
Divórcio Forjado: O Jogo do Destino
Capítulo 2
O médico entregou-me o relatório do teste de ADN, com uma expressão séria.
"Senhora Costa, os resultados estão aqui. O tipo de sangue do seu filho é AB, e o seu é O. Geneticamente, o pai tem de ter sangue do tipo A, B ou AB."
Olhei para o papel na minha mão e depois para o meu marido, Pedro, que estava ao meu lado.
Ele tinha tipo de sangue O, tal como eu.
Isto significava que o Pedro não podia ser o pai biológico do nosso filho, Leo.
Senti um arrepio, e a minha mão que segurava o relatório começou a tremer.
O Pedro arrancou-me o relatório da mão, os seus olhos percorreram rapidamente as palavras, e o seu rosto ficou pálido.
"Impossível," ele murmurou, a sua voz era baixa e rouca. "Isto tem de ser um erro do hospital."
Ele olhou para mim, os seus olhos cheios de incredulidade e uma raiva crescente.
"Clara, explica-me isto. O que raio se passa?"
Antes que eu pudesse dizer uma palavra, a minha sogra, Helena, que estava sentada no corredor, correu para dentro. Ela tinha ouvido a comoção.
Ela agarrou no relatório, leu-o, e o seu rosto contorceu-se de fúria.
"Clara Costa! Eu sabia que não eras uma mulher decente! Como te atreves a trair o meu filho? Dás à luz um bastardo e tentas fazê-lo passar pelo nosso?"
A sua voz era estridente, atraindo a atenção de todos no corredor do hospital. As pessoas começaram a olhar e a cochichar.
Eu sentia-me completamente exposta, como se estivesse nua sob os seus olhares.
"Não, não é assim," tentei explicar, a minha voz a falhar. "Eu nunca traí o Pedro. Deve haver algum engano."
"Engano?" Helena riu-se, um som feio e cortante. "O relatório está preto no branco! Estás a dizer que o hospital mente? Ou estás a tentar enganar-nos a todos?"
O Pedro permaneceu em silêncio, o seu rosto uma máscara de dor e traição. Ele não olhava para mim, apenas para o chão.
O seu silêncio magoou-me mais do que os gritos da Helena.
"Pedro, por favor," supliquei, virando-me para ele. "Acredita em mim. Eu amo-te. Eu nunca faria uma coisa dessas."
Ele finalmente levantou a cabeça, mas os seus olhos estavam frios.
"Clara, como posso acreditar em ti? Os factos estão aqui mesmo."
Ele acenou com o relatório na sua mão, como se fosse uma sentença de morte.
"Vamos para casa," disse ele, a sua voz desprovida de qualquer emoção. "Precisamos de falar sobre o divórcio."
Divórcio. A palavra atingiu-me como uma onda de água gelada.
O nosso filho, Leo, tinha acabado de fazer um ano. Estávamos a planear a sua festa de aniversário. E agora, o Pedro queria o divórcio por causa de um relatório de ADN que eu não conseguia explicar.
Fomos para casa num silêncio pesado. Helena sentou-se no banco de trás, resmungando sobre como eu tinha desonrado a família Alves.
Eu olhava pela janela, as ruas de Lisboa passavam desfocadas. A minha mente corria, tentando encontrar uma explicação lógica.
Como era isto possível? Eu só tinha estado com o Pedro.
A única outra vez... não, não podia ser.
A lembrança de uma noite há quase dois anos surgiu, uma noite que eu tinha tentado arduamente esquecer. Uma festa de empresa, demasiado álcool, um quarto de hotel escuro.
Mas eu tinha a certeza de que nada tinha acontecido. O meu colega, o Tiago, levou-me para o quarto para eu descansar. Ele era um bom amigo.
Podia ter acontecido alguma coisa que eu não me lembrava?
Não. Eu recusava-me a acreditar nisso.
Assim que chegámos a casa, o Pedro foi direto para o seu escritório e fechou a porta.
Helena apontou-me um dedo ao rosto.
"Faz as tuas malas. Não quero uma mulher como tu debaixo do meu teto. E quanto a essa criança... ele não é um Alves. Leva-o contigo."
Ela virou-se e foi para a cozinha, batendo as panelas e frigideiras com raiva.
Fiquei parada no meio da sala de estar, sentindo-me perdida e sozinha. O meu filho, o meu pequeno Leo, dormia pacificamente no seu berço, inconsciente do terramoto que estava a destruir a sua família.
Eu tinha de lutar. Tinha de provar a minha inocência. Pelo meu filho, e pelo meu casamento.
Bati à porta do escritório.
"Pedro, abre a porta. Precisamos de falar."
Não houve resposta.
"Pedro, por favor! Há algo de errado aqui! Eu não te traí!"
A porta abriu-se de repente. O Pedro olhou para mim, os seus olhos vermelhos e inchados.
"Não há nada para falar, Clara. Amanhã, vamos a um advogado."
Ele tentou fechar a porta, mas eu pus o pé no caminho.
"Não! Não até me ouvires! Lembras-te daquela festa da empresa há dois anos? A noite em que bebi demais?"
O seu rosto endureceu.
"Lembro-me. O teu colega, o Tiago, levou-te para casa. O que tem isso?"
"Eu não me lembro de tudo claramente," admiti, a minha voz a tremer. "Mas eu sei que não aconteceu nada. Eu confio no Tiago."
O Pedro soltou uma gargalhada amarga.
"Confias nele? Clara, acabaste de me dar a prova de que precisava. Então foi com ele, não foi? O teu 'bom amigo' Tiago."
"Não! Não é isso que estou a dizer!"
"Então o que estás a dizer?" ele gritou, a sua voz a quebrar. "Que foste magicamente engravidada por outra pessoa? Para de mentir, Clara! Acabou."
Ele empurrou a porta com força, esmagando o meu pé. Gritei de dor, mas a dor no meu coração era muito pior.
Caí no chão, a chorar, enquanto ouvia o som da fechadura a trancar do outro lado.
Estava acabado. Ele não acreditava em mim. E eu não tinha como provar.
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