
Do Sofrimento à Serena Paz
Capítulo 2
Os pais de Tiago, António e Beatriz, olharam-no com frieza.
"Tiago, arruma as tuas coisas. Vais para Londres estudar. Não queremos que interfiras no noivado do teu irmão."
A voz de Beatriz era cortante, sem qualquer traço de afeto maternal.
Tiago sentiu um arrepio.
Aquelas palavras. Aquele tom.
Ele já tinha vivido aquilo.
Um turbilhão de memórias invadiu-o.
A sua vida passada, uma sucessão de sofrimento e traição.
Ele lembrou-se de tentar desesperadamente contar a verdade a Sofia.
Sofia, o seu amor, a herdeira de um império vinícola.
Lembrou-se do desprezo dela, manipulada por Ricardo e pelos pais.
O acidente de elétrico em Lisboa, onde quase morreu.
A sua morte clínica no Hospital de Santa Maria.
E depois, o casamento faustoso de Ricardo e Sofia, transmitido online para todo o mundo ver.
Ele tinha lutado tanto. Tinha sofrido tanto.
Desta vez, não.
Desta vez, Tiago não ia lutar pelo que lhe fora roubado.
Ele olhou para os pais, a sua expressão serena.
"Sim, mãe. Sim, pai."
António e Beatriz entreolharam-se, surpreendidos pela sua súbita docilidade.
Normalmente, Tiago protestaria, argumentaria.
"O que se passa contigo, Tiago? Estás doente?" perguntou António, desconfiado.
Tiago sorriu levemente. Um sorriso que não alcançou os olhos.
"Não, pai. Apenas aceitei o meu destino."
Ele sabia que eles não acreditavam nele. Eles nunca acreditavam.
A sua infância desfilou perante os seus olhos.
Ricardo, o irmão mais velho, sofria de uma forma rara de anemia aplástica.
Tiago nascera com um propósito: salvar Ricardo. O sangue do seu cordão umbilical fora a cura.
Mas a salvação de Ricardo fora a sua condenação.
Viveu sempre à sombra do irmão, negligenciado, maltratado.
Os pais só tinham olhos para Ricardo, o filho de ouro.
Tiago era o filho sacrifício, o dador de órgãos ambulante, a peça sobresselente.
Ele cedeu tudo. A sua infância, a sua juventude, a atenção dos pais.
Tudo, exceto o seu amor por Sofia.
Sofia. Herdeira de um vasto império de vinhos do Porto.
Um acidente de iate no Tejo deixara-a temporariamente cega.
A família isolou-a numa quinta no Douro.
Foi lá que Tiago, sob o pseudónimo "Sete", se aproximou dela.
Ele visitava-a em segredo.
Lia para ela. Descrevia o mundo que ela não podia ver.
Ouvia-a tocar guitarra portuguesa, melodias tristes e belas que enchiam o ar da quinta.
Fizeram promessas de amor eterno.
Na noite em que Sofia recuperaria a visão, a noite em que ele revelaria a sua identidade, tudo ruiu.
Os pais drogaram o seu café.
Quando acordou, Ricardo estava ao lado de Sofia.
Sofia abriu os olhos e viu Ricardo.
Acreditou que ele era "Sete", o seu salvador, o seu amor.
A traição fora completa, orquestrada pela sua própria família.
No presente, Tiago aceitou passivamente a ordem de partida.
A sua calma era a sua nova arma.
O telemóvel vibrou. Uma mensagem de Sofia.
Ela queria encontrá-lo.
Tiago sabia que seria mais uma humilhação.
Sofia, manipulada por Ricardo, queria confrontá-lo sobre a sua "obsessão".
Ele aceitou o encontro. Num quarto de hotel de luxo em Lisboa.
Sofia estava lá, bela e fria. Ricardo ao seu lado, possessivo.
"Tiago, tens de parar com isto. Eu amo o Ricardo. Ele é o Sete."
As palavras dela eram como facas.
Mas Tiago apenas sorriu.
"Eu sei, Sofia. Desejo-vos felicidades."
Entregou-lhe um pequeno embrulho. O convite para o casamento deles.
Sofia ficou surpreendida com a sua serenidade.
Saíram do hotel. Caminhavam pela Rua Augusta.
Um estrondo. Um andaime de uma obra desabou.
Sofia, instintivamente, protegeu Ricardo, empurrando-o para longe do perigo.
Tiago não teve tempo de reagir.
Foi atingido. A dor foi excruciante.
Enquanto caía, viu o rosto de Sofia, preocupada com Ricardo, ignorando-o a ele, que sangrava no chão.
Naquele instante, para Tiago, a "Sofia que o amava" morreu.
Ele aceitou. Este era o seu renascimento. E ele não cometeria os mesmos erros.
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