
Ele Desligou: O Abandono Premeditado
Capítulo 3
Não sei quanto tempo fiquei ali. O mundo tornou-se um borrão de luzes intermitentes e vozes desconhecidas. Alguém abriu a porta do carro com força. Um paramédico olhou para mim, os seus olhos cheios de preocupação profissional.
"Senhora, consegue ouvir-me? Qual é o seu nome?"
"Sofia," murmurei. "O meu bebé..."
"Vamos cuidar de si e do bebé. Mantenha-se calma."
Levaram-me para o hospital. A viagem na ambulância foi uma sucessão de solavancos e dor. No hospital, tudo aconteceu depressa. Médicos, enfermeiras, perguntas que eu mal conseguia processar.
Liguei para o Tiago outra vez. E outra. E outra. Todas as chamadas foram para o voicemail.
Deixei uma mensagem.
"Tiago, estou no Hospital Central. Por favor, vem."
Horas mais tarde, um médico de ar cansado entrou no meu quarto. Ele sentou-se na cadeira ao lado da minha cama. O seu rosto era uma máscara de compaixão profissional.
"Sofia, lamento imenso."
Eu já sabia o que ele ia dizer. Eu sentia-o. O espaço vazio e frio dentro de mim era a prova.
"Devido ao trauma do acidente e à hemorragia interna, não conseguimos salvar a gravidez," ele disse, com a voz suave. "Fizemos tudo o que podíamos."
As suas palavras pairaram no ar estéril do quarto.
Eu não chorei. Apenas assenti, um movimento pequeno e rígido.
O médico continuou a falar, a explicar os procedimentos, os riscos, a minha recuperação. Eu ouvia os sons, mas não as palavras.
O meu bebé, o nosso filho tão desejado, tinha-se ido.
E o pai dele estava a pôr gelo no tornozelo da irmã.
Olhei para a minha barriga, agora coberta por um lençol branco. A vida que ali crescia tinha desaparecido. A única ligação que ainda me prendia ao Tiago tinha sido cortada.
Fiquei sozinha naquele quarto branco, com o som constante das máquinas e um silêncio ensurdecedor no meu coração.
O meu telemóvel permaneceu mudo na mesa de cabeceira. Nenhuma chamada. Nenhuma mensagem. Nada.
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