
Dupla obsessão
Capítulo 3
Nada melhor do que tomar um café forte, ouvindo a voz melancólica da Lana Del Rey, assistindo à chuva do lado de fora da cafeteria que ficava a poucas quadras do trabalho. Bem, esse era o meu ritual matinal quando estava em um caso. O curioso era que o meu trabalho se mantinha em analisar provas e elementos de uma cena de crime, mas eu tinha um espírito detetive que às vezes incomodava os meus colegas.
Meu trabalho era dentro do prédio ou quando ia a uma cena de crime, porém, muitas vezes eu me envolvia tanto com o caso que saía, sem permissão alguma, em busca de mais provas, atrás dos suspeitos, o que já me deu duas advertências. A questão agora era bem mais complicada e talvez perigosa.
A equipe de Edward estava na investigação que buscava pelo chamado ceifador. Particularmente, me sinto atraída por esse caso em particular. Ele era sombrio e não tinha pistas suficientes para uma busca ou qualquer caminho investigativo. Se bem sei e como conheço o trabalho do Wilson, ele vai, primeiramente, investigar as suas vítimas.
Pelo menos os motivos não eram segredo. Todos sabemos que o perfil desse assassino é ceifar vidas de pessoas que se envolviam com o mundo do crime ou que cometeram algum ato cruel contra pessoas inocentes. Alguns o veem como herói, outros como vilão, para mim ele é só mais um homem misterioso que está me atraindo de formas assustadoras e que não posso explicar como. Se Eduardo me ouvisse dizendo isso, ele me prenderia em um sanatório.
Quem é esse homem? Com o que trabalha? É um policial, detetive, já foi um soldado? Bem, ele não é um homem comum, pois tem habilidades suficientes para abordar as suas vítimas sem que elas o percebam. Desde que começou a deixar o seu rastro de sangue não deixou muitas pistas. Se eu pudesse analisar aquela cena poderia descobrir algo. Entretanto, esse caso foi dado a Benedict. Análise Benedict. A coitada não tem culpa. É o nosso trabalho, mas passei a odiá-la baseada nisso.
Contudo, um dia cheio e barulhento na agência, ela saiu da sala, deixando-me com algumas evidências sobre a mesa. Meu lado moral tentou me impedir, mas o diabo em mim, expulsou qualquer racionalidade naquele momento, me levando a espiar, e como tenho memória eidética, meu cérebro guardou aquelas palavras e fatos como em um chip. Toda vez que fecho os olhos, vejo aquela cena. O corpo, o beco e o lugar mais limpo de evidências.
Claro, estava tudo sujo, pois era um beco, porém, as pegadas e digitais que nos ajudariam a achar o assassino não estavam lá. A vítima não foi morta no local onde encontramos o corpo. Seja lá quem for, o assassino sabia exatamente o que fazer, o que me deixou ainda mais curiosa e com uma pulga atrás da orelha. Com certeza é um profissional. Da polícia, do exército, seja lá o que ele for, sabe como não deixar suas digitais.
Que ninguém me ouça, mas admiro esse ceifador.
— Gostaria de mais alguma coisa? — A garçonete perguntou, com aquele típico sorriso simpático que sempre exibia no seu rosto. As maçãs do seu rosto coravam toda vez que olhava para mim. Era estranho, mas eu acho que não era só comigo. Devo admitir que a mulher era bonita. Os cabelos escuros combinavam com o seu tom de pele pálida, os olhos claros chamavam atenção. Nunca conversamos mais do que duas ou três palavras.
— Não, obrigada. — Respondi e peguei a minha carteira na bolsa retirando a nota e pagando a mulher.
***
Hernandes Chaves. Morto com dois tiros, um nas costas e o outro na cabeça. Provavelmente tentou correr do assassino, mas não conseguiu. O beco onde seu corpo foi encontrado não foi a cena do crime. Ele foi acusado de estuprar e espancar uma mulher. Curiosamente, o seu assassino o deixou no mesmo lugar no qual ele cometeu esse crime. Semanas antes, Hernandes conseguiu se safar da justiça por falta de provas ou do seu DNA na moça.
Não faço ideia do porquê estou repassando isso na minha cabeça justamente agora. Primeiro, não era o meu caso; segundo, eu encarava o corpo de uma mulher que deveria ter entre 20 a 30 anos, seminua e com um ferimento de bala na boca, em cima de uma cama de motel. Meu caso não era tão empolgante como o de Hernandes. Claro, isso não deveria me dar graça ou felicidade, mas confesso que estava esperando algo parecido.
A única dificuldade que eu poderia ter seria identificar o seu assassino, pois dentro deste quarto deve ter milhares de DNA de outros milhares de pessoas que frequentam este tipo de lugar. É bem óbvio pensar que seu companheiro é o verdadeiro assassino aqui. O detetive desse caso só precisaria ver as câmeras de segurança ou registro na entrada. A mulher levava a vida como muitas outras, vendendo o seu corpo por míseros trocados. Seus olhos ainda abertos registraram o pânico e o medo que sentia antes mesmo do seu crânio ser aberto por uma bala dentro da sua boca.
— Temos um segundo corpo no banheiro. — Falou Tomás, o novo recruta da polícia. Era notório que esse era o seu primeiro caso. A cara que fez quase me fez gargalhar. Seria mórbido se eu fizesse isso? — Ele tentou se esconder, mas obviamente não conseguiu.
— Então podemos descartar o cliente da nossa lista de prováveis assassinos. — Falei, sentindo uma mera satisfação nisso.
— A recepcionista disse que o cliente não saiu. — Mila adentrou o quarto olhando diretamente para o corpo da mulher em cima da cama.
— O novato achou ele no banheiro. — Falei, exibindo um sorriso que a fez me olhar com surpresa.
— Por que acho que você está feliz com isso? — Franzir o cenho.
— Não estou. Sério, não riria dessa situação. — Me defendi. — Mas ficou interessante.
— É mórbido você querer achar isso empolgante, Miller. — Ela disse ao passar por mim, indo ao banheiro do pequeno quarto. Eu adorava trabalhar com ela. A detetive Foster era a melhor, e que Edward não me ouça, mas prefiro trabalhar com Mila. Ela era firme e focada, sua cara de mal botava medo em homens com o dobro do seu tamanho e tinha um senso de humor que poucos tinham. — Quem desses dois era o alvo?
Deixando o meu material em cima da cama, me dirigi ao banheiro onde encontrei um homem encostado na parede, de cabeça baixa, sem roupa alguma. Ele tinha duas perfurações no peito.
— A mulher o alvo. Esse bobo aqui foi apagado por consequência. — Agachei-me para olhar em seu rosto caído sobre o corpo. Bem, ele não estava estirado, e pela forma como estava parecia mais que desejava se esconder. — O assassino priorizou a mulher, o que deu tempo para esse aqui correr para o banheiro, e por alguma razão, tentou se esconder. Acredito que ele sabia que seria morto. — Levantei—me e voltei ao comando anterior. — Ela também sabia que morreria. Não houve luta, só um acordo silencioso. Foi cruel e direto. O único tiro na boca, que atravessou o crânio, a matou instantaneamente. Particularmente queria que o cerebelo tivesse saído.
— Você me assusta, Miller. – Falou o novato parecendo enjoado.
— Gosto de você por ser direta e às vezes fazer o meu trabalho. — Mila comentou.
— Às vezes gostaria de ir atrás dos bandidos, mas não daria certo, me empolgaria demais. — Revelei.
— Continue trabalhando, vou até a recepção coletar informações. — Então ela saiu, deixando apenas eu e Thomas.
— Você seria uma boa detetive. — Ele disse. Eu prestava atenção à vítima, porém, sentia seu olhar em mim. — É muito inteligente.
— É, eu sou boa no que faço. — Falei orgulhosa. — Uma cena de crime para mim é como uma tela e pintura que foi traçada pelo artista onde eu tenho que identificar todos os elementos e as falhas nele.
— Você parece ser bem esquisita.
— Tipo isso. – Falei a ele, que saía do quarto.
***
Muitos me perguntam por que escolhi North Weland. Bem, não foi pela agitação da cidade, pois ela não é assim, apesar dos seus pontos mais festivos. Também não foi pela família, tudo que eu tinha se perdeu no passado. Escolhi vir para cá por conta do seu silêncio e do clima. Era tudo tão melancólico, com dias mais frios e mais escuros. A neve caía bastante por aqui. As pessoas viviam suas vidas isoladas, se conectando apenas quando era necessário. Nunca fui de ter muitos amigos. Os que tenho respeitam a minha privacidade; eles sabem que não sou o homem brincalhão ou que gosta de piadas bobas, não saio do trabalho para beber em grupo, não vou às suas casas e conheço suas famílias, e também não falo muito sobre mim ou sentimentos, mas eles me respeitam. Essa cidade não é perfeita, apesar da sua beleza. Ela é apenas mais uma entre outras que tem o sistema corrompido. A máfia domina as favelas e ruas sujas, a polícia tem seu teto de vidro por onde se veem os defeitos, a política é mais um círculo do que democracia. O sistema não existe. Penso, às vezes, que cometi um erro ao vir, porém, ainda permaneço aqui. Agora, ironicamente, esse sistema falho quer me ferrar, vindo atrás de quem está fazendo alguma coisa. Me forçando a calar por alguns segundos. Não sinto medo, isso nem era uma ameaça para mim, entretanto, os olhos de todos, assim como da imprensa, estão sobre os meus atos e não é fama que busco.
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