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Capa do romance Ela Salvou Seu Amado Morto

Ela Salvou Seu Amado Morto

Bianca Silva, faxineira e especialista em rituais espirituais, aceita uma proposta bizarra: limpar a energia de um suicídio em troca de uma fortuna e uma inseminação artificial. No local, ela descobre que o morto é Rafael, seu ex-namorado e herdeiro milionário. Ao notar sinais de assassinato, Bianca percebe que caiu em uma armadilha dos pais dele. Contudo, Rafael desperta de uma morte induzida e implora para que ela fuja antes da invasão dos seguranças.
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Capítulo 2

Bianca Silva limpava o chão de um escritório luxuoso, o cheiro de produto de limpeza preenchendo suas narinas. Para o mundo, ela era apenas uma faxineira, uma mulher simples que passava despercebida com seu uniforme e um esfregão na mão. Ninguém imaginava que, por trás daquela fachada humilde, Bianca era uma "facilitadora de heranças", uma profissão secreta e extremamente lucrativa.

Ela não lidava com fantasmas, não de verdade. Ela lidava com os vivos, com a culpa, a superstição e o desespero dos ricos. Seu trabalho era realizar rituais, cerimônias de purificação em locais de morte, para garantir que os herdeiros pudessem tomar posse de suas fortunas sem o peso de uma "maldição" ou de uma consciência pesada. Era um serviço psicológico vendido como uma necessidade espiritual, e Bianca era a melhor no ramo.

Enquanto passava o pano no corrimão de mogno, seu celular, um modelo antigo e discreto, vibrou no bolso do avental. Era um número desconhecido. Ela atendeu, mantendo a voz baixa e neutra.

"Alô?"

A voz do outro lado era grave e apressada, acostumada a dar ordens.

"Preciso de um serviço de herança. O mais alto nível."

O coração de Bianca acelerou um pouco. "Alto nível" significava dinheiro. Muito dinheiro. Ela se afastou para um canto mais reservado do corredor, virando as costas para as câmeras de segurança.

"Descreva a situação", ela disse, sua voz agora com um tom profissional que não combinava em nada com sua aparência de faxineira.

"Suicídio. Filho único. O pai quer o local limpo, espiritualmente falando. Rápido."

Bianca franziu a testa. Suicídios eram complicados. Traziam uma carga emocional pesada e, geralmente, os clientes ficavam ainda mais paranoicos. Isso significava que o preço subia.

"Meu serviço padrão para esse tipo de ocorrência começa em cinquenta mil", ela disse calmamente, testando o terreno.

Houve uma pausa do outro lado da linha, seguida por uma risada seca.

"O dinheiro não é problema. Pagaremos duzentos mil. Mas há uma condição."

Bianca sentiu um arrepio. Duzentos mil. Isso era mais do que ela ganhava em um ano. Era o suficiente para antecipar sua aposentadoria em pelo menos cinco anos. A alegria inicial, no entanto, foi rapidamente substituída por um alarme interno. Uma oferta tão generosa quase sempre vinha com um risco igualmente grande.

"Qual é a condição?", ela perguntou, a cautela transparecendo em sua voz.

"O serviço precisa ser feito esta noite. E você precisa garantir que a linhagem dele... continue."

Bianca quase deixou o celular cair. Ela parou de respirar por um segundo, tentando processar o que acabara de ouvir. "Garantir a linhagem"? O que diabos isso significava?

"Você pode me explicar o que quer dizer com 'garantir a linhagem' de um homem morto?", ela perguntou, a voz cortante.

"O rapaz congelou material genético. Queremos que você o utilize. A mãe... ela quer um neto. Quer que algo do filho dela continue vivo. Precisamos que você realize a inseminação. Em você mesma."

O choque percorreu o corpo de Bianca como uma corrente elétrica. Aquilo era insano. Era antiético. Era macabro. Ela não era uma barriga de aluguel, e certamente não para um homem morto. Sua profissão já era estranha, mas isso ultrapassava todos os limites.

"Isso não faz parte dos meus serviços", ela respondeu friamente. "Sou uma facilitadora, não uma incubadora. Encontre outra pessoa."

Ela estava prestes a desligar, mas a voz do homem a interrompeu, agora com um tom de desespero.

"Quinhentos mil. Meio milhão de reais. Pagos esta noite, em dinheiro. E mais um milhão quando a criança nascer. Pense nisso, Srta. Silva. É a sua aposentadoria. Uma vida inteira de trabalho em uma única noite."

Meio milhão. A quantia pairou no ar, pesada e tentadora. Bianca pensou em sua avó, Dona Sofia, que a criou e a ensinou os segredos da profissão. Pensou na pequena casa que queria comprar para elas, longe de tudo e de todos. Aquele dinheiro mudaria tudo. Mas o risco... o risco era imenso.

"Isso é perigoso e bizarro. Por que eu? Por que não contratar uma barriga de aluguel profissional?", ela questionou, sua mente pragmática analisando todos os ângulos.

"Precisamos de discrição absoluta. A família é... proeminente. Um escândalo está fora de questão. Seu perfil é perfeito. Ninguém nunca suspeitaria de você. Além disso, a avó do rapaz, antes de morrer, deixou em testamento que o ritual de passagem deveria ser feito por alguém da sua linhagem, alguém que entende as tradições. Ela mencionou o nome da sua avó, Sofia. Foi assim que chegamos até você. Acreditamos que, ao unir o ritual de passagem com o ritual de concepção, a alma do meu... do rapaz... encontrará paz. E a criança será abençoada."

O nome de sua avó. Aquilo mudava as coisas. Aquilo tornava o pedido bizarro um pouco mais compreensível, dentro da lógica distorcida dos super-ricos e supersticiosos. A família Costa. Ela imediatamente soube de quem se tratava. Eram magnatas, donos de um império. O filho deles, Rafael Costa, havia sido notícia em todos os portais. Jovem, rico, herdeiro de tudo, encontrado morto em sua mansão. A história oficial era suicídio.

"Tudo bem", disse Bianca, após uma longa pausa. Sua voz era firme. "Mas o preço sobe. Setecentos mil adiantados. E o restante do acordo se mantém. E eu tenho minhas próprias condições. Ninguém interfere no meu trabalho. Ninguém entra no local enquanto eu estiver lá. E quero ver o dinheiro antes de começar."

"Combinado", respondeu o homem sem hesitar. "Um carro estará esperando por você em frente ao seu local de trabalho em dez minutos."

A ligação terminou. Bianca ficou parada, o celular na mão, o coração batendo descontroladamente. Ela olhou para o esfregão e o balde, símbolos de uma vida que ela estava desesperada para deixar para trás. Esta noite poderia ser sua passagem para a liberdade, ou sua descida para um inferno que ela nem conseguia imaginar.

Dez minutos depois, um sedã preto e luxuoso parou silenciosamente no meio-fio. A porta traseira se abriu. Bianca tirou o avental, jogou-o em uma lixeira e entrou no carro sem olhar para trás.

O trajeto foi rápido e silencioso. O carro deslizou pelos portões de uma propriedade gigantesca em um dos bairros mais caros da cidade. A mansão dos Costa era um monumento ao poder e à riqueza, com colunas brancas e um jardim impecavelmente cuidado, que parecia sombrio sob a luz da lua.

Ao entrar, ela foi recebida por um homem de terno, o mesmo da ligação, e um casal mais velho. O homem, o Sr. Costa, tinha um rosto duro, marcado pela arrogância e pelo controle. A mulher, a Sra. Costa, parecia frágil, seus olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. A dor dela parecia genuína, um contraste gritante com a frieza calculista do marido.

"Srta. Silva", disse o Sr. Costa, sua voz tão impassível quanto seu rosto. "Agradeço por sua presteza."

"Por favor, meu filho... ajude meu filho a descansar em paz", soluçou a Sra. Costa, agarrando a mão de Bianca. O toque era frio e desesperado.

Bianca sentiu uma pontada de compaixão, algo raro em seu trabalho. Ela olhou para a mulher e assentiu.

"Farei o meu melhor."

O Sr. Costa a interrompeu. "O dinheiro está na maleta. Sete mil maços de cem. Conte se quiser."

Ele apontou para uma maleta de couro sobre uma mesa. Bianca abriu, verificou um dos maços e fechou. O cheiro de dinheiro novo era quase tão forte quanto o cheiro de desinfetante de horas atrás.

"O quarto dele é no andar de cima. A polícia já liberou a cena", disse o magnata. "Mas antes de você subir... há mais uma coisa."

Ele fez um sinal e o homem de terno se aproximou com um pequeno refrigerador portátil, daqueles usados para transportar material médico.

"Isso é o que você pediu?", perguntou Bianca, já sabendo a resposta.

O Sr. Costa não respondeu. Ele apenas a encarou com seus olhos frios e calculistas. Foi nesse momento que Bianca notou algo na parede da sala. Uma grande foto emoldurada. Um retrato de família. O Sr. e a Sra. Costa, e ao lado deles, um jovem sorridente.

O ar sumiu dos pulmões de Bianca.

Ela conhecia aquele rosto.

Ela conhecia aquele sorriso.

Não era Rafael Costa, o magnata. Era "Rafa", o segurança humilde com quem ela namorou há dois anos, o homem que desapareceu de sua vida sem deixar vestígios.

O homem que ela amou.

O homem que estava morto no andar de cima.

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