
Entre a Morte e a Mentira
Capítulo 2
A água gelada subia pelas minhas pernas, e cada contração era uma onda de dor que me roubava o fôlego. Eu estava presa no meu carro, no meio de um túnel inundado em Lisboa. A tempestade que todos diziam ser a pior do século tinha chegado.
O meu telemóvel tinha apenas dez por cento de bateria. Liguei para o meu marido, Tiago, pela décima vez.
Caixa de correio.
"Tiago, por favor, atende. A água está a subir. Estou com dores, acho que o bebé..." A minha voz falhou.
Tentei outra vez. Desta vez, ele atendeu. O barulho de fundo era de vento e chuva, mas também de outra coisa. Um latido.
"Lara? O que se passa? Estou no meio de um caos." A voz dele era tensa, irritada.
"Tiago, estou presa no túnel da Baixa. A água não para de subir. Preciso de ajuda. As dores estão muito fortes."
Houve uma pausa. Ouvi uma voz feminina ao fundo, abafada. "Está tudo bem, querido?"
Era a Helena. A sua "melhor amiga".
"Lara, não consigo chegar aí agora", disse ele, a voz apressada. "A ponte está um inferno e a Helena torceu o pé a fugir de uma árvore que caiu. O cão dela, o Faísca, quase se afogou. Estou a levá-los ao veterinário de urgência."
O meu mundo parou por um segundo. Um pé torcido. Um cão. Eu estava grávida de oito meses, presa numa inundação, a sentir as dores do parto a começar.
"Um cão?", sussurrei eu, incrédula. "Tiago, eu acho que estou a perder o nosso filho."
"Não sejas dramática, Lara. Liga para o 112. Eles são pagos para isso. Tenho de ir, a Helena está a tremer de frio."
Ele desligou.
Olhei para o ecrã do telemóvel. A chamada terminada. A bateria em oito por cento. A água já batia na janela do carro.
As lágrimas misturaram-se com a água da chuva que entrava por uma fresta. A dor no meu ventre era a única coisa real. O nosso bebé. O bebé que tentámos ter durante três anos.
A minha visão começou a ficar turva. A última coisa que vi antes de desmaiar foi a luz de uma lanterna a brilhar através do vidro e um homem a partir a janela com um martelo de emergência.
Você pode gostar





