
Em outra pele
Capítulo 3
Saí da sua sala com os pés trêmulos, aquele homem causava algo em mim, como se minha alma, meu corpo o reconhecessem. Estava prestes a entrar no elevador quando alguém me empurrou, me prensando contra o vidro do elevador.
- O que está acontecendo? - perguntei, procurando o agressor. Fiquei surpresa, era ele, Carlos Torres.
- Nunca faço isso, mas a verdade é que não consigo me conter mais - disse, enquanto suas mãos tomavam meu rosto.
Sua boca se colou à minha, no começo não sabia o que fazer, mas depois algo foi mais forte do que minha vontade de resistir.
O elevador parou com um leve puxão, e durante alguns segundos, a realidade ficou suspensa naquele pequeno espaço metálico. Meus lábios ainda queimavam, o sabor dele ainda estava ali, na minha boca, como um lembrete do que acabara de acontecer. Carlos permanecia na minha frente, sua respiração errática, sua testa encostada na minha. Por um momento, pensei que ele fosse falar, mas tudo o que fez foi fechar os olhos e apertar a mandíbula.
- Isso é um erro - murmurou, sua voz rouca, quase um sussurro.
Meus olhos buscaram os dele, mas ele não os abriu. Parecia perdido, como se estivesse lutando contra algo que não conseguia controlar. Quis me mover, me afastar, mas não consegui. Meus pés estavam presos ao chão, meu coração batia descompassado no peito, e minha mente estava em um caos.
- Um erro? - repeti, tentando não deixar minha voz tremer. Dói, embora eu não entendesse por quê. Como algo tão rápido poderia doer tanto, algo que eu mal havia processado?
Carlos se afastou um passo, deixando um vazio que me fez estremecer. Finalmente, abriu os olhos, mas não havia vestígio da paixão de antes. Estavam cheios de culpa.
- Não devia ter te beijado, não devia ter deixado isso acontecer - continuou, evitando me olhar diretamente.
Suas palavras me atingiram como um soco. Senti o calor que havia invadido meu corpo se transformar em gelo. A confusão se misturava com uma pontada de raiva, mas, principalmente, de dor.
- Então, por que fez isso? - perguntei, incapaz de me conter. Minha voz saiu mais alta do que eu esperava. Minhas mãos se fecharam em punhos ao meu lado.
Ele não respondeu imediatamente. Passou uma mão pelo cabelo, visivelmente frustrado, como se estivesse procurando as palavras certas.
- Não sei, não consigo explicar. É como se... como se eu não pudesse me controlar quando estou perto de você. Mas isso não deveria acontecer.
- Por que não? - retruquei, dando um passo em direção a ele. Meu coração ainda batia forte, e embora soubesse que estava me arriscando, não conseguia ficar em silêncio. - Não entendo, Carlos. Primeiro me beija como se... como se significasse algo, e agora diz que foi um erro. O que você quer de mim?
Ele me olhou, e nos seus olhos vi um brilho de algo que parecia tão confuso quanto o que eu sentia. Dor, desejo, medo... tudo misturado.
- Quero que você se afaste de mim, Aletza. Não volte à minha sala, não haverá mais entrevistas - disse, finalmente, sua voz firme, mas quase um sussurro.
As palavras dele foram um golpe direto no peito. Abri a boca para dizer algo, para perguntar o porquê, mas nada saiu. Como se esperava que eu reagisse?
- Se afaste? - repeti, incrédula. Dei um passo para trás, como se a distância física pudesse me proteger do impacto do que acabara de dizer. - Por quê? O que você está tentando proteger? A mim ou a você? Eu não vim aqui porque quis, vim fazer um favor.
Carlos suspirou, e por um momento, parecia mais cansado do que nunca.
- De ambos.
- Não entendo... - minha voz quebrou, e odiei o quanto soava vulnerável. Me forcei a erguer o queixo, a manter minha dignidade, embora por dentro me sentisse desmoronando. - Se me quer longe, então não me beije mais. Não olhe para mim assim, como se fosse me devorar. Não brinque comigo, Carlos.
Ele deu um passo em minha direção, e antes que eu pudesse recuar, tomou meu rosto entre as mãos. Seus dedos eram firmes, mas não me machucavam. Pelo contrário, seu toque era quente, reconfortante.
- Não estou brincando com você, Aletza - disse com uma intensidade que me deixou sem fôlego. - Você é... você é tudo o que eu não deveria querer, mas não consigo evitar. E isso me assusta.
Sua confissão me deixou paralisada. Não sabia o que dizer, o que fazer. Meu coração batia forte, como se fosse sair do peito.
- Por quê? - perguntei, minha voz mal era um sussurro. - Por que não deveria me querer?
Ele fechou os olhos e soltou um suspiro longo, como se carregasse um peso muito grande.
- Porque não sou o que você precisa, porque não posso te dar o que você merece. E porque... porque há coisas em mim que você não conhece, coisas que fariam você se arrepender de ter cruzado essa linha comigo.
As palavras dele me desconcertaram ainda mais. Quis perguntar o que isso significava, mas antes que eu pudesse, o som de uma campainha nos interrompeu. O elevador, ainda parado, começou a se mover novamente.
Carlos afastou as mãos do meu rosto como se queimassem e deu um passo atrás. O ar entre nós ficou tenso, quase insuportável.
- É melhor assim - disse, seu tom frio e distante, como se não tivesse me beijado com toda a intensidade que jamais experimentei.
Quando as portas do elevador se abriram, ele saiu sem me olhar, me deixando ali, sozinha, com um turbilhão de emoções que eu não sabia como lidar.
Fiquei parada por alguns segundos, incapaz de me mover, incapaz de processar tudo o que acabara de acontecer. O elevador se fechou e parou em outro andar, mas já não me importava.
O único fato que eu sabia com certeza era que Carlos estava fugindo, não só de mim, mas de algo que nem eu entendia. E embora cada fibra do meu ser quisesse segui-lo, quisesse entendê-lo, também sabia que havia algo sombrio dentro dele, algo que provavelmente me machucaria se eu me aproximasse demais, queria conhecê-lo mais.
Será que eu estava louca?
No entanto, o que mais me aterrorizava era que, apesar de tudo, queria correr esse risco, mesmo sem conhecê-lo, porque ele era um desconhecido para mim.
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