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Capa do romance Ela o construiu, depois o destruiu

Ela o construiu, depois o destruiu

Ergui a carreira do meu marido até ele se tornar prefeito, mas fui traída por um caso sórdido com sua estagiária. Sem remorso, ele me chamou de fardo e usou a morte do meu irmão, tragédia que ele mesmo causou, para me chantagear a encobrir suas fraudes eleitorais. Ele exigiu que eu limpasse sua sujeira e evitasse o escândalo. Fingindo obediência, aceitei o desafio. Ele pensa que estou salvando seu cargo, mas não percebe que meu plano final é enterrar sua vida para sempre.
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Capítulo 3

Ponto de Vista: Abril Azevedo

Um sorriso esticou meus lábios, uma coisa grotesca e dolorosa que parecia rasgar a pele nos cantos da minha boca. As lágrimas continuaram a cair, quentes e silenciosas. "Então eu deveria ser grata? Por todos esses anos que você tão graciosamente me tolerou?"

Heitor suspirou, um som longo e teatral de um homem sobrecarregado além da resistência. Ele deu um passo em minha direção, a mão estendida como se para oferecer um conforto que agora era um cálice envenenado. "Abril, não é isso que eu-"

Suas palavras foram cortadas ao meio pelo toque estridente e insistente de seu celular.

Não era seu toque de celular habitual. Era um som frenético e em pânico que eu nunca tinha ouvido antes. Ele olhou para a tela e a cor sumiu de seu rosto. Era Ketlyn.

"O que foi?", ele latiu para o telefone, a voz tensa de alarme.

A voz dela, fina e aterrorizada, era audível mesmo de onde eu estava. "Heitor! É o Danilo! Ele foi preso! Estão dizendo que é fraude... algo sobre as doações da campanha... Oh Deus, Heitor, o que está acontecendo?"

Danilo. O irmão mais novo dela. Um garoto de vinte anos com um complexo de inferioridade e um histórico de pequenos problemas com a lei.

O rosto de Heitor, já pálido, tornou-se de um branco ceroso e translúcido. "Onde você está?", ele exigiu, sua compostura política se despedaçando em pânico bruto. Ele já estava se movendo em direção à porta, pegando suas chaves da tigela no aparador.

"Estou na delegacia do centro", ela soluçou. "Eles disseram... disseram que meu nome está na papelada!"

Ele estava na porta, a mão na maçaneta, pronto para fugir. Para correr até ela. Para salvá-la.

"Não se atreva", eu sussurrei, as palavras mal audíveis.

Ele congelou, de costas para mim.

"Não se atreva a sair por essa porta, Heitor." Minha voz estava mais forte agora, tingida de uma fúria fria.

Ele se virou lentamente, o rosto um turbilhão de medo e fúria. "Não é hora para isso, Abril. Isso é sério."

"Ah, é sério", eu disse, dando um passo em sua direção. "É fraude de financiamento de campanha, não é? Doações ilegais canalizadas através de uma empresa de fachada. E você, seu idiota brilhante e imprudente, colocou o nome dela nisso."

Sua mandíbula se contraiu. Ele não precisava confirmar. Fui eu quem o ensinou a criar essas contas, a navegar nas áreas cinzentas da lei de financiamento de campanha. E ele pegou meu conhecimento e o usou para se proteger e colocá-la em perigo.

"Você tem que consertar isso", ele disse, a voz baixa e urgente. Ele deu um passo para trás em minha direção, os olhos suplicantes. "Você é a única que pode. Você tem que enterrar isso. Fazer desaparecer. Por mim. Pela campanha."

Ele queria que eu usasse minha mente, minhas habilidades, a própria essência do meu valor, para salvar sua amante. Para limpar a bagunça que ele fez enquanto me traía.

A palavra 'imprudente' ecoou em minha mente e, de repente, não era este momento que eu estava vendo. Era outra noite, dez anos atrás. O guincho de pneus no asfalto molhado. O horrível som de metal se contorcendo. O cheiro de gasolina e chuva. Meu irmão, Léo, caído no banco do passageiro, sua vida se esvaindo enquanto um jovem e aterrorizado Heitor Almeida soluçava ao volante.

Ele tinha sido imprudente naquela época também. Dirigindo rápido demais, se exibindo, tentando me impressionar. E eu o acobertei. Menti para a polícia. Disse a eles que um animal havia atravessado a estrada. Eu enterrei a verdade para salvar o futuro dele e, ao fazer isso, enterrei uma parte de mim mesma.

Heitor viu o lampejo da dor antiga em meus olhos. E ele o usou.

"Não faça isso agora, Abril", ele avisou, sua voz endurecendo. "Não desmorone agora. Não agora. Pense no que está em jogo."

Ele estava usando meu trauma, a ferida mais profunda da minha vida, como alavanca. Ele estava me dizendo que minha dor era um inconveniente para sua ambição.

Olhei para ele — para este homem por quem eu havia sacrificado a memória do meu irmão, minha carreira, meu coração. O amor não apenas morreu. Virou cinzas e voou para longe, deixando para trás algo frio, duro e afiado.

Uma calma se instalou sobre mim, tão profunda que era aterrorizante.

"Você quer que eu enterre isso?", perguntei, minha voz assustadoramente serena.

Ele assentiu, uma esperança desesperada surgindo em seus olhos. "Sim. Por favor, Abril."

"Tudo bem", eu disse, a palavra tão limpa e afiada quanto um caco de vidro da nossa foto de casamento quebrada. "Eu vou enterrar isso."

Ele soltou um suspiro de alívio, mas não viu o que estava em meus olhos. Ele não entendeu a promessa que eu estava fazendo a mim mesma.

Eu vou enterrar tudo, Heitor. Vou enterrar você, sua carreira e seu romance patético tão fundo que ninguém jamais encontrará os pedaços.

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