
Ele Me Deixou Sem Nada, Eu o Deixei Sem Futuro
Capítulo 3
Uma enfermeira entrou no quarto algumas horas depois.
O seu rosto era gentil, mas os seus olhos estavam cheios de pena.
"Senhora Alves, o seu marido pagou a sua conta," disse ela suavemente. "Mas ele deixou instruções para a sua alta amanhã de manhã."
"Amanhã?" eu perguntei, a minha voz ainda rouca. "Mas o médico disse que eu precisava de observação."
A enfermeira desviou o olhar, desconfortável.
"As instruções dele foram claras. Ele disse que a senhora está bem o suficiente para recuperar em casa."
Ele estava a expulsar-me do hospital.
Para que eu não "incomodasse" a sua mãe.
"E os arranjos... para o meu filho?" perguntei, a palavra a sair com dificuldade.
A enfermeira hesitou.
"O seu marido também tratou disso. Ele optou pelo procedimento mais simples. Será tratado pelo hospital."
O procedimento mais simples.
Isso significava que o meu bebé seria tratado como resíduo médico.
Sem funeral.
Sem despedida.
Sem dignidade.
Uma raiva fria começou a crescer dentro de mim, empurrando a dor para o lado.
"Não," eu disse, a minha voz firme. "Isso não vai acontecer."
Sentei-me na cama, ignorando a dor aguda no meu corpo.
"Eu quero o corpo do meu filho. Eu mesma vou tratar do funeral."
A enfermeira parecia aliviada.
"Claro, senhora. É seu direito. Vou tratar da papelada."
Quando ela saiu, peguei no meu telemóvel novamente.
O número de Leo ainda estava bloqueado.
Liguei para a minha cunhada, Sofia.
Ela atendeu no primeiro toque.
"O que queres, Catarina?" a sua voz era puro veneno. "Não vês que estamos a passar por um momento difícil? A mãe quase morreu!"
"Eu sei, Sofia. Eu também perdi o meu filho," respondi, mantendo a minha voz calma.
"Ah, isso," ela disse, com um desdém que me gelou o sangue. "Acontece. Pelo menos podes tentar de novo. A minha mãe só tem uma vida."
A sua crueldade deixou-me sem fôlego por um momento.
"Sofia, eu preciso de falar com o Leo. Ele bloqueou-me."
"Claro que te bloqueou. Ele não quer falar contigo agora. Tu só lhe causas stress. Ele está a concentrar-se na recuperação da mãe."
"Eu preciso do dinheiro para o funeral do nosso filho," eu disse, direta. "O nosso filho. O sobrinho de vocês."
Houve uma pausa.
"Funeral? Que funeral? O Leo disse que o hospital ia tratar de tudo. Não há necessidade de fazer um grande alarido por causa disto."
"Eu quero um funeral para o meu filho," repeti, a minha voz a tremer de raiva contida. "E eu preciso do dinheiro da nossa conta conjunta para pagar."
Sofia suspirou, um som de pura exasperação.
"Olha, Catarina, agora não é uma boa altura. O dinheiro... bem, usámos a maior parte para a cirurgia privada da mãe. Sabes como estas coisas são caras."
"Vocês usaram o nosso dinheiro?" perguntei, incrédula. "O dinheiro que estávamos a guardar para o bebé?"
"Era uma emergência! A vida da mãe estava em risco! O que esperavas que fizéssemos? O Leo concordou, claro. A mãe dele é a prioridade."
Claro que era.
"Eu não me importo, Sofia. Eu preciso desse dinheiro. Agora."
"Não sejas egoísta!" ela gritou. "Sempre a pensar em ti! O mundo não gira à tua volta, sabias? Supera isso. Aconteceu. Segue em frente."
Ela desligou.
Eu fiquei a olhar para o telemóvel na minha mão.
Eles tinham-me tirado tudo.
O meu filho.
A minha dignidade.
O meu dinheiro.
Eles deixaram-me sem nada.
Mas eles estavam enganados sobre uma coisa.
Eu não ia "superar isso".
Eu ia lutar.
Pela memória do meu filho.
E por mim mesma.
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