
Ele Fingiu Amnésia Para Quebrar Nossos Votos
Capítulo 3
Ponto de Vista: Laura Mendes
A dor, eu percebi, traz uma clareza terrível.
Por sete anos, eu vivi numa névoa de pétalas de rosa e poesias cuidadosamente selecionadas.
Eu havia confundido a possessividade de Heitor com paixão. Eu havia interpretado seu silêncio melancólico como profundidade.
A notificação de despejo na mesa de cabeceira foi um balde de água fria no meu rosto.
"Laura?", a mão de Malu pairou sobre a minha mão ilesa, seu toque gentil. "A gente pode lutar contra isso. Conheço um advogado. Podemos processar pelas contas médicas, pelo sofrimento..."
"Não", eu disse. Minha voz estava rouca, como uma lixa sobre pedra, mas estava firme.
Olhei para o teto branco e estéril. Em minha mente, tracei o brasão estampado no selo de cera da notificação. O leão segurando a rosa.
O leão não havia protegido a rosa. Ele a havia devorado.
"Se eu processar, continuo presa na órbita dele", eu disse. "Continuo sendo a vítima dele. O patrimônio dele."
"E daí? Você vai simplesmente deixar ele se safar?", perguntou Malu, seus olhos arregalados de incredulidade.
"Não." Virei a cabeça para encará-la, o movimento rígido. "Vou deixá-lo acreditar que venceu. Heitor é arrogante. Ele acha que sou frágil. Ele espera que eu implore."
Tentei me levantar. O quarto inclinou-se perigosamente, mas cerrei os dentes até a tontura diminuir.
"Me fale sobre as regras, Malu. Aquelas sobre as quais você sempre sussurra. A Omertà."
Malu puxou uma cadeira para mais perto, as pernas de metal raspando no linóleo. Ela me olhou de forma diferente agora. A pena estava evaporando, substituída por um brilho de respeito genuíno.
"Omertà não é só silêncio", ela explicou, sua voz baixa. "É sobre ordem. Um Don protege os seus. Ele mantém seu caos a portas fechadas. Ele não lava roupa suja em público para humilhar seu sangue ou seus parceiros jurados."
"E o Heitor?"
"Ele está sendo bagunceiro", disse Malu, balançando a cabeça. "Fingir amnésia para desfilar com uma influencer? É desleixado. Falta disciplina. A velha guarda, os homens que se sentavam à mesa com o pai dele... eles não vão respeitar isso. Se descobrirem que ele está mentindo, ele parece fraco. E neste mundo, se ele parece fraco, ele perde o território."
Um plano começou a se formar nos cantos nebulosos da minha mente. Não era sobre vingança. Ainda não. Era sobre sobrevivência.
"Eu preciso desaparecer", eu disse. "Não apenas mudar de apartamento. Preciso sumir completamente."
"Para onde?"
"Curitiba", eu disse. Foi o primeiro lugar que surgiu na minha memória. Chuva. Céus cinzentos. Café. Um mundo distante do brilho neon de São Paulo.
"Ainda tenho aquele diploma de design que nunca usei. Posso recomeçar."
"Você precisa de dinheiro", Malu apontou pragmaticamente. "Ele cortou seus cartões há uma hora."
"Eu tenho algo", eu disse, uma determinação fria se instalando no meu peito. "No apartamento. Escondido."
*
Recebi alta na manhã seguinte, assinando os papéis contra a recomendação médica.
Malu me ajudou a entrar no carro dela. Cada buraco na rua enviava uma onda de fogo líquido pelo meu braço, mas eu mordi o interior da minha bochecha até sentir o gosto de ferro, recusando-me a fazer um som.
Quando chegamos ao apartamento, parecia que eu estava entrando em um mausoléu.
O ar estava viciado. Minhas roupas ainda pendiam no armário, silhuetas fantasmagóricas da mulher que eu costumava ser. Os convites de casamento estavam na escrivaninha, a cera vermelha endurecida como sangue seco.
Fui direto para a estante de livros.
"O que você está procurando?", perguntou Malu, pegando malas freneticamente e jogando minhas roupas dentro delas.
"Vantagem", murmurei.
Ignorei a caixa de joias e peguei uma cópia antiga de *O Grande Gatsby*. Era oca por dentro.
Lá dentro, não havia dinheiro, nem diamantes. Apenas um pequeno caderno de couro.
Era o diário de Heitor da faculdade. Antes que o título de "Don" pesasse em seus ombros. Antes que a máscara se fundisse à sua pele.
Eu não o lia há anos. Eu o guardei porque achava romântico — um pedaço de sua alma que só eu possuía.
Agora, eu o segurava como uma arma.
Não o abri. Ainda não. Apenas o enfiei fundo na minha bolsa.
"Precisamos ir", insistiu Malu, lutando para fechar uma mala. "O Monteiro disse quarenta e oito horas, mas ele mandou uma equipe de limpeza mais cedo. Eles já estão no saguão."
Dei uma última olhada no apartamento. A gaiola dourada.
"Vamos", eu disse.
Estávamos prestes a alcançar a maçaneta quando um punho pesado bateu na madeira.
*Bang. Bang. Bang.*
O som vibrou pelo assoalho.
"Laura!", uma voz grave bradou. "Abra."
Era Marcos. O chefe de segurança de Heitor. O homem que costumava me levar ao spa, que costumava sorrir e me chamar de "Dona Laura".
Agora, sua voz carregava o peso de uma ameaça.
"Ele sabe", sussurrei para Malu, meu coração martelando contra minhas costelas. "Ele sabe que não estou chorando em uma cama de hospital."
Apertei a alça da minha bolsa com mais força. A borda dura do diário pressionava minha lateral.
"Abra a porta, Laura!", gritou Marcos.
"O Sr. Lacerda quer a aliança de volta."
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