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Capa do romance Entre Heranças e Silêncios

Entre Heranças e Silêncios

Em Salvador, a bolsista Meire e Otávio Saito, herdeiro de um império coreano, vivem um amor proibido que termina em separação e uma gravidez oculta. Oito anos após o sumiço de Meire, o destino os reúne através da jovem Helena. O reencontro em meio a conflitos entre a Bahia e Seul desencadeia sequestros e disputas por status. Agora, eles precisam enfrentar segredos do passado e perigos reais para reivindicar sua identidade e o direito de amar em um mundo de elites.
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Capítulo 1

O sino do Instituto Santo Antônio Além do Carmo tocava sempre dois minutos antes do horário oficial. Não era pressa - era aviso. Ali, quem chegava atrasado aprendia rápido que tempo, assim como dignidade, era privilégio de poucos.

Meire atravessou o portão de ferro segurando a alça da mochila com força. Não por peso, mas por hábito. O prédio colonial se impunha diante dela como um lembrete diário de que aquele espaço não fora feito para corpos como o seu. As paredes claras, os corredores amplos e silenciosos, os quadros de ex-diretores - todos homens brancos, todos mortos - pareciam observá-la passar.

- Bom dia - disse, quase num sussurro, ao segurança.

Ele não respondeu. Nunca respondia.

Meire caminhou pelo pátio tentando se misturar ao fluxo de estudantes. Meninas de cabelo perfeitamente alinhado, sapatos caros, mochilas importadas. Meninos com sobrenomes fortes, risadas altas e a certeza de que o mundo lhes pertencia. Ela conhecia bem aquele roteiro: passar despercebida era uma estratégia de sobrevivência.

- Olha lá a bolsista... - cochichou uma voz atrás dela.

Não virou. Nunca virava.

Desde o primeiro dia, aprendera que reagir só tornava tudo pior. O Instituto Santo Antônio Além do Carmo tinha regras não escritas, e a principal delas era clara: bolsistas não reclamam.

Meire sentou-se na última fileira da sala de aula, perto da janela. Gostava dali porque podia olhar o mar ao longe, quando a mente ameaçava fugir do corpo. Abriu o caderno, alinhou a caneta sobre a mesa e respirou fundo. Mais um dia.

A porta se abriu com um leve atraso. O murmúrio foi imediato.

Otávio Janguiê Saito entrou sem pressa, como se o mundo estivesse perfeitamente ajustado ao seu ritmo. Alto, postura impecável, uniforme usado com um desleixo calculado. Filho do maior empresário do ramo de exportações do Nordeste, sua falecida mãe herdeira do Grupo Janguiê Educacional uma holding internacional ligada ao YDUK Group, neto de um coreano rígido e temido, Otávio carregava um tipo de silêncio que impunha respeito, e com isso o alvo de toda menina de família abastada que ali estudava.

Ele não sorria muito. Também não precisava.

Passou os olhos pela sala antes de se sentar, gesto automático, quase entediado. Foi quando seus olhos cruzaram, por um segundo, os de Meire. Ela desviou imediatamente. Otávio, não.

Algo naquela menina - talvez o jeito de desaparecer - chamou sua atenção. Não era beleza óbvia, não era o tipo que fazia os outros comentarem. Era outra coisa. Um cansaço precoce. Uma dignidade ferida, mas ainda em pé.

Na mesma hora, Otávio lembrou do trecho da música de Gilberto Gil :

" Toda menina baiana tem um santo que Deus dá,

Toda menina baiana tem o encanto que Deus dá

Toda menina baiana tem um jeito que Deus dá

Toda menina baiana tem defeito também ... que Deus dá"

Seus pensamentos foram interrompidos pelo anúncio do professor de inglês...

- Abram o livro na página 42

Meire obedeceu rápido. Inglês era sua melhor matéria, apesar de fingir dificuldade. Aprendera cedo que se destacar demais era perigoso. Ser boa demais era quase um insulto naquele lugar.

- Senhorita Meire, poderia ler o primeiro parágrafo?

O coração dela disparou. Levantou o olhar devagar, consciente dos cochichos que se espalhavam como veneno.

- I... I think... - começou, propositalmente hesitante.

- Pode ler, querida - insistiu o professor, já impaciente.

Ela leu. Com erros calculados, sotaque disfarçado, olhos baixos.

Otávio observava em silêncio.

Algo não se encaixava. Ele conhecia inglês suficiente para perceber: aquela leitura era ensaiada demais para ser ruim de verdade.

Quando a aula terminou, Meire recolheu suas coisas rapidamente. Não queria cruzar com ninguém. Mas ao sair, esbarrou em um corpo firme.

- Desculpa - murmurou, sem levantar o rosto.

- Tudo bem.

A voz era calma. Masculina. Diferente.

Ela ergueu os olhos.

Otávio.

Por um instante, o mundo pareceu suspenso.

- Você fala inglês melhor do que deixou parecer - ele disse, sem acusação. Apenas constatação.

Meire sentiu o rosto queimar.

- Eu... preciso ir.

Tentou passar, mas ele se afastou o suficiente para deixá-la ir, sem pressionar.

- Meu nome é Otávio - disse, antes que ela se afastasse de vez. - Caso precise de ajuda com... qualquer coisa.

Ela assentiu, sem saber o que responder, e saiu quase correndo pelo corredor.

Otávio ficou parado, observando-a desaparecer entre os arcos do prédio.

Naquele momento, sem saber explicar por quê, ele teve certeza de uma coisa:

aquela menina invisível carregava uma história que ninguém ali estava preparado para enfrentar.

E, pela primeira vez, ele sentiu vontade de desobedecer às regras do seu mundo.

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