
Enterrada Viva: Seu Espírito Inquebrável
Capítulo 3
Eu os vi pela porta entreaberta, seus corpos entrelaçados na luz fraca do escritório. A risada de Carina, leve e arejada, flutuou para fora. A voz profunda de Caio, um murmúrio de palavras carinhosas. Meu mundo, já fraturado, se estilhaçou em um milhão de pedaços.
Era um pesadelo, mas eu estava bem acordada. O ar em meus pulmões parecia grosso, como lama. Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola. Minha visão embaçou, não de lágrimas, mas de uma raiva súbita e vertiginosa.
Abri a porta com um estrondo. O som ecoou pela casa silenciosa. Eles se separaram num pulo, como crianças culpadas pegas roubando biscoitos. Carina gritou, se apressando para se cobrir. O rosto de Caio era uma máscara de choque, e depois, rapidamente, de raiva.
"O que você pensa que está fazendo?", gritei, minha voz crua e quebrada. Avancei no Caio, minhas mãos voando, unhas à mostra. Arranhei seu rosto, seu pescoço, qualquer coisa que eu pudesse alcançar. O desejo de infligir dor, de fazê-lo doer tanto quanto eu, era avassalador.
Ele agarrou meus pulsos, torcendo-os, seu aperto como ferro. "Clara, pare com isso!", ele rosnou, seus olhos em chamas. Ele me empurrou para longe. Eu tropecei para trás, batendo na quina afiada de uma mesa de mogno. Uma dor lancinante atravessou meu quadril.
Carina, agora encolhida atrás de Caio, espiou, seus olhos arregalados com um terror fingido. "Caio, querido, ela enlouqueceu!", ela choramingou. "Ela está te machucando!"
"Louca?", eu ri, um som áspero e sem humor que rasgou minha garganta. "Eu estou louca? Vocês dois, fazendo isso na minha casa? Ele era meu noivo! E você... você é minha irmã!"
O rosto de Carina endureceu. "Ele nunca foi verdadeiramente seu, Clara. Ele me amava. Sempre amou. Você só o pegou primeiro porque eu não estava aqui." Sua voz, antes tão doce, estava tingida de veneno.
"Sua vadia manipuladora!", gritei, minha mente se desfazendo. "Espero que vocês dois queimem no inferno! Espero que sofram! Espero que morram!" As palavras jorraram de mim, venenosas e descontroladas.
O lábio de Caio se curvou em um desprezo. "Você precisa de ajuda, Clara. Ajuda séria. Você está perdendo o controle. Talvez um médico possa te fazer entrar na razão." A frieza em sua voz foi como um golpe físico.
Nesse momento, Eunice e Alan entraram correndo, atraídos pela comoção. Eunice olhou para a cena, seu rosto contorcido em nojo. "Clara! O que diabos está acontecendo aqui? Pare com isso imediatamente!", ela ordenou, sua voz afiada e autoritária.
"Ela enlouqueceu, mamãe!", Carina soluçou, agarrando-se a Caio. "Ela nos atacou! Disse coisas terríveis!"
Alan me encarou, seus olhos cheios de decepção. "Clara, acalme-se. Essa não é você."
"Essa não sou eu?", engasguei, apontando um dedo trêmulo para Caio e Carina. "Eles me traíram! Eles estão tendo um caso!"
Eunice ofegou, a mão voando para a boca. "Já chega! Carina é sua irmã! Como você pôde acusá-la de tal coisa? Você está transtornada, querida. Está imaginando coisas."
Eles se uniram contra mim, suas palavras uma barragem de acusações e dispensas. Eu era a histérica, a louca, a mentirosa. Eu era uma estranha, sempre fui. Eles eram a família. Eles estavam unidos. E eu estava sozinha.
Eu não conseguia respirar. Sentia como se estivesse me afogando, sufocando sob o julgamento coletivo deles. Eles me olhavam com pena, com desdém, com medo. Eu era o problema. Eu era a louca.
Fugi de casa, correndo sem rumo pela noite. Acabei do lado de fora do quartel militar de Caio, gritando seu nome, implorando para que ele saísse, para explicar, para negar tudo. Ele apareceu no portão, seu rosto iluminado pelas luzes duras da rua. "Vá para casa, Clara", disse ele, com a voz plana. "Se você não parar com isso, terei que conseguir uma ordem de restrição."
Tentei expô-los. Contatei tabloides, desesperada para contar minha história. Mas a família Rocha tinha vastos recursos, conexões poderosas. Meus gritos desesperados foram silenciados, distorcidos, virados contra mim. Fui pintada como uma mulher desprezada e instável, obcecada e delirante.
Uma manhã, eu estava do lado de fora do prédio do Grupo Rocha, uma faixa grosseira pendurada nos ombros. "CAIO MENDES, TRAIDOR E MENTIROSO! CARINA ROCHA, DESTRUIDORA DE LARES!", gritei, minha voz crua, minha garganta queimando. Eu queria arruiná-los, assim como eles me arruinaram.
Os seguranças dos Rocha, homens que me conheciam desde a infância, avançaram sobre mim. Eles me arrastaram, chutando e gritando, de volta para a mansão. Eunice me encontrou na porta, seu rosto uma máscara de fúria fria. Ela me deu um tapa no rosto, forte o suficiente para arder.
"Sua criatura ingrata!", ela cuspiu. "Você tirou tudo da Carina! Vinte anos da vida dela! Você não vai arruinar o pouco que lhe resta!"
Eles me trancaram no porão empoeirado e frio. Dias se transformaram em noites. Eles me deixaram passar fome, me negaram o sono. Eles me quebraram, física e mentalmente. Meu espírito, antes tão desafiador, murchou sob sua crueldade implacável.
Então, um dia, Caio apareceu na porta do porão. Ele estava em seu uniforme de gala, parecendo elegante, impecável. Ele segurava um documento na mão. "A licença de casamento foi aprovada, Clara", disse ele, sua voz desprovida de emoção. "Carina e eu vamos nos casar neste fim de semana."
Minha visão nadou. Meu coração parou. Era isso. O golpe final.
Ele olhou para mim, um lampejo de algo em seus olhos, algo que eu não conseguia decifrar. "Eu disse a eles que me casaria com você se você parasse de lutar", disse ele, um tom estranho e oco em sua voz. "Eu disse a eles que cuidaria de você."
Ele me ofereceu uma mão, mas parecia uma armadilha, um cálice envenenado. Minha mente disparou, tentando entender. Casar comigo? Depois de tudo isso? Não fazia sentido. Era um adiamento, mas um que parecia muito mais aterrorizante do que qualquer punição.
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