
Emma Russell: A Mulher Renascida
Capítulo 3
Um ano passou como um borrão, um turbilhão de luto, raiva e planejamento meticuloso. A vida nas sombras, longe dos olhos curiosos de Caio, era fria, mas clara. Eu não era mais Helena Ferraz. Eu era Íris. E Íris tinha um único e ardente propósito.
A notícia estourou em uma manhã de terça-feira. "Concurso Anual de Design da Alencar Corp: Finalistas Anunciados!" A manchete gritava de todos os blogs de tecnologia. Meu coração, geralmente um tambor constante, deu um salto. A imagem que acompanhava mostrava os rostos radiantes dos principais concorrentes. No centro, radiante e falsamente confiante, estava Bruna Soares.
Seu projeto, "Aura", foi aclamado como um avanço. "Um algoritmo de IA revolucionário", os artigos se derramavam, "prometendo interação intuitiva com o usuário e inteligência emocional incomparável." Os críticos elogiaram sua "empatia semelhante à humana" e "integração perfeita".
Meu sangue gelou. Aura. Minha Aura. O projeto no qual eu derramei minha alma após a morte do meu pai, uma personificação digital de sua visão, uma maneira de manter sua memória viva. Eu mostrei a Caio os protótipos iniciais, compartilhei minhas esperanças, meus sonhos, até mesmo o nome. "Aura", eu disse a ele, "porque parece uma presença, um espírito vivo."
Ele ouviu, ou fingiu ouvir. Ele viu o código inicial, a arquitetura intrincada. Ele viu o amor cru e sangrento que eu derramei nele, uma tentativa desesperada de preencher o vazio que meu pai deixou.
Meu pai. Davi Ferraz. A dor no meu peito era uma pontada familiar e dolorosa. Caio esteve lá, sempre, durante aqueles dias sombrios após a aquisição hostil, depois que o coração do meu pai parou. "Eu vou cuidar de você, Helena", ele prometeu, seu braço em volta dos meus ombros trêmulos no funeral. "Vamos superar isso juntos." Mentiras. Tudo mentiras. Enquanto eu estava de luto, ele estava consolidando seu roubo. Ele estava abrindo caminho para Bruna.
Agora, minha Aura, nascida da minha dor mais profunda e do legado do meu pai, era o bilhete de Bruna para a fama. Uma ferramenta para ela, para eles, ascenderem. A injustiça parecia um golpe físico.
Não hesitei. "Me arranje um carro para o centro de conferências da Alencar Corp", ordenei ao meu motorista, minha voz seca. "Agora."
O grande salão fervilhava de excitação. Os holofotes me cegaram enquanto eu abria caminho pela multidão de repórteres e especialistas da indústria. No palco, Caio estava ao lado de Bruna, seu braço em volta dela, um sorriso orgulhoso e possessivo no rosto. Ela usava um vestido branco cintilante, interpretando perfeitamente o papel da ingênua. O logotipo "Aura", meu logotipo, piscava atrás deles em uma tela enorme.
Avancei, uma força da natureza. Os seguranças tentaram me bloquear, mas minha raiva me impulsionou. Desviei de um braço musculoso, arranquei um microfone de um repórter perplexo e corri em direção ao palco.
"Ela é uma fraude!" Minha voz, amplificada pelo microfone, cortou os aplausos como uma faca. O silêncio repentino foi ensurdecedor. Todos os olhos na sala se viraram para mim.
O sorriso de Caio desapareceu. Os olhos de Bruna se arregalaram de terror.
"Este projeto 'Aura'", continuei, minha voz crua de emoção, "é uma obra-prima roubada. É minha criação. Cada linha de código, cada projeto arquitetônico, cada recurso inovador – tudo veio de mim. Helena Ferraz."
Um murmúrio se espalhou pela multidão. O rosto de Bruna ficou branco como papel. Ela tropeçou para trás, agarrando o braço de Caio, sua inocência fingida desmoronando.
"Isso é ridículo!" Caio rugiu, dando um passo à frente. "Segurança! Tirem essa mulher daqui!"
"Você acha que pode me silenciar?", desafiei, tirando um pequeno pen drive criptografado do meu bolso. "Eu tenho os documentos de design originais, o código inicial, datado e com carimbo de tempo. Meu pai, Davi Ferraz, me ensinou a proteger meu trabalho. Este é o legado dele, e o meu!" Ergui o pen drive.
Bruna gemeu, enterrando o rosto no ombro de Caio. "Caio, ela está louca! Ela sempre foi instável depois que o pai dela... você sabe."
Caio, com o rosto contorcido de fúria, avançou sobre mim. Ele arrancou o pen drive, seus dedos esmagando-o em seu punho. Ele ergueu o braço e, com um rugido primal, o esmagou contra o chão do palco. Cacos de plástico e metal se espalharam. Minha evidência. Minha prova.
"Ouçam-me, todos vocês!", Caio gritou para a plateia atônita, sua voz retumbando. "Esta mulher é delirante! Ela está instável há meses, desde a morte de seu pai. Ela está obcecada por mim, por Bruna, projetando seus próprios fracassos em nós!" Ele puxou Bruna para a frente, como se para protegê-la. "Bruna Soares é um talento brilhante, uma visionária! Esta mulher... esta Helena Ferraz... ela não passa de uma bagunça patética e ciumenta!"
As palavras me atingiram como golpes físicos. Patética. Bagunça.
"Você acha que pode me apagar, Caio?", gritei, minha voz falhando. "Você roubou a empresa do meu pai, você roubou meu trabalho, você roubou minha vida! Você nunca vai se safar disso! Eu vou fazer você pagar! Juro por Deus, eu vou ver você queimar!"
Dois seguranças corpulentos me agarraram, suas mãos como grampos de ferro em meus braços. Eu lutei, chutando, gritando, minha voz rouca.
"Ela está claramente desequilibrada!", Caio gritou para os repórteres, seu rosto uma máscara de falsa preocupação. "Ela precisa de ajuda. Ajuda psiquiátrica."
"Seu monstro! Seu monstro sem alma!", gritei, enquanto eles me arrastavam para trás, meus saltos raspando no chão polido. "Eu vou te assombrar! Eu vou destruir tudo o que você construiu!"
Caio me observou, seus olhos frios, desprovidos de qualquer reconhecimento ou pena. Apenas um lampejo de alívio, uma sensação de ter finalmente lidado com um incômodo. Ele acenou para os guardas, um comando silencioso para se livrarem de mim.
A última coisa que vi antes que as portas se fechassem foi Bruna, espiando por trás de Caio, um sorriso triunfante substituindo sua fachada inocente. Eles venceram. Por enquanto.
"Levem-na para a clínica", ouvi Caio dizer, sua voz calma, racional, como se estivesse discutindo uma máquina quebrada. "Digam a eles que ela é um perigo para si mesma e para os outros. Certifiquem-se de que ela seja... contida."
O mundo lá fora era um borrão de luzes piscando e rostos confusos. A van branca, as paredes acolchoadas, o cheiro estéril. Eles me amarraram. Meus gritos morreram na minha garganta, substituídos por uma determinação fria e dura. Ele me queria contida? Ele me queria silenciada? Ele acabou de acender o pavio de sua própria destruição.
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