
Entre Heranças e Silêncios
Capítulo 3
Na manhã seguinte, Meire sentiu antes de ouvir.
Era um silêncio estranho, pesado demais para ser casual. Quando entrou no pátio do Instituto Santo Antônio Além do Carmo, as conversas diminuíram como se alguém tivesse abaixado o volume do mundo.
Ela manteve o olhar fixo à frente.
Mas os olhos estavam nela.
- É ela.
- A bolsista.
- A que anda com o Saito.
As palavras não eram ditas em voz alta. Eram sopradas, afiadas, treinadas para machucar sem deixar marcas.
Rebeca Becker observava tudo do alto da escadaria principal, cercada por duas amigas inseparáveis. Filha de um desembargador, neta de um empresário do ramo imobiliário, Rebeca aprendera cedo que mandar não era levantar a voz - era decidir quem pertencia e quem não.
- Ela não entendeu o lugar dela - disse Rebeca, com um sorriso leve demais para ser inocente.
- Acha que é o quê? - respondeu uma das meninas. - Diferente?
- Acha que é Cinderela - completou a outra.
Rebeca desceu os degraus com elegância estudada. Parou diante de Meire, bloqueando sua passagem.
- Bom dia - disse, com meiguice forçada. - Ou você só fala com quem vale a pena?
Meire parou. O corpo inteiro em alerta.
- Com licença - respondeu, tentando contornar.
Rebeca estendeu o braço, impedindo.
- Só queria entender uma coisa - continuou. - Você se acha especial por quê?
O pátio parecia conter a respiração.
- Não me acho - disse Meire, com voz firme apesar do tremor interno. - Só estou indo pra aula.
- Engraçado - Rebeca inclinou a cabeça. - Porque parece que você anda frequentando lugares que não são seus.
Meire sentiu o rosto queimar.
- E o que a vida dela tem haver com você - disse uma voz masculina atrás delas.
Otávio.
Ele se aproximou sem pressa, mas o olhar era duro.
- Estamos falando entre garotas - rebateu Rebeca, sem perder o sorriso. - Não precisa se meter.
- Preciso, sim - respondeu ele. - Quando alguém está sendo constrangido.
Um murmúrio percorreu o pátio.
Rebeca sustentou o olhar por alguns segundos, avaliando. Depois sorriu ainda mais.
- Claro - disse. - Deve ser difícil pra ela se defender sozinha.
Virou-se para Meire, baixando o tom.
- Aproveita enquanto pode. Só lembre-se que a ultima bolacha do pacote, sempre está quebrada!
E saiu, deixando para trás um rastro de tensão.
Meire sentiu as pernas bambas.
- Você está bem? - perguntou Otávio, em voz baixa.
- Estou - respondeu, rápido demais. - Não precisava...
- Precisava, sim.
Ela o encarou.
- Isso vai piorar.
- Já estava pior - ele disse. - Só não era visível.
Durante a aula, Meire percebeu os olhares atravessados, os risos abafados, os celulares discretamente apontados. Algo estava sendo construído. Ela sabia reconhecer o início de uma armadilha.
No intervalo, entrou no banheiro feminino e encontrou o espelho riscado com batom vermelho:
VOLTE PARA O SEU LUGAR MACACA.
O ar faltou.
Fechou os olhos por um segundo, apoiando as mãos na pia. Não chorou. Não ali.
Quando saiu, encontrou Otávio encostado na parede do corredor, esperando.
- Não quero que me procure - disse ela, antes que ele falasse. - Eles estão mirando em mim por sua causa.
- Eles já miravam antes - respondeu. - Agora só estão com medo de perder o controle.
- Você não entende - insistiu ela. - Se isso vira escândalo, eu perco a bolsa.
Otávio se aproximou um pouco mais, sem invadir.
- E se virar escândalo por causa deles?
- Não funciona assim.
Ela deu um passo para trás.
- Fica longe de mim - pediu. - Pelo menos por enquanto.
Aquilo doeu mais do que ele esperava.
- Tudo bem - disse, engolindo o impulso de insistir. - Mas eu não vou fingir que você não existe.
Os olhos deles se encontraram mais uma vez. Intensos. Carregados de coisas não ditas.
Meire virou-se e foi embora, sentindo o peso da decisão nas costas.
Do outro lado do corredor, Rebeca observava, satisfeita.
A guerra havia começado.
E, naquele lugar, quem ousava atravessar fronteiras aprendia rápido o custo da desobediência.
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