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Capa do romance Ele a salvou, eu perdi nosso filho

Ele a salvou, eu perdi nosso filho

Durante três anos, anotei cada falha de Bernardo Santos, subchefe da máfia. O fim chegou quando um desabamento ocorreu e ele escolheu salvar sua amiga, Ariane, deixando-me sob os escombros. No hospital, descobri que perdi nosso bebê porque Bernardo desviou o estoque de sangue para tratar um corte no dedo dela. Diante de tamanha crueldade, zerei sua pontuação. Sem lágrimas, assinei o divórcio e desapareci na noite, deixando o monstro para trás.
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Capítulo 2

Ponto de Vista de Carolina

A ala do hospital cheirava a antisséptico e lírios caros — o cheiro da tragédia mascarado pelo dinheiro.

Eu caminhava pelo corredor, meu braço esquerdo enfaixado sob a trama macia do meu cardigã de caxemira. A queimadura era superficial, ou assim disseram os médicos. Apenas um lembrete de segundo grau de onde eu estava na cadeia alimentar.

Eu carregava uma garrafa térmica com caldo de ossos caseiro. Era ridículo, na verdade. Uma performance. A esposa dedicada trazendo sustento para seu marido trabalhador. Mas em nosso mundo, as aparências eram a única moeda que importava.

Cheguei à suíte particular reservada para "Amigos da Família". A porta estava entreaberta.

Eu não deveria ter olhado. Deveria ter apenas batido, anunciado minha presença e forçado-os a se separar. Mas eu parei.

Bernardo estava sentado na beira da cama. Ele havia tirado o paletó arruinado. Sua camisa social branca estava manchada de fuligem e suor, as mangas arregaçadas para revelar seus antebraços — mãos que salvavam vidas, mãos que haviam assinado meu contrato de casamento.

Ariane estava apoiada nos travesseiros. Ela não parecia ferida. Parecia radiante daquela maneira trágica e vitoriana que ela havia aperfeiçoado. Sem queimaduras. Apenas "inalação de fumaça" e "choque".

Bernardo segurava uma colher.

Ele assoprou a sopa suavemente, sua expressão suave, focada. Ele levou a colher aos lábios dela.

"Coma, Ari", ele murmurou. "Você precisa de força."

Ela abriu a boca, aceitando a oferenda, seus olhos fixos no rosto dele com um olhar de adoração que revirou meu estômago.

"Eu estava com tanto medo, Bernardo", ela sussurrou, a voz rouca. "Pensei que ia morrer lá dentro. Pensei que nunca mais te veria."

"Eu não deixaria isso acontecer", disse ele. A convicção em sua voz foi um golpe físico. "Eu me tornei cirurgião para nunca mais ter que ficar parado vendo você sangrar. Não como naquela noite no beco."

Eu congelei.

O beco. A história de origem. Todos nós a conhecíamos. Dez anos atrás, uma gangue rival havia atacado Ariane. Bernardo, então apenas um herdeiro imprudente, não conseguiu estancar o sangramento até a chegada dos paramédicos.

Ele não se tornou um cirurgião de trauma para salvar os soldados da Família. Ele não fez isso por prestígio.

Ele fez isso por ela.

Cada cirurgia, cada noite em claro, cada milagre médico que ele realizava... era tudo apenas penitência por tê-la falhado uma vez.

Eu estava lutando contra um fantasma. Eu estava lutando contra uma ferida de dez anos que se recusava a fechar.

Olhei para a garrafa térmica em minha mão. Parecia pesada, como chumbo.

Empurrei a porta.

A cabeça de Bernardo se virou bruscamente. A suavidade desapareceu instantaneamente, substituída por uma máscara de irritação.

"Carolina", disse ele. "O que você está fazendo aqui?"

"Eu trouxe o jantar para você", eu disse, minha voz plana. Caminhei e coloquei a garrafa térmica na mesa de cabeceira, bem ao lado de um vaso de rosas brancas que eu sabia que ele havia encomendado. "Mas vejo que você está ocupado."

Ariane sorriu para mim. Era um sorriso pequeno, piedoso. "Ah, Carolina. Obrigada. Bernardo estava apenas... me ajudando. Minhas mãos estão tremendo tanto."

Ela levantou uma mão perfeitamente firme.

"Ouvi sobre seu braço", disse Bernardo, olhando para meu curativo. "Está ruim?"

"Está tudo bem", menti, mantendo o rosto impassível. "Apenas um arranhão."

"Bom", disse ele, voltando sua atenção para Ariane. "Olha, preciso ficar aqui esta noite. Monitorar os sinais vitais dela. Você vai para casa."

"Na verdade", eu disse, endireitando a coluna. "Vim te dizer outra coisa. Estou me demitindo do Conselho de Caridade da Família."

Bernardo parou, a colher pairando a meio caminho da tigela. "O quê? Por quê? Você dirige esse conselho. É a sua... coisa."

"Não tenho mais tempo para isso", eu disse. "Tenho outros projetos."

Ele não perguntou que projetos. Ele não perguntou por que eu estava desistindo do único papel público que me dava alguma aparência de identidade.

Ele apenas deu de ombros. "Tudo bem. Na verdade, isso funciona. Ariane precisa de algo para se concentrar enquanto a galeria está sendo reconstruída. Ela pode assumir seu lugar."

O ar me faltou.

"É um conselho de um centro de trauma, Bernardo", eu disse, minha voz tremendo ligeiramente. "Requer supervisão arquitetônica e gerenciamento de orçamento. Ariane administra uma galeria de arte."

"É um centro de trauma", ele corrigiu, a voz dura. "Ela entende de trauma melhor do que ninguém. Ela será perfeita."

Ele olhou para ela, e ela sorriu, parecendo uma rainha aceitando uma coroa que não havia conquistado.

"Obrigada, Bernardo", ela arrulhou. "Eu adoraria."

Ele não apenas aceitou minha demissão. Ele entregou minha vida a ela, pedaço por pedaço, bem na minha frente.

"Aproveitem a sopa", eu disse.

Virei-me e saí. Não fui para casa. Fui para o meu carro, peguei o registro e o abri na data atual.

*Menos cinco pontos. Ele deu a ela o meu lugar à mesa.*

*Pontuação Total: 45.*

Estávamos a meio caminho do zero.

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