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Capa do romance Enquanto Eu Te Esperava

Enquanto Eu Te Esperava

Teresa viveu décadas sob a sombra de uma promessa: o retorno do homem que partiu para a guerra e sumiu. Sozinha, ela criou cinco filhas, mantendo viva uma chama que o tempo não extinguiu. Vinte e cinco anos depois, uma jornalista decide investigar esse mistério, trazendo à tona a possibilidade de ele estar vivo. Em meio a novas conexões e segredos do passado, Teresa descobre que certas esperas não cansam; elas apenas preparam o coração para o reencontro.
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Capítulo 3

🛩️

A cidade de Santa Aurora parecia respirar diferente naquele dia. O sol iluminava as ruas de paralelepípedo, refletia nas vitrines simples do comércio local e fazia a praça central ganhar um brilho especial. Vinte e cinco anos depois, Santa Aurora se tornaria um polo comercial importante, cheia de movimento e pressa. Mas, em 2000, tudo ainda caminhava devagar. O tempo ali respeitava os sentimentos.

Foi no Baile Anual de Santa Aurora que Teresa dançou pela primeira vez com Augusto Vidal. Três músicas. Nenhuma palavra em excesso. E a certeza silenciosa de que aquele homem voltaria para casa - mesmo quando o mundo dissesse o contrário.

Naquela manhã, Teresa acordou com um sorriso que insistia em permanecer. Abriu os olhos devagar, sentindo o vento leve entrar pela janela e balançar a cortina de renda que sua mãe havia lavado no dia anterior. Havia algo no ar. Um pressentimento bom, desses que aquecem o peito sem explicação.

Ela se sentou na cama, passou a mão pelos cabelos ainda soltos e respirou fundo.

- Hoje vai ser um dia bonito - murmurou para si mesma, sem saber o quanto estava certa.

Levantou-se, colocou o vestido simples de algodão azul-claro e foi até a cozinha. A casa ainda guardava o cheiro de café recém-passado. Sua mãe arrumava a mesa com cuidado, como fazia todos os dias.

- Bom dia, minha mãe - Teresa disse, aproximando-se e a abraçando por trás.

- Bom dia, minha querida - respondeu a mulher, retribuindo o carinho. - Seu pai já saiu para a lavoura. Como sempre, antes do sol esquentar.

- Vou até a igreja fazer minhas preces - Teresa comentou. - Depois vou dar uma volta na praça com a Dália.

A mãe sorriu, enxugando as mãos no avental.

- Que Nosso Senhor e Nossa Senhora de Guadalupe te acompanhem, minha menina.

Teresa inclinou a cabeça, recebendo a bênção como fazia desde criança. A fé fazia parte da vida delas, assim como a esperança. Pegou sua bolsa pequena, despediu-se da mãe com um beijo no rosto e saiu.

O caminho até a igreja era familiar. Cada passo carregava lembranças. Quando chegou, avistou Dália conversando animadamente com o coroinha do padre. Teresa sorriu de lado. Sabia que os dois se gostavam desde sempre. Dois dias antes, haviam sido prometidos um ao outro em casamento. Era bonito de se ver um amor que cresceu antes mesmo da promessa.

- Você está radiante hoje - Dália comentou assim que Teresa se aproximou.

- Estou? - Teresa perguntou, surpresa.

- Está. Parece até que dormiu sonhando.

Talvez tivesse dormido. Ou talvez estivesse acordada para algo que ainda não entendia.

Elas entraram na igreja, acenderam velas, fizeram suas preces em silêncio. Teresa pediu por um amor sincero, puro. Um amor que chegasse como a brisa fria do anoitecer e permanecesse como o calor do amanhecer.

Ela ainda não sabia, mas naquela mesma noite, quando seus olhos encontrassem os do Sargento Vidal, tudo mudaria.

---

O sol já havia se despedido quando Teresa começou a se arrumar para o Baile Anual de Santa Aurora. A casa estava silenciosa. Sua mãe separara o vestido com antecedência: um modelo simples, cor creme, cintura marcada e saia rodada, costurado à mão. Teresa passou os dedos pelo tecido com cuidado.

- É bonito - disse a mãe, observando da porta. - Combina com você.

Teresa sorriu, sentindo o coração acelerar sem saber por quê.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Augusto Vidal ajustava o nó da gravata diante do espelho. O reflexo mostrava um homem mais maduro do que quando partira. O uniforme estava impecável. As medalhas repousavam ao lado esquerdo do peito, próximas ao coração. Ele respirou fundo.

Voltar para Santa Aurora depois de tantos anos fora era estranho. Familiar e distante ao mesmo tempo. Mas havia algo diferente naquela noite. Algo que não sabia nomear.

- Você está nervoso - Dália comentou, encostada no batente da porta.

- Talvez - ele admitiu. - Ou talvez seja só o tempo tentando me lembrar de quem eu sou.

- Hoje você vai conhecer alguém - ela disse, com um sorriso enigmático.

- É mesmo? Quem?

- Teresa. Minha melhor amiga.

Augusto pensou no nome. Teresa. Soava bonito.

- Querendo me arrumar uma esposa, prima?

Dália cruzou os braços.

- Só se prometer que não vai fazê-la sofrer.

- Nem se eu quisesse seria capaz disso - ele respondeu, sério. - Se por acaso gostarmos um do outro, será ela a minha esposa.

- Você nem a conhece, Augusto.

- Mas vou conhecer, de é sua amiga, sei que é de boa família e de caráter impecável.

Dália suspirou, vencida.

- No baile, eu apresento. Mas cuide dela.

- Eu juro.

---

O salão do clube social estava iluminado por luzes amareladas. A banda afinava os instrumentos. O perfume das mulheres misturava-se ao som das conversas baixas. Teresa entrou acompanhada da mãe e sentiu o olhar de algumas pessoas se voltarem para ela. Não por vaidade, mas porque havia algo diferente naquela noite.

Foi então que ela o viu.

Augusto estava de pé próximo à entrada, conversando com alguns conhecidos. Fardado. Imponente. Quando seus olhos se cruzaram, o mundo pareceu diminuir. O corpo de Teresa reagiu antes do coração, antes da razão. Ela sentiu o chão desaparecer por um instante.

- É ele - Dália sussurrou ao seu lado.

- Quem? - Teresa perguntou, mesmo sabendo a resposta.

- Augusto Vidal.

Antes que pudesse dizer algo, Dália já os conduzia um ao outro.

- Teresa, este é meu primo, Augusto.

- É um prazer - ele disse, inclinando levemente a cabeça.

- O prazer é meu - Teresa respondeu, sentindo a voz tremer.

Augusto respirou fundo e se virou para a mãe de Teresa.

- Dona... posso pedir a permissão para dançar com sua filha?

A mãe de Teresa o avaliou por alguns segundos. Viu respeito, educação e algo raro: verdade.

- Pode, sim.

Augusto estendeu a mão. Teresa aceitou.

A música começou.

Eles dançaram. Uma. Duas. Três músicas seguidas. Não disseram muito. Não precisaram. O mundo ao redor parecia desaparecer. A mãe de Teresa observava de longe, conversando com Dália.

- Ele é um ótimo pretendente - comentou. - Nunca vi minha filha assim.

- Eles foram feitos um para o outro - Dália respondeu, com os olhos marejados.

E ali, naquele salão simples, entre olhares, passos sincronizados e promessas silenciosas, Teresa e Augusto selaram um laço que nem o tempo, nem a distância, nem o silêncio seriam capazes de romper.

Aquele simples encontro, aquela simples troca de olhares, serviu para unir duas almas para toda a eternidade.

{...}

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