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Capa do romance Dona: Uma Mulher no Comando do Morro

Dona: Uma Mulher no Comando do Morro

Após a prisão, Flávia deseja abandonar o crime, mas a facção nega sua saída e a nomeia líder do Morro Celeste. Sob o codinome Rafaela, ela enfrenta traições e operações policiais enquanto tenta manter o pulso firme. Apesar da regra de não se envolver com aliados, ela se apaixona por Tom. O sentimento é mútuo, mas o passado dele e a inveja ao redor ameaçam esse romance. Agora, ela deve gerir a guerra pelo poder e os dilemas de seu coração.
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Capítulo 1

Flávia,

Tranquilidade, saúde mental e família é tudo que eu quero para minha vida. Esses cinco meses em que fiquei presa, me fizeram refletir sobre o meu passado, presente e futuro… definitivamente eu não quero passar tanto tempo sem liberdade novamente, além de eu sofrer ainda faço as pessoas que amo sofrerem também.

Só fazem dois dias que saí daquele inferno, a vida ainda está confusa, o corpo ainda está no ritmo da prisão, mas minha mente está certa do que realmente quero, todos vão ter de entender que já não caibo nessa vida e que estou saindo de tudo isso, definitivamente eu não quero mais nada vindo do corre.

Sentada na sala, reflito um pouco mais e então quando penso que estou certa da minha decisão, levo minha mão ao telefone que está sobre a mesinha de centro, digito um texto breve, já explicando sobre o desejo de afastamento e envio como a mensagem ao quadro final da facção, solicito uma reunião (R), o irmão me confirma que será feita à noite e pede que eu me organize.

Ansiosa com a bendita reunião, não tenho concentração para absolutamente nada, ainda assim tento separar alguns currículos e minha documentação, tenho uma entrevista de emprego às 14:30, preciso muito que dê certo, meu pequeno grande passo rumo a uma nova vida. A entrevista é em um hotel, faz alguns bons anos que não trabalho CLT e sei que não será fácil essa adaptação.

Me arrumo de modo simples e formal, meu pai é quem vai me levar ao hotel, estou muito ansiosa, não sei o que me deixa mais tensa, se a reunião com a facção ou se a entrevista. Entro e sou recepcionada por uma moça muito gentil, ela me oferece uma água e pede que eu aguarde sentada junto aos demais candidatos.

A espera é de aproximadamente uma hora, a cada pessoa que sai da sala uma nova descarga de adrenalina é lançada em meu corpo, finalmente é minha vez, já me levanto pedindo ao universo proteção para que tudo possa dar certo. entro em uma sala muito bonita e arejada, decoração harmoniosa e bem clean.

Um casal está sentado à mesa, eles sorriem e indicam que eu sente-me na cadeira logo à frente, em uma conversa tranquila exponho minhas experiências, expectativas, habilidades e tudo mais que me foi perguntado, apesar de estar a um bom tempo fora do mercado, sinto que estou preparada para assumir o cargo.

Meu coração se enche de alegria, um rio de esperança lava a minha alma, não há palavras que mensuram a importância de conseguir esse emprego, primeiro que é o primeiro passo para uma nova fase e segundo que o pouco de dinheiro que eu tinha a cadeia levou, como não vou voltar para o crime, estou “na lona”, por baixo mesmo.

Confiante de que as coisas vão dar certo, chego em casa com um misto de ansiedade e felicidade, a resposta do hotel deve vir em até 24 horas, e a reunião será logo mais, comemoro meu progresso pessoal, enquanto faço um lanche com minha família.

À noite, janto e me preparo para a reunião, exatamente na hora marcada o telefone vibra notificando uma chamada por vídeo em grupo. em meu corpo corre um formigamento, consequência do nervosismo que estou sentindo, respiro fundo e atendo, meu segundo passo para uma vida em paz, sem medo ou preocupação.

Começamos a conversa fazendo uma breve apresentação de todos os presentes, o irmão faz uma introdução falando da minha “caminhada” dentro do crime e sobre a pauta da reunião que é meu afastamento, me dando em seguida espaço de fala.

Sem rodeios, exponho meu desejo de sair do crime, ressalto que minha passagem pela organização não deixou manchas e que eu respeito e entendo todas as restrições que essa escolha pode me trazer, ainda assim tentam me fazer mudar de ideia e outra vez friso as dores que senti enquanto estive na prisão.

— Olha aqui mana, seu marido está preso, certo? Onde ele está não tem sintonia, certo? — Ele pergunta.

Ouço essas perguntas e apenas friso nossa separação, todos já sabem, mas no crime não é bem aceito essa questão de que o casal separe sendo que um está preso. Sabendo disso, reafirmo que nosso vínculo é de amizade e que é dentro desse parâmetro que o fortaleço na cadeia.

— Correto mana, agora me responde outra coisa, como a mana pretende fortalecer o seu ex marido estando afastada? A senhora compreende que a caminhada é até o final? E sem "vacilação"! — um deles fala em tom ríspido.

— Nós tamo ligado que o mano mesmo preso e sem sintonia fez o corre e deu assistência para mana os meses que a senhora ficou privada, agora a mana quer rasgar? O mana a senhora acha certo? Entendemos que não são mais casados, porém continuam tendo laços e esse vínculo depende do corre, do seu corre. — outro irmão fala me deixando sem palavras, eu já havia esquecido quão difícil é sair, entrar é tão simples agora sair é bem difícil mesmo. — Outro complementa no mesmo timbre.

— Irmãos, a assistência para ele é claro que vou dar, cumprirei meu papel, e honrarei minhas obrigações, mas para isso eu não preciso estar no crime, quantas e quantas mães e esposas visitam, dão auxílio e nunca praticaram nenhum crime. — Rebato já cansada de tudo isso.

— Mana a senhora tem entendimento, pô, não vem de vacilação não, a mana quer rasgar, nós vamos rasgar, mas depois não vem chorar o leite derramado não, aqui não tem “K.O” não! O crime não é o creme, a senhora vai ser afastada, mas se falar de corre na cadeia ou na rua será disciplinada no automático. A mana tá ligada que afastou é para sair de tudo, sem contato, sem amizade, sem nada? — Ele pergunta já tão impaciente quanto eu.

— Sim, mano estou ciente! — Respondo revirando os olhos.

— Ok, mana vou retirar a senhora da chamada e em alguns instantes já lhe adicionaremos novamente, com resumo final. — ele explica.

Sinalizo e me tiram da chamada, eu fico aguardando ansiosa, infelizmente sair de uma facção é algo muito burocrático e algo me diz que meu pedido será negado. Enquanto aguardo fico pensando em tudo que foi conversado, se eu continuar tendo contato com Thiago será bem difícil não falar sobre corres, a vida na cadeia gira em torno disso.

Quando se pede afastamento do crime, é uma decisão que precisa ser muito pensada e planejada, não dá para sair ficar uns dias, não conseguir se virar e querer voltar. A regra é clara, entra por que quer e sai quem tem certeza, pois facção não é ioiô para ir e voltar quando bem entender.

Ao sair fica proibido se envolver em qualquer tipo de corre, frequentar lugares que pessoas do crime frequentam, ir em bailes, usar drogas, ou qualquer coisa que remeta a esse mundo. Sinceramente nada disso me fará falta, contudo começo a ficar receosa com essa saída e já nem tenho tanta certeza assim do que eu quero.

Não demora muito até que a chamada seja retomada, meu coração está aflito, atendo e agora só há dois irmãos na chamada, os demais já não estavam mais presentes. Eles fazem outra apresentação, pois um deles não estava na chamada passada.

— Mana, analisamos sua situação e a senhora não vai sair por agora.— Ao ouvir, a minha feição se transforma, claramente estou chateada, mas não falo nada faço apenas um aceno positivo.

— Na verdade mana, para a senhora temos uma outra oportunidade, conhecemos a sua caminhada dentro da organização e não há manchas no passado, desde sempre agiu certo pelo crime e representou com elegância a nossa família— o outro fala e eu apenas ouço — ao invés do seu afastamento, daremos o domínio do Morro Celeste que fica na região sul.

— Oi? Mano, eu agradeço a oportunidade, mas definitivamente eu não tenho condições financeiras para tal! É uma honra saber que reconhecem meus esforços, contudo não posso dar um passo maior do que minhas pernas alcançam— Respondo surpresa, isso foge de tudo que eu pude imaginar um dia, o morro é um dos mais disputados no submundo das drogas.

— Calma mana, a senhora vai entrar com nosso apoio, todo material e armamento nós abastecemos e também daremos apoio total, até que a senhora consiga caminhar com as próprias pernas. — ele explica e eu começo a me preocupar, a esmola está muita.

— E em troca desse apoio?— Pergunto com um pé atrás.

— A única condição é que o abastecimento seja nosso, preço será o da tabela, sem nenhuma cláusula a mais. Sabemos que a senhora conhece toda a região, e que será bem recebida pela população. — o outro explica em uma voz branda

Indo literalmente contra minha ideia inicial, aceito essa nova empreitada. Agora é fechar a mente e focar, não será fácil, mas eu não tenho medo de desafios. Em teoria eu tenho um vasto conhecimento sobre a organização de um morro, na prática eu espero alcançar as expectativas.

Essa é uma reviravolta que eu não esperava, Morro Celeste é um dos mais almejados na região, muitos irmãos têm cacife suficiente para assumi-lo, e tantos outros vivem lutando para dominá-lo, uma missão perigosa está em meus caminhos.

Com total sinceridade, ainda não entendi o porquê de estar sendo designada para tal liderança, mas de uma coisa eu tenho certeza, vou fazer o melhor que esse morro já viu.

A chamada é finalizada e eu ainda estou aqui com o telefone na mão olhando para o céu e me perguntando como vou falar para minha família o tamanho da responsabilidade, ou irresponsabilidade, que eu acabei de abraçar.

Com razão, meus pais e meus filhos não vão gostar nada disso, Thiago não vai poder reclamar muito, afinal ele já me conheceu no corre e ele está preso, sobretudo não estamos mais juntos.

Pensando bem não vou contar para ele, melhor deixar ele pensando que estou trabalhando.

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