
Ela e a Vingança Tecnológica
Capítulo 3
Naquela mesma tarde, Patrícia me chamou em sua nova sala, a sala que deveria ter sido minha. A placa na porta, com seu nome em letras douradas, parecia zombar de mim. Entrei e a encontrei recostada na cadeira de couro, os pés sobre a mesa de mogno, um gesto de puro poder e arrogância.
"Feche a porta" , ela ordenou.
Eu obedeci, em silêncio.
"Olha, mana, eu sei que você está chateada" , ela começou, com um tom que pretendia ser conciliador, mas que transbordava falsidade. "Eu não queria que as coisas chegassem a esse ponto. Eu só queria mostrar meu valor. Mas não se preocupe, eu não vou te demitir. Você pode ficar aqui, trabalhando nos meus projetos. Eu te protejo."
A oferta era uma ofensa. Ela me oferecia proteção contra a tempestade que ela mesma havia criado. Ela queria me manter por perto, como um troféu vivo de sua vitória, uma lembrança constante da minha humilhação.
Meu corpo inteiro tremia de raiva, mas minha voz saiu firme.
"Eu não preciso da sua proteção. Eu sei o que você fez, Patrícia. E não sei como, mas vou descobrir."
Ela riu, uma risada alta e debochada.
"Descobrir o quê? Que eu sou mais inteligente que você? Que eu sou mais capaz? Aceite, Ana Lúcia. O seu tempo já passou. Agora é a minha vez."
Eu me recusei a discutir. Apenas me virei e saí da sala. Eu não ia dar a ela o prazer de me ver desmoronar. Não na frente dela.
Mas a verdade é que eu estava desmoronando por dentro. Os dias que se seguiram foram um pesadelo. Patrícia me sobrecarregou com tarefas insignificantes, me humilhava em reuniões, roubava minhas ideias e as apresentava como suas. Os colegas me evitavam, como se minha desgraça fosse contagiosa. Eu estava completamente isolada. O estresse era esmagador, a pressão incessante. Eu mal dormia, mal comia. Minha única motivação era a raiva e a necessidade de provar que ela estava errada.
Uma noite, eu estava trabalhando até tarde, tentando consertar um bug em um código que Patrícia havia estragado. As letras na tela começaram a dançar. Meu peito se apertou, o ar ficou escasso. Minhas mãos formigavam, o suor frio escorria pela minha testa. Eu estava tendo um ataque de pânico. Tentei me levantar, mas minhas pernas cederam. Caí no chão do escritório vazio, meu corpo convulsionando em um choro silencioso e desesperado. A exaustão, a humilhação, a traição... tudo veio à tona de uma só vez. Senti meu corpo se desligando, a escuridão me envolvendo. Eu havia chegado ao meu limite.
Desmaiei ali mesmo, no chão frio.
Fui encontrada na manhã seguinte pela equipe de limpeza. Acordei em casa, na minha cama. Minha mãe disse que eu tive um colapso por estresse. Passei os dias seguintes em um estado febril, entre a consciência e o delírio. E foi nesse estado, em um sonho febril, que a verdade me foi revelada.
No sonho, eu não estava no escritório. Eu estava no quarto de Patrícia. Ela estava sentada em frente ao computador, mas não estava programando. A tela mostrava uma interface estranha, escura, com linhas de código que se moviam sozinhas. Era um programa, um "sistema". Patrícia apenas digitava algumas palavras-chave, e o sistema gerava blocos complexos de código, prontos para serem copiados e colados. Ela não era uma gênia. Ela era uma fraude. Ela estava usando um software de plágio avançado, uma ferramenta que fazia todo o trabalho sujo por ela.
Acordei sobressaltada, o coração batendo forte no peito. O sonho tinha sido vívido, real demais para ser apenas uma alucinação. Tudo fazia sentido agora. A ascensão meteórica, a genialidade inexplicável, a falta de conhecimento técnico real. Era tudo uma farsa.
Embora meu corpo estivesse fraco, uma nova força surgiu dentro de mim. Não era mais apenas raiva. Era determinação. Eu tinha uma pista, um segredo. A fraqueza deu lugar a uma vontade de ferro de sobreviver e lutar. Eu precisava voltar, precisava desmascará-la.
Com uma decisão que vinha do fundo da minha alma, eu sabia o que tinha que fazer. Eu não podia mais competir no jogo dela. Eu tinha que criar um novo jogo. Decidi que, ao voltar para a empresa, eu não a confrontaria diretamente. Em vez disso, eu mergulharia fundo no meu próprio conhecimento. Eu iria para um lugar onde o sistema dela não poderia me alcançar.
Esse lugar era o estudo intenso, a dedicação absoluta. Eu me tornaria tão boa, tão inegavelmente competente, que nenhuma farsa poderia me ofuscar. Eu me tornaria a programadora mais jovem a atingir o nível sênior na empresa. Era um caminho perigoso, uma jornada solitária que exigiria cada grama da minha energia, um verdadeiro exílio auto-imposto dentro da própria empresa. Mas era a minha única chance. Arrastando meu corpo ainda dolorido para fora da cama, eu me sentei em frente ao meu computador pessoal. A jornada para o meu "lugar perigoso" havia começado.
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