
Ele Odiou Um Amor Que Eu Esqueci
Capítulo 3
Eu me encolhi na cadeira, tentando me fazer pequena. As palavras de Marcos giravam ao meu redor. Eu não conseguia entendê-las. Por que Caio iria querer me ajudar? Foi ele quem rasgou meus bilhetes. Foi ele quem me chamou de lixo.
Meus olhos se desviaram para a parede vazia. Minha mente parecia em branco, assim como o gesso. Sem bilhetes. Sem instruções. Apenas um espaço vasto e vazio.
Caio deu um passo à frente. As câmeras deram zoom. Suas lentes eram como olhos famintos.
"Juliana", ele disse. Sua voz era áspera. "Sete anos. E você ainda não consegue cuidar de si mesma? O que você fez da sua vida?"
Eu olhei para ele. Lembrei-me de seu rosto. Aquele que rasgou minha vida. Aquele com o sorriso cruel. Mas o nome dele... ainda era um borrão.
O rosto de Caio escureceu. Ele odiava ser esquecido.
Lorena imediatamente se colocou na frente dele. A mão dela em seu peito. Um olhar preocupado em seu rosto para as câmeras.
"Caio, querido, não fique bravo. Ela não pode evitar. A memória dela é... frágil." Ela deu um tapinha no braço dele. "Não leve para o lado pessoal."
Então, ela se virou para as câmeras. Seu rosto se suavizou em uma performance de pena.
"Ouvimos sobre a situação da Juliana", explicou Lorena para a lente. "Quero dizer, nós realmente pensamos que ela estava bem. Sete anos atrás, nos disseram que ela partiu para... uma vida melhor."
Ela fez uma pausa, balançando a cabeça tristemente. "Nunca imaginamos que ela acabaria assim. Tão sozinha. Tão vulnerável."
"Caio sempre sentiu um profundo arrependimento", ela continuou, sua voz cheia de emoção. "Ele se culpava. Achava que não era bom o suficiente para ela. Foi por isso que ela o 'deixou', entende."
"Quando voltamos, a primeira coisa que ele quis fazer foi encontrá-la. Para fazer as pazes. Para dar a ela uma segunda chance." Lorena engasgou com um soluço falso. "Nós só queremos consertar o que foi quebrado."
Algumas pessoas da equipe murmuraram palavras de aprovação. "Que homem generoso", alguém sussurrou. "Que história linda."
Minha cabeça latejava. As vozes deles. Os rostos deles. Era demais. Eu só queria que eles parassem.
Eu me levantei. Precisava fugir. Voltar para o meu quarto. Voltar para o silêncio.
A mão de Caio disparou. Ele agarrou meu pulso. Seu aperto era como ferro.
"Onde você pensa que vai?", ele rosnou. Seus olhos estavam frios. "Você é a estrela do show agora, Juliana. Você não pode ir embora."
"Você não era tão quieta antes", ele zombou. "Sete anos atrás, você tinha muito a dizer. Muita garra."
Ele me empurrou de volta para a cadeira. Com força. A madeira velha gemeu.
"Comecem a filmar!", ele gritou para Marcos.
Marcos assentiu ansiosamente. As câmeras giraram. As lentes focaram em mim.
"Podemos fazer um tour pelas instalações?", perguntou Marcos. "Mostrar aos espectadores as condições de vida dela? Realmente destacar sua luta?"
Caio acenou com uma mão desdenhosa. "Vá em frente. Filme o que quiser. Ela não tem nada a esconder. Nada sobrando, de qualquer maneira."
A equipe invadiu minha pequena casa. Eles filmaram meu sofá puído. Minhas cortinas desbotadas. Minhas xícaras de chá lascadas.
Eles filmaram minhas roupas, penduradas em um varal para secar. Pálidas e gastas.
Eles filmaram a lata de sopa pela metade na minha mesa.
Eles filmaram minha cama. A colcha remendada em uma dúzia de lugares.
Então, os vizinhos começaram a se aglomerar. Atraídos pela comoção. Atraídos pelas câmeras.
Dona Elza, da casa ao lado, abriu caminho até a frente. Ela apontou um dedo para mim.
"Olha para ela agora!", ela gritou, sua voz estridente. "Costumava ser uma coisinha tão bonita. Achava que era boa demais para esta cidade. Boa demais para o Caio."
"Fugiu com um velho rico, disseram. Vadiazinha interesseira. Achou que tinha tirado a sorte grande."
"Bem feito para ela, eu digo! O jeito que ela largou o Caio, praticamente no altar. Deixou ele de coração partido. Agora olha para ela. Aqui se faz, aqui se paga."
"Aquele homem rico provavelmente a usou e a jogou fora", outro vizinho interveio. "Agora ela não tem nada. O cérebro se foi. Fica olhando para o nada o dia todo. Se os pais dela não tivessem deixado esta casa para ela, estaria mendigando nas ruas."
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