
Do Despejo à Vitória: A Jornada de Clara
Capítulo 3
Entrei no apartamento dos meus pais arrastando a minha mala. A casa cheirava a sopa de galinha e a desinfetante, um cheiro familiar de conforto.
A minha mãe, a Helena, abraçou-me com força.
"Oh, minha filha. Eu soube assim que me ligaste. Aquele rapaz nunca prestou."
O meu pai, o Jorge, estava sentado à mesa da cozinha, com o jornal na mão, mas os seus olhos estavam em mim. Ele não era um homem de muitas palavras, mas o seu olhar era de apoio.
"Ficas aqui o tempo que precisares," disse ele, com a voz grave.
Sentei-me e contei-lhes tudo. Sobre o dinheiro desaparecido, o aviso de despejo, a Sofia, a chamada da Dona Isabel.
A minha mãe abanava a cabeça, com os lábios cerrados de raiva.
"Aquela família... sempre a tratar-te como se fosses uma empregada. E ele, a roubar o teu dinheiro para dar à outra? É um crime!"
"Vou contratar um advogado," disse eu, com a voz mais firme do que me sentia. "Quero o divórcio. E quero o meu dinheiro de volta."
O meu pai dobrou o jornal e pousou-o na mesa.
"Boa. Não deixes que eles se safem com isto. Vamos ajudar-te."
Passei o resto do dia no meu antigo quarto de infância, a sentir-me como uma adolescente outra vez. As paredes cor-de-rosa pálido, os pósteres de bandas antigas. Parecia uma vida diferente.
Liguei para o Leo mais uma vez. Desta vez, ele atendeu.
A sua voz soava distante e fria.
"O que é que queres, Clara?"
"Onde está o meu dinheiro, Leo? O dinheiro que te dei para o aluguer."
Ele suspirou, um som de impaciência.
"Eu precisei dele. Tive uns problemas."
"Problemas chamados Sofia?"
Houve uma pausa.
"Olha, as coisas aconteceram. Eu vou pagar-te de volta."
"Eu quero o divórcio, Leo."
Desta vez, a pausa foi mais longa. Depois, ele riu-se. Uma risada cruel e sem humor.
"Divórcio? Tu não me podes deixar. Tu precisas de mim."
"Não, não preciso. Eu quero o divórcio, e quero o meu dinheiro. Se não mo deres, vou à polícia."
"Não te atrevas a ameaçar-me, Clara!" a sua voz subiu de tom. "Tu não és nada sem mim! Vais arrepender-te disto!"
Ele desligou.
Olhei para o telemóvel na minha mão. A ameaça dele não me assustou. Apenas solidificou a minha decisão. Ele não era o homem com quem me casei. Talvez nunca tivesse sido.
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