
Do ATM ao Império da Rainha Tech
Capítulo 3
A sala de emergência era uma cacofonia de bipes, vozes abafadas e o lamento ocasional. Meu tornozelo foi minuciosamente examinado, radiografado e enfaixado. Uma torção, felizmente, não uma fratura. Mas a médica, uma mulher de rosto gentil e olhos cansados, enfatizou repouso e elevação. Eu assenti, absorvendo mecanicamente suas instruções, minha mente ainda repassando a dispensa cruel de Ângelo.
Saí mancando do hospital algumas horas depois, a bandagem um branco gritante contra minha calça jeans rasgada. A chuva havia se intensificado, agora um aguaceiro impiedoso. O vento uivava, chicoteando meu cabelo em volta do meu rosto. Estava frio, tão frio.
Lembrei-me de outras noites chuvosas, muito tempo atrás. Noites em que Ângelo me envolvia em seus braços, murmurando garantias, dizendo que eu estava segura, querida. Ele fazia chocolate quente e nos aninhávamos no sofá, assistindo a filmes antigos. Essas memórias, antes reconfortantes, agora pareciam provocações cruéis, fantasmas de um passado que nunca existiu de verdade. A ansiedade, uma companheira constante nos últimos anos, ameaçava me engolir por inteiro. Meu peito se apertou, minha respiração presa na garganta. Fechei os olhos com força, forçando-me a respirar, a empurrar o pânico crescente para baixo. Eu não o deixaria vencer. Não agora.
Uma Mercedes preta, elegante e impossivelmente brilhante, passou em alta velocidade pela calçada, espirrando uma onda de água suja da sarjeta diretamente em minhas roupas já encharcadas e enlameadas.
"Ei!", uma mulher ao meu lado gritou, sacudindo o punho para as luzes traseiras que se afastavam. "Olha por onde anda, seu idiota sem consideração!" Ela se virou para mim, o rosto uma máscara de indignação. "Francamente, certas pessoas. Provavelmente algum riquinho metido a besta. Você viu quem era? Bruna Hardt, a influencer. Ela adora fazer uma cena. E aquele cara com cara de arrogante dirigindo? Aff. Eles estão sempre juntos agora. Sempre causando problemas."
Outro transeunte interveio. "É, ouvi dizer que ela está namorando Ângelo Williams. Um cara da área de tecnologia. Aparentemente, ele é podre de rico. Ou pelo menos, a família dele é. Grupo Williams, sabe? Gigantes do setor imobiliário. Faz sentido. Outra influencer vazia cavando ouro."
"Bem feito pra ela se for enganada", a primeira mulher murmurou sombriamente. "Essas socialites, sempre correndo atrás da próxima grande coisa, sem se importar com quem pisam."
Minha mente girou. Ângelo Williams. Grupo Williams. Gigantes do setor imobiliário. Meu Ângelo, o "desenvolvedor indie falido", aquele que usava moletons gastos e reclamava de dívidas estudantis, era o herdeiro de uma fortuna imobiliária? As peças se encaixaram, grotescas e arrepiantes. Seus fracassos fabricados. Sua evasão sobre sua família. Sua súbita capacidade de financiar os gostos extravagantes de Bruna. A profundidade de seu engano era um abismo.
Olhei para minhas próprias roupas enlameadas e rasgadas, meus tênis baratos. Meu tornozelo machucado. Meu reflexo abatido em uma vitrine próxima. Comparada às roupas de grife de Bruna e à riqueza oculta de Ângelo, eu era um fantasma, um resquício de uma vida que ele explorou com alegria. A dor da minha queda, a dor crua de sua traição, temporariamente ofuscaram a vergonha súbita e amarga.
Chamei um táxi, ignorando o olhar surpreso do motorista enquanto eu me arrastava desajeitadamente para o banco de trás. "Para casa, por favor", murmurei, dando-lhe meu endereço. O couro macio do assento parecia estranho sob mim. Por treze anos, cada centavo extra foi para nossa poupança conjunta. Táxis eram um luxo que eu raramente me permitia. Eu andava, pedalava, pegava o ônibus, tudo para economizar aquele real extra. Agora, com nossas economias dizimadas e meu futuro com Ângelo obliterado, a culpa de gastar em um táxi parecia absurda. Para que eu estava economizando agora?
O táxi parou em frente ao meu prédio. Paguei o motorista, sentindo um estranho desapego enquanto o dinheiro saía da minha mão. A ideia de subir três lances de escada com meu tornozelo era um novo tormento. Mas quando cheguei à minha porta, eu vi. O brilho fraco de uma luz vindo de dentro. Ângelo estava em casa. Mais cedo do que o esperado.
Abri a porta lentamente, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas. O apartamento cheirava fracamente a colônia barata e algo doce, enjoativo. Ângelo estava na sala de estar, de costas para mim, olhando pela janela para a chuva. Suas roupas estavam amassadas, seu cabelo desgrenhado. Ele parecia... diferente. Mas não de uma forma que evocasse simpatia. Ele parecia culpado.
Ele se virou e nossos olhos se encontraram. Seu olhar percorreu meu tornozelo enfaixado, minhas roupas rasgadas, a lama manchada em meu rosto. Um lampejo de algo - surpresa? preocupação? - cruzou suas feições.
"Helena? O que aconteceu com você?", ele perguntou, sua voz um sussurro tenso.
"Eu caí", eu disse, minha voz plana, desprovida de emoção. "A caminho do hospital."
"Meu Deus, você está bem? Seu tornozelo! Venha, deixe-me ajudá-la." Ele deu um passo em minha direção, a mão estendida.
Eu recuei, uma repulsa visceral me dominando. "Não me toque", cuspi, as palavras tingidas de uma amargura que eu não sabia que possuía. "Estou bem. Já fui ao médico. Verifiquei." Gesticulei para a fita médica e os lenços antissépticos que saíam da minha bolsa.
Sua mão caiu, um leve rubor subindo por seu pescoço. Ele desviou o olhar, seus olhos dardejando pelo quarto, evitando os meus. "Certo. Bom. Eu... eu estava preocupado." Ele pigarreou.
"Estava?", perguntei, minha voz perigosamente quieta. "Você não estava muito ocupado cuidando do tornozelo torcido da Bruna Hardt?"
Sua cabeça se ergueu bruscamente, seus olhos se arregalando. Ele gaguejou: "Como... como você sabe sobre a Bruna?"
"Ah, a cidade inteira sabe sobre a Bruna", eu disse, uma risada áspera escapando dos meus lábios. "E sobre Ângelo Williams. Herdeiro do Grupo Williams. O 'desenvolvedor indie falido' foi uma ótima atuação, não foi?"
Seu rosto ficou pálido. A cor sumiu de suas bochechas, deixando-o com uma aparência doentia. Ele abriu a boca, depois a fechou, sem palavras.
"Então, como está sua tia, Ângelo?", pressionei, minha voz pingando sarcasmo. "Aquela que precisava de uma cirurgia cerebral de emergência? Aquela para quem acabei de transferir duzentos e cinquenta mil reais?"
Ele se encolheu, visivelmente. "Lena, eu posso explicar-"
"Pode?", eu o interrompi, aproximando-me, apesar da dor no meu tornozelo. "Você pode explicar treze anos de mentiras? De explorar minha lealdade, meu trabalho duro, meu amor, para financiar sua vida secreta? Para evitar um compromisso que você nunca pretendeu fazer?"
Ele recuou, sua bravata desaparecida. "Não é assim. Eu... eu ia te contar. Eventualmente."
"Eventualmente?", ri de novo, um som áspero e enferrujado. "Quando, Ângelo? Quando eu estivesse velha demais, quebrada demais, totalmente esgotada para perceber? Quando você tivesse me sangrado até secar?"
Nesse momento, o celular dele tocou. Ele olhou para a tela, depois para mim, um olhar de pânico em seus olhos. Ele tentou silenciá-lo, mas era tarde demais. A voz de uma mulher, estridente e raivosa, perfurou o silêncio tenso.
"Ângelo Williams! Onde diabos você está? Você sabe em que tipo de confusão você me meteu? Os advogados estão ligando! Aquele pagamento de um milhão de reais pelo imóvel da Vila Nova Conceição está atrasado! Você me disse que cuidaria disso!"
Ângelo agarrou o telefone, o rosto uma máscara de horror. "Brenda, agora não! Eu te ligo de volta!" Ele praticamente sibilou no receptor, sua voz mal audível. Ele tentou encerrar a chamada, mas Brenda era claramente implacável.
"Não se atreva a desligar na minha cara, Ângelo! Aquele negócio imobiliário está prestes a ruir! E quanto àquela dívida absurda que você acumulou com os agiotas? Você achou que eu não descobriria? Você deve a eles quase duzentos mil! E para quê? Perdas em jogos? Garotas? Você está nos arruinando, Ângelo!"
Meus olhos se arregalaram. Duzentos mil reais? Agiotas? Ele não estava pagando advogados. Ele estava jogando. E pagando pela Bruna. Isso não era um engano menor; era um abismo colossal e escancarado de engano e irresponsabilidade.
Ele finalmente apertou o dedo na tela, cortando a voz furiosa. Ele se virou para mim, o rosto suplicante. "Lena, por favor. É... é complicado. Eu posso explicar. Não é o que parece. Eu só... me meti em um pequeno problema. Um mau investimento. Mas eu vou consertar, eu prometo."
"Um mau investimento?", repeti, minha voz mal um sussurro. "Você disse que estava pagando honorários de advogados. Você disse que estava resolvendo um processo de direitos autorais. Você pegou meus sonhos, minha segurança, meu futuro, e você os jogou fora. Você pagou pela Bruna com eles. E então você tentou me fazer pagar pelo tornozelo torcido dela também?" Meu olhar percorreu suas roupas gastas, depois o cheiro persistente de perfume. Solidificou a imagem de Bruna, drapedada sobre ele, suas palavras ecoando em meus ouvidos, "me mima".
Lembrei-me de todas as vezes que ele esteve inacessível, o celular desligado. Todas aquelas "viagens de negócios" para conferências que não renderam clientes. Todas as vezes que eu estive trabalhando em dois empregos, exausta, enquanto ele estava fora... jogando. E traindo.
"Eu preciso ir", disse ele, de repente recuperando parte de sua compostura, embora seus olhos ainda tivessem um brilho desesperado. "Brenda está certa. Tenho que ir resolver isso. Minha família... eles ficarão furiosos. Tenho que gerenciar os danos." Ele pegou as chaves, movendo-se em direção à porta.
"E quanto aos vinte e cinco mil reais para os 'cuidados contínuos' da sua tia?", perguntei, minha voz cortando sua saída apressada. "Você vai me pedir isso também, quando voltar?"
Ele parou na porta, a mão na maçaneta. Ele se virou, um brilho esperançoso em seus olhos. "Lena, se você pudesse me ajudar só mais uma vez. Se você pudesse me emprestar um pouco mais, eu prometo, desta vez será diferente. Eu juro. Nós vamos nos casar. Vamos comprar aquela casa. Você e eu, Lena. Finalmente teremos nossa vida."
Era a mesma promessa, a mesma manipulação, envolta em um apelo desesperado. Mas desta vez, não funcionou. Suas palavras soaram ocas. Eu vi o espaço vazio por trás de seus olhos, o cálculo, o egoísmo puro e não adulterado.
"Não", eu disse, minha voz firme. "Não, Ângelo. Não vamos."
Ele me encarou, a boca abrindo e fechando. Então, seu celular vibrou novamente. Ele olhou para ele, e um lampejo de irritação cruzou seu rosto. Ele rapidamente dispensou a chamada, mas não antes de eu ver o nome do contato: "Bruna".
"Eu realmente tenho que ir", disse ele, a voz tensa. Ele abriu a porta. Do lado de fora, um carro preto elegante estava parado. Bruna estava no banco do passageiro, batendo as unhas perfeitamente feitas na janela, um olhar de impaciência no rosto. Ângelo hesitou por um momento, depois fechou a porta atrás de si.
Fiquei no silêncio do apartamento, a chuva batendo contra a vidraça. Ele se foi. Com ela. Ele sempre a escolheu.
Meu coração parecia dormente. Mas uma estranha clareza começou a se instalar sobre mim. Por treze anos, eu vivi uma mentira, sufocando sob o peso de sua manipulação. Agora, o ar tinha um gosto limpo, mesmo que fosse frio e cortante.
Peguei meu celular, meus dedos ainda tremendo. Percorri meus contatos, passando por nomes que agora não significavam nada, até encontrar o que eu precisava. Adriana Bauer. Minha mãe. A formidável CEO da MayliTec. A mulher que eu deliberadamente mantive à distância, escolhendo a independência em vez de sua sombra poderosa.
Apertei para ligar, o som do tom de discagem um farol no escuro.
"Mãe", eu disse, minha voz rouca, mas firme. "É a Helena. Eu acho... acho que gostaria de aceitar sua oferta." A oferta que ela fez anos atrás, uma rota de fuga de uma vida que ela nunca aprovou. Uma chance de recuperar minha identidade, meu futuro. A outra metade da minha linhagem me chamava.
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