Capa do romance Ele não é meu irmão

Ele não é meu irmão

9.0 / 10.0
Após o trágico acidente que vitimou seus pais, Lia recomeça sua vida na casa da tia Ana. Enquanto lida com o luto, ela precisa conviver com Ian, o reservado filho do marido de sua tia. Embora ele tente manter distância, a rotina compartilhada derruba barreiras entre silêncios e apoios inesperados. Lia logo descobre que sentimentos complexos florescem sem aviso. Ele não é seu irmão de sangue, mas a forte conexão torna impossível ignorar sua presença.

Ele não é meu irmão Capítulo 1

Lia

A estrada parecia interminável.

O asfalto escuro se estendia diante de nós como uma fita contínua, cortando o verde dos morros e desaparecendo no horizonte. Eu estava no banco de trás, com a cabeça apoiada no vidro da janela, observando as luzes dos postes passarem rápido demais. São Paulo ia ficando para trás - os prédios, o barulho, a pressa - e, com ela, aquela sensação constante de estar sempre atrasada para alguma coisa.

- Falta muito? - perguntei, sem tirar os olhos da estrada.

Meu pai riu baixinho, mantendo as duas mãos firmes no volante.

- Ansiosa? - Ele me olhou pelo retrovisor. - Serra Clara não vai sair do lugar.

- Ela só está curiosa - minha mãe disse, se virando no banco do passageiro para me encarar. - E cansada. Essa viagem sempre dá sono.

Ela tinha razão. O balanço do carro, o som baixo do rádio e a conversa tranquila dos meus pais criavam uma espécie de bolha segura. Daquelas que a gente acha que nunca vai estourar.

- Filha, você vai amar - mamãe continuou, sorrindo. - A praia é linda. Água clara, areia fofa... e seu pai surfava altas ondas lá quando era jovem.

- Surfava nada - ele respondeu, fingindo indignação. - Eu caía mais do que ficava em pé.

- Mentira - ela rebateu. - Você era ótimo. Só parou porque resolveu virar um homem responsável.

- Ou porque envelheci - ele disse, rindo.

Eu sorri, observando os dois. Eles pareciam tão... inteiros. Tão vivos. Era difícil imaginar que aquela viagem simples, quase rotineira, mudaria tudo.

Mamãe voltou o olhar para frente.

O grito veio no segundo seguinte.

- CUIDADO!

Não houve tempo para entender. Apenas sentir.

O impacto foi violento. O som de metal retorcendo, o carro perdendo o controle, girando. Meu corpo foi lançado de um lado para o outro, o cinto apertando meu peito com força. O mundo virou de cabeça para baixo.

Vidros se estilhaçaram.

O carro capotou.

Uma, duas vezes.

Então tudo parou.

Por alguns segundos, só houve silêncio.

Um silêncio pesado, quebrado apenas pelo chiado distante do motor e pelo gosto metálico na minha boca.

Abri os olhos com dificuldade. Minha visão estava embaçada. O carro estava de lado, o teto esmagado. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito.

- Mãe? - minha voz saiu fraca. - Pai?

Nenhuma resposta.

Com as mãos trêmulas, levei os dedos ao cinto e consegui soltá-lo. Meu corpo caiu contra a lateral do carro, a dor explodindo pelo meu braço. Ignorei.

Empurrei a porta com dificuldade e me arrastei para fora, sentindo o chão frio sob minhas mãos.

Quando levantei o rosto, vi meu pai.

Ele estava do outro lado da pista, imóvel.

- Não... - sussurrei.

Meu olhar se moveu desesperado até o carro. Mamãe ainda estava presa, o corpo inclinado de um jeito que não parecia certo. O para-brisa estava destruído.

Entre nós, no meio da estrada, havia um animal grande, sem vida.

- Socorro... - tentei gritar. - So... socorro...

As palavras não saíam direito. Minha visão escureceu nas bordas.

E então tudo ficou preto.

---

Acordei com frio.

Um frio que parecia vir de dentro.

Abri os olhos devagar e encarei o teto branco, iluminado demais. O cheiro forte de desinfetante invadiu minhas narinas.

Hospital.

Meu coração disparou.

- Não... - murmurei. - Não, não, não...

Por favor, Deus. Por favor.

Que tudo aquilo tivesse sido apenas um pesadelo horrível. Que meus pais estivessem bem. Que estivessem me esperando do lado de fora, preocupados, mas vivos.

- Bom dia, Lia.

A voz era conhecida.

Virei o rosto lentamente.

Minha tia Ana estava sentada ao lado da cama, as mãos cruzadas sobre o colo. Usava roupas claras e tinha aquele mesmo sorriso controlado de sempre.

Vê-la ali fez um nó se formar no meu estômago.

Se ela estava ali...

- Meus pais? - perguntei, a voz quase inexistente.

Ela respirou fundo, como se ensaiasse aquela fala há muito tempo.

- Querida... você precisa ser forte.

Meu coração começou a doer de verdade.

- Não - balancei a cabeça. - Não fala isso. Por favor.

Ela se levantou e segurou minha mão.

- Desculpe, Lia. Não houve o que os médicos pudessem fazer.

As palavras caíram sobre mim como uma sentença.

- Não... - sussurrei. - Não pode ser...

O choro veio forte, descontrolado, rasgando meu peito. Minha tia me puxou para um abraço e eu deixei, porque naquele momento qualquer coisa que me mantivesse de pé era válida.

Quando as lágrimas cessaram, sobrava apenas um vazio assustador.

- E agora? - perguntei.

- Você não vai ficar sozinha - ela disse rapidamente. - Você tem a mim. Tem seu tio Leo. E também tem o Ian.

O nome soou estranho aos meus ouvidos.

- Ian?

- O filho do Leo - explicou. - Você vai comigo para Serra Clara.

Serra Clara.

A cidade pequena onde meu pai cresceu. O lugar que deveria ser apenas uma visita.

Assenti, sem forças para discutir.

Mas, por dentro, algo gritava.

Eu amava minha tia. Sempre amei. Mas nunca confiei totalmente nela.

Meu pai dizia, meio em tom de brincadeira, meio sério demais:

"Minha irmã é ambiciosa. Faria qualquer coisa para subir na vida."

E agora, ali, sentada ao lado da minha cama, ela parecia... interessada demais.

Eu sabia.

Sabia que aquela boa vontade não era apenas carinho.

Minha mãe era podre de rica. Filha única. Tudo o que meus avós tinham ficou para ela. Meu pai construiu uma empresa do zero com a ajuda dela - e fez crescer. Muito.

A herança era grande.

Grande demais.

Enquanto Ana segurava minha mão e falava sobre recomeços, eu senti um arrepio percorrer minha espinha.

Eu estava indo para Serra Clara.

E nada seria simples dali em diante.

---

Ian

Acordei cedo naquela manhã.

Cedo demais para alguém que estava oficialmente de férias do meio do ano. O sol ainda mal tinha surgido quando abri os olhos, encarando o teto do quarto, ouvindo apenas o som distante do mar misturado ao canto preguiçoso dos pássaros. Serra Clara tinha esse hábito irritante de acordar antes de todo mundo.

Férias, para mim, significavam três coisas bem claras:

Prancha.

Mar.

Silêncio.

Nada de horários, nada de cobranças, nada de gente falando demais.

Levantei da cama, passei a mão pelo cabelo ainda bagunçado e fui direto para o banheiro. A água fria me despertou de vez. Vesti uma bermuda qualquer, peguei a camiseta jogada na cadeira e enfiei os pés no chinelo.

A prancha estava encostada perto da porta, como sempre. Companheira fiel.

Quando coloquei a mão na maçaneta, a porta da sala se abriu.

Meu pai entrou.

Leo nunca foi de acordar cedo. Quando acordava, era porque alguma coisa estava errada.

Ele estava sério demais. Os olhos vermelhos, como se não tivesse dormido ou como se tivesse chorado - coisa rara demais para eu ignorar.

- O que houve, coroa? - perguntei, apoiando a prancha no chão.

Ele respirou fundo antes de responder.

- O irmão e a cunhada da Ana sofreram um acidente.

Fiquei em silêncio.

- Só a filha sobreviveu - ele continuou. - A Lia.

O nome ecoou na minha cabeça.

Lia.

A sobrinha da Ana.

Eu precisei de alguns segundos para puxar a imagem dela da memória. Lembrava vagamente de uma menina pequena, de cabelos escuros, sempre atrás da tia nas poucas vezes em que ela vinha a Serra Clara quando eu era criança.

Ela devia ter... o quê? Dez anos na última vez?

Agora, pelas contas rápidas na minha cabeça...

- Dezessete. Ou dezoito - murmurei.

- Dezessete - meu pai confirmou.

Balancei a cabeça, sentindo um peso estranho no peito.

- Puts... - soltei, sem pensar. - Foda pra caralho.

- Olha a boca, moleque - ele repreendeu, mas sem muita força. - A Ana está no hospital com ela. Em breve as duas chegam aqui.

Franzi a testa.

- Aqui?

- Ela vai morar com a gente.

O silêncio caiu pesado entre nós.

- Seja gentil - ele completou. - A garota perdeu os pais. Só tem a gente agora.

Soltei o ar devagar.

- Vou ter que ser babá?

Ele me lançou um olhar sério.

- Vai ter que ser humano. Só isso.

Dei de ombros.

- Tá bom. Vou cuidar da garota.

Peguei a prancha de novo.

- Agora vou pra minha praia.

- Vai lá - ele disse. - E vê se toma cuidado.

Assenti e saí de casa.

O ar da manhã bateu no meu rosto assim que atravessei o portão. Entrei na caminhonete e dirigi em silêncio pelas ruas ainda vazias de Serra Clara. As casas pareciam adormecidas, as janelas fechadas, o cheiro de maresia já impregnado no ar.

Estacionei perto da areia e desci.

O mar estava lindo.

Ondas médias, bem desenhadas, o tipo de dia que fazia tudo valer a pena.

Theo já estava lá.

Encostado na caminhonete dele, rindo alto com duas meninas que eu reconhecia de vista. Cumprimentei com um aceno de cabeça e joguei a prancha na areia.

- Dormiu no ponto hoje - ele provocou, vindo atrás de mim.

- Problemas em casa - respondi, sem entrar em detalhes.

- Sempre - ele riu.

Entramos no mar lado a lado, deixando o resto do mundo para trás.

O primeiro mergulho sempre limpava minha cabeça. A água fria, o esforço do braço, o equilíbrio precário sobre a prancha. Ali, tudo ficava em silêncio.

Peguei boas ondas. Theo também.

Mas, entre uma remada e outra, a imagem da garota não saía da minha cabeça.

Lia.

Ela estava vindo morar com a gente.

Uma desconhecida.

Ou pior: alguém ligada diretamente à Ana.

Quando saímos do mar, o sol já estava mais alto. Sentamos na areia, ofegantes, observando as ondas quebrarem mais à frente.

- Tá estranho hoje - Theo comentou. - Quieto demais.

- Chega uma pessoa nova em casa - respondi.

- Quem?

- Filha do irmão da Ana.

Ele arqueou a sobrancelha.

- O quê? Aquela família rica?

- Essa mesmo.

- Caralho - ele soltou um assobio. - E vai morar com vocês?

- Vai.

- Boa sorte, então.

Não respondi.

Voltei pra casa horas depois, com o corpo cansado e a mente inquieta.

A caminhonete da Ana estava estacionada em frente.

Elas tinham chegado.

Entrei em casa em silêncio.

O clima estava... diferente.

A sala parecia menor, mais cheia, mesmo sem ninguém ali naquele momento. Subi para o quarto, tomei um banho rápido e desci de novo quando ouvi vozes baixas na cozinha.

Ana falava.

- Ian - ela chamou ao me ver. - Venha cá.

Respirei fundo e fui.

E então eu a vi.

Lia estava sentada à mesa, as mãos entrelaçadas no colo. Usava roupas simples demais para alguém que, eu sabia, vinha de uma vida confortável. O rosto estava pálido, os olhos inchados, como se tivesse chorado por dias.

Mas o que mais me chamou atenção foi o olhar.

Ela parecia... vazia.

- Esse é o Ian - Ana disse. - Filho do Leo.

Ela levantou o olhar devagar.

Nossos olhos se encontraram.

E algo ali... não fez sentido.

- Oi - ela disse, a voz baixa.

- Oi - respondi.

Só isso.

Mas foi o suficiente para eu perceber que nada naquela casa seria simples a partir daquele momento.

Ela não parecia uma menina frágil.

Parecia alguém quebrado.

E eu sabia, no fundo, que coisas quebradas nunca vinham sozinhas.

Elas traziam problemas.

E, estranhamente... eu senti que aquele era apenas o começo.

{...}

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