certa. O assunto agora é sério e você não faz parte disso

- Eu quero saber do Dom, Marcos. Ele é meu amigo.

Eu saio do sofá vendo tudo vermelho e agarro ela pelo pescoço.

- Sua vadia, foi você, não foi? FALA CARALHO!

- Maya solta ela, ela tá engasgando. - Fabi está do meu lado e segura o braço que está em Priscila - Por favor! Pelo Tello.

Ela sabe como me acalmar. Largo o pescoço da Prispiranha e vejo ela cair tossindo.

- Priscila, pega suas roupas e sai. Tenho que conversar com a Maya e a Fabi.

Sento no sofá e vou respirando até voltar a mim. Depois de um tempo Marcos vem com um balde de long neck e coloca em cima da mesa de centro.

- Já pedi nossa pizza, vamos aos negócios.

E agora começa o meu plano!

✧✧✧

11 anos antes

- Aqui temos uma moeda. Desse lado, cara, desse outro coroa. Essa moeda é como você minha menina. Sei que quer ser a filha perfeita, mas não existe perfeição. Seja você mesma. Abrace a escuridão e a luz que há em você. Em tudo busque o equilíbrio para seguir. Grite, chore, quebre, mas também ame, beije e sorria.

Lembro de vovô me aconselhando. Ele pegava sua moeda da sorte e girava ela em cima da mesa. Era realmente o equilíbrio. Para nossa infelicidade nunca cheguei a ele. E por não conseguir, vivia de máscaras. Para todos eu era a Maya engraçada, meio tímida, medrosa, por vezes, incapaz. Me sentia inferior por muitas coisas e principalmente por não ser a melhor aluna, a melhor filha, a melhor amiga, a melhor namorada. Na minha cabeça, nunca seria melhor em nada. Mas como meu avô dizia de vez em quando a moeda girava. Eu era corajosa, petulante, e até meio louca e nervosa. Nesse lado da moeda, não tinha medos, enfrentava o que fosse, amava adrenalina sem medo de ser feliz. Só que a moeda continuava girando, aí vinha a vergonha, não queria decepcionar as pessoas que eu amava. E a minha personalidade, digamos, ousada, na minha opinião era decepcionante.

Para resolver esse problema me dividi. Soube bem diferenciar meus lados. E me protegi com todas as máscaras e fantasias possíveis.

Aos fins de semana vamos para a casa dos meus avós. Donatello e eu adorávamos. Esse não será diferente. Há alguns meses estamos reformando o carro antigo deles. E passamos quase todo o tempo livre fazendo isso. Estava quase pronto quando damos uma pausa para o almoço.

- Vocês já estão crescendo meninos. E um dia isso tudo vai ser de vocês. Já sabem o que querem da vida?

Donatello sempre foi objetivo.

- Vó, sabe que meu pai quer que a gente siga os caminhos dele, mas não adianta, eu vou ficar na oficina.

- Meu neto! Você tem só 10 anos mas é tão certo do que quer.

- Não sei essa palhaçada dele, mas a Maya pode seguir ele se quiser, já que tem medo de decepcionar o papaizinho.

- Donatello, olha como fala da sua irmã! Eu e sua avó não queremos que vocês discutam, só queremos saber suas opiniões.

- Desculpa vovô. - Ele fala e olha para mim e continua sua “humilde opinião” - Maya, você já tem 15 pode falar pro pai que não gosta da polícia.

- Tello, não é isso. Você ainda é pequeno, vai entender um dia.

- Minha menina. Faça o que deseja. Não se sinta pressionada pelo que querem pra você.

- Mas gente! Quando esse almoço virou uma cena de crime? Vamos animar! Só queremos o bem de vocês e seu avô é um pateta que ao invés de ter uma conversa agradável cria climão. Meu amor, casei com você pela sua animação.

- Tá certa minha gata - Eu amava o amor dos meus avós- Vamos comer em paz e terminar nosso possante. Esses pirralhos não vão sair daqui sem uma volta no carango!

E assim o almoço continuou alegre e bem animado. Realmente terminamos naquele mesmo dia o carro. Aquele Mustang 67 era o coração de todos nós. Vimos o pôr do sol de domingo encostados em seu capô de frente para a praia. Foi espetacular.

Dali nossos avós nos deixaram em casa. Na segunda, assim que chegamos da escola, soubemos que minha avó tinha falecido. Eu estava tranquila, mas sabia que antes do próximo fim de semana também não teria meu avô. E assim na sexta à noite, não tínhamos também o vovô.

Esse foi o fator que me fez criar mais máscaras e separar mais ainda meus lados. Iria deixar a moeda girar, mas nunca se veria os dois lados ao mesmo tempo. O equilíbrio já era e as máscaras seriam mais que necessárias.

Se passou uma semana do velório, meu pai sentou na sala e nos chamou ao seu lado.

- Maya e Donatello. Tem algo a ser dito, mas não sei se consigo.

- Pai, sei que o senhor está triste. Nós não precisamos conversar agora. Estamos do seu lado. - Eu sabia que meu pai estava mal e mesmo assim queria dar forças pra gente- Não se preocupe. Eu e o Tello vamos ficar bem.

- Minha filha. Eu sei. - Com um sorriso fraco ele continua - Obrigado por me dar força, mas o motivo da conversa é outro. Você já está com 15 anos, Donatello tem 10 mas é bem maduro então já posso ter essa conversa com vocês. Eu queria dizer que tudo que era dos seus avós é de vocês agora. A casa, a oficina, o carro e até o dinheiro da conta.

Eu e meu irmão nos olhamos sem entender o motivo daquilo.

- Pai na verdade é seu neh? Somos seus herdeiros.

- Não filho. A algum tempo eu levei os seus documentos pra eles. Já faz meses que tudo está no nome de vocês.

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