
Ela tem todo o mundo na mão
Capítulo 2
Enquanto Grace caminhava ao lado de Ella, a família Miller seguia logo atrás, seus rostos refletindo uma mistura de inquietação e desdém, mas nos olhos havia um brilho curioso, quase malicioso.
Eles estavam ansiosos para descobrir que tipo de casa acolheria Grace, certos de que encontrariam apenas uma família em dificuldades, gente simples que buscava uma ajudante para os serviços domésticos.
Essas suposições, porém, se dissiparam no instante em que a atenção deles se voltou para a entrada da garagem.
Um carro branco, de pintura desgastada e marcado pelo logotipo de uma empresa de aluguel, aguardava parado junto ao meio-fio. Ao lado dele estava um homem alto, cuja presença dominava o espaço.
O vento bagunçava seus cabelos, e a poeira havia manchado a camisa de seda que vestia, mas nada disso apagava a aura de autoridade que o cercava.
Grace, ao ver a peça, reconheceu de imediato o corte impecável: era uma camisa sob medida, cara o suficiente para sustentar a família Miller por meses.
Ela fingiu desviar o olhar, mas sua mente já sabia a verdade — este homem não pertencia ao círculo das pessoas comuns.
Rodger Holden, por sua vez, a observava com atenção. Ele esperava encontrar uma garota tímida e retraída, mas se surpreendeu ao perceber firmeza na postura e serenidade no olhar dela.
Ela não se encolhia, nem se intimidava. E isso o intrigava.
Rodger não era um homem qualquer, mas o cérebro por trás do poderoso Grupo Holden, cuja reputação o tornava inalcançável para pessoas como os Miller.
Casado com Julia, ele havia construído uma vida sólida ao lado dela e dos seus dois filhos. Mas Julia, apesar de tudo, sempre sonhava com uma filha.
Seis meses antes, ao visitar o orfanato, Julia conhecera Grace e, embora uma ligação imediata tivesse surgido entre elas, a garota já estava destinada à família Miller. Mesmo assim, Julia jamais conseguiu esquecê-la.
Por isso, esta manhã, ao receber a inesperada ligação de Ella, Julia chorou de felicidade e, sem hesitar, pediu a Rodger que viesse buscar Grace.
Rodger deixou para trás compromissos importantes e atravessou a cidade. No caminho, ele sofreu um acidente que destruiu seu carro, mas felizmente, saiu ileso.
Ele pegou então um veículo alugado e seguiu rumo à casa dos Miller, sem imaginar a recepção que encontraria.
Para a família Miller, no entanto, a cena diante dos seus olhos parecia confirmar seus preconceitos. A roupa marcada pela poeira, o carro de aluguel antigo — tudo reforçava a ideia de que o futuro de Grace seria sombrio.
Demi, satisfeita, não conseguiu esconder o sorriso discreto. Para ela, Grace parecia fadada a uma vida de dificuldades, enquanto ela continuaria sendo a filha querida e privilegiada.
Ella, por outro lado, sentiu certa estranheza. Havia algo fora de lugar, porque Julia sempre se mostrava uma mulher rica e generosa, o que não combinava com o que via agora.
Aproximando-se com Grace, Ella falou educadamente: "É um prazer conhecê-lo, senhor Holden. Gostaria de lhe apresentar Grace Miller."
Rodger voltou o olhar para a garota e sua impressão se confirmou: havia algo especial nela.
De repente, ele entendeu por que Julia não conseguira esquecê-la. Às vezes, tudo se resumia a um sentimento que não podia ser explicado.
Agora, ele tinha certeza de que Grace pertencia à família deles.
Com um aceno gentil, Rodger respondeu: "Sim, eu me lembro. Minha esposa me contou tudo sobre ela."
Ella suspirou, aliviada, e pousou a mão no ombro da garota. "Grace, este é o senhor Rodger Holden. Ele é o marido de Julia."
Grace acenou com a cabeça, o observando com atenção. Havia dureza na expressão dele, mas também uma bondade silenciosa que ela não soube explicar. Instintivamente, ela se sentiu bem diante dele.
Nem todos, porém, partilhavam desse sentimento.
Demi avançou alguns passos, disfarçando o veneno nas palavras com um sorriso doce. "Grace, ele chegou num carro de aluguel? Quer que eu peça ao meu pai para emprestar um para você?"
A malícia nos seus olhos contrastava com o tom delicado.
Grace, sem se abalar, respondeu firme: "Não será necessário. Carros de aluguel são mais do que adequados."
Luke, sempre pronto a diminuir a irmã adotiva, soltou um suspiro irônico. "Quando estiver instalada na sua nova casa, espero que se esforce para se comportar. Já que suas notas não são nada boas, ao menos evite causar problemas."
As palavras caíram como pedras, mas antes que Grace pudesse reagir, Rodger se adiantou. Seu olhar gelado pousou sobre Luke, e sua voz soou firme: "Desempenho acadêmico não é nossa preocupação. O que realmente importa é que minha filha seja feliz. Podemos oferecer a ela tudo o que precisa."
A ousadia das suas palavras deixou os Miller desconfortáveis. Embora não fossem pobres, nenhum deles teria coragem de falar de forma tão altiva. Quem era esse homem para se gabar? Roupas sujas, carro alugado... O que ele pensava estar provando?
Demi, convencida de que a ilusão logo se desfaria, mal conteve o riso.
Mas antes que ela pudesse alimentar o próprio orgulho, o ar foi tomado pelo ronco de motores. Três Rolls-Royce Phantom pretos pararam atrás do carro de Rodger, freando com precisão.
As portas se abriram quase ao mesmo tempo, e seguranças impecavelmente vestidos desceram em passos firmes. Uma das vozes ecoou clara: "Senhor, a senhora Holden nos enviou para buscar o senhor e a senhorita Grace Miller!"
Um silêncio pesado caiu sobre os Miller. Rolls-Royce? Seguranças uniformizados?
Demi, boquiaberta, encarou Rodger como se o visse pela primeira vez. Sua mente fervia com a suspeita que a atravessava como um raio: seria possível que esse homem simples e ao mesmo tempo imponente fosse o mesmo Rodger Holden, o influente líder do Grupo Holden?
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