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Capa do romance Destiny

Destiny

Ashley Stephanie Mary Campbell Davenport sente que sua vida está completa e a felicidade é plena. Contudo, essa percepção é abalada quando ela é confrontada por lembranças e figuras de seu passado. Murilo Gouvêa Wilkinson, herdeiro de Beatriz e Flávio, também vê sua realidade se transformar drasticamente ao reencontrar Ashley, sua grande amiga de infância. Diante desse inesperado encontro orquestrado pelo destino, resta saber se o amor falará mais alto.
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Capítulo 3

Ashley caminha apressada até chegar a entrada da mansão elisabetana , sendo recepcionada pela governanta, Daisy,a governanta de mais de setenta anos que serve a família Campbell há pelo menos seis gerações.

— Bom dia, Lady Ashley de Argyll. – cumprimenta Daisy .

— Bom dia, Daisy – responde Ashley, desanimada. — Por favor, avise ao Carter que o meu carro estragou na rodovia, mas que já foi conduzido à oficina. Peça que ele compareça ao local e verifique as condições do veículo e quanto tempo levará para ficar pronto... – ela dá mais alguns passos e então pede — E que apronte o outro, pois tenho um compromisso mais tarde.

— Sinto informar, mas isso não será possível – alega Daisy — O Sr. Smith não faz mais parte do corpo de funcionários da residência, My Lady.

— Desde quando? – questiona Ashley , surpresa.

— A Duquesa de Argyll o dispensou há alguns dias... Da mesma forma fez com o outro carro.

— A Duquesa de Argyll já acordou? – pergunta Ashley irritada.

— Sua graça a espera na sala de música – responde a governanta, sem rodeios.

—E como ela está? – questiona a jovem retirando o casaco, nervosa.

—Melhor que os outros dias, madame – responde a senhora pegando o casaco das mãos da patroa. Ela então nota que o casaco não a pertence, encarando com curiosidade.

— Obrigada – agradece Ashley ignorando o olhar curioso da governanta.

Ela caminha pelos tapetes vinhos que ficam sobre o piso de madeira envernizado enquanto analisa os quadros dos condes, marqueses, e duques de Argyll pendurados no hall da escada e suas paredes de madeira , tentando captar das pinturas a óleo o pouco de coragem que lhe falta para encarar a duquesa, mesmo ciente de que ela está em seus melhores dias. Nota também novos espaços onde outrora haviam quadros de grandes artistas adquiridos pelos seus antecessores. Sobe escolhendo o lado direito da dupla escada que dá acesso a sala de música. Percorre o corredor com calma apreciando a música que vai aumentando de tom conforme ela se aproxima, pelo visto ela está feliz, pois raramente a escuta tocar o piano.

Empurra com certo esforço a porta de madeira branca, fazendo surgir a sala de música , com sua parede de vidraças empilhadas. Abundância de janelas até o teto permite que a luz natural domine todo o ambiente,uma das coisas favoritas da jovem naquela sala que ainda possui cabeças de animais nas paredes, algumas criaturas já extintas que foram caçadas ao longo das gerações. A sala ainda possui uma Harpa irlandesa de 36 cordas , um violoncelo feito de madeira Acero no fundo e nas laterais, tampo superior de Abeto e acessórios em Ébano, um violino Guarnieri del Gesu,, Oboé, Flauta de Pã e os outros onze tipos de flautas existentes no mundo, como a transversal e a doce, Cornamusa, vielas de arco e de roda, Alaúde,Percussão, Rabeca, Saltério e um piano C. Bechsteins Art case decorado com ouro, detalhes esculpidos à mão e pintura angelical feitas à mão na caixa do mesmo. Ashley aprendeu a tocar todos eles, mas são poucos o que de fato chegou apreciar.

Fecha a porta e caminha em direção da senhora de cabelos curtos e grisalhos pelo tempo, mas perfeitamente arrumados, vestido bege esparramado pelo assento de madeira, alheia a presença da jovem. Uma imagem que causava inveja a todos os quadros da casa. Suas mãos manicuradas percorrem o piano com leveza, finalizando a música. Essa era deixa para Ashley anunciar sua chegada à Duquesa de Argyll:

— Olá, vovó.

****

Stephanie Elizabeth Catherine Mary Campbell , Duquesa de Argyll , se levanta analisando a neta dos pés a cabeça, com certo desprezo ,pois Ashley está diante dela molhada dos pés a cabeça, cabelos desgrenhados e a roupa está longe de ser algo aceitável para ela. A jovem tenta se ajeitar ao notar o olhar de sua avó , mas sabe que nada fará sua presença ser mais tolerável.

— Como foi sua entrevista? – pergunta a duquesa, sem qualquer interesse.

— Eu me atrasei – responde Ashley, nervosa.

— Você e os seus atrasos – comenta Stephanie revirando os olhos e sentando novamente.

— Eu nunca me atraso... – reage Ashley, indignada.

— Pelo menos dessa vez, vejo um lado bom. – fala ignorando a indignação da neta.

— Lado bom? Que lado bom, vovó? Eu perdi uma grande oportunidade, não há lado bom.

— Claro que há. Eu vejo seu atraso como um sinal para você desistir dessa loucura de querer trabalhar...

— Lá vem a senhora com essa discussão novamente.

— Sim, até você entender que não é qualquer uma e que não precisa trabalhar. Uma Campbell, jamais deverá ser uma serviçal – dispara a duquesa ríspida.

— Eu também sou uma Davenport – defende-se a jovem.

— Não por escolha minha.

— Minha mãe trabalhava – argumenta Ashley, irritada.

— E onde ela está mesmo? – questiona Stephanie erguendo os braços ao redor.

—Não quero começar o dia discutindo com Vossa Graça a respeito dos meus pais – intervém Ashley estendendo sua mão espalmada em direção a avó. Ela respira fundo e continua — Eu vim aqui pra falar a respeito da demissão do Carter Smith e também saber por que vendeu o outro carro. Aliás, por que não me diz o que está acontecendo?

—Não está acontecendo nada – nega a duquesa tranquilamente.

—Como assim nada? Semana passada, a senhora demitiu um segurança, uma das nossas melhores cozinheiras , além do mordomo. Notei também que alguns quadros desapareceram... Então vou perguntar mais uma vez e espero que seja sincera: O que está acontecendo?

— E eu vou responder só uma vez: Esta casa é minha e não lhe devo satisfações. EU sou a duquesa e faço o que EU quiser com os MEUS criados e todos os MEUS bens.

—Obrigada por esclarecer o meu lugar nesta casa , madame – finaliza Ashley se inclinando levemente em direção a sua avó. Então caminha pisando duro em direção a porta.

— Não lhe dei permissão para sair – intervém Stephanie.

Ashley para diante da porta, sua vontade é de batê-la com toda violência e mostrar que o assunto estava encerrado. Aperta a maçaneta com toda a força e então a solta, se virando:

— O que mais temos para conversar, Your Grace?

— O vestido do seu casamento, querida – responde Stephanie, devagar.

— O que tem ele? – pergunta Ashley, cruzando os braços.

— Postura, Ashley – repreende a avó que se levanta e caminha em direção a neta. Segura os braços da jovem — Uma lady nunca cruza os braços.

— O que tem o vestido de casamento, vovó ? – reforça Ashley ajeitando a postura.

— Eu o encontrei – responde Stephanie com um leve sorriso.

— Onde ele está? – pergunta Ashley, curiosa.

— Agora, ele está no seu quarto.

****

Mangas em balão que vão até o pulso, saia rodada , renda renascença contornando o decote levemente em V, pérolas do corset até a saia e o brasão da família no busto. Ali estava o vestido feito de seda e tafetá usado pelas mulheres da família Campbell desde 1810. Ashley toca com cuidado no vestido que até o momento só o conhecia através das fotos espalhadas pela casa.

— Procuramos em todas as casas, mas eu sabia que ele estava guardado nesta casa – comenta Stephanie, orgulhosa.

— Até por que esta é a única casa que lhe restou – murmura Ashley soltando as mangas que deslizam de volta para perto do vestido. — É um belo vestido.

— O vestido da próxima duquesa – enfatiza sua avó que pega a caixa azul de cima da cama de Ashley, e entrega para a neta que abre deixando o colar de pérolas e a pulseira de diamantes pertencentes à família surgirem — Bem como as jóias.

— A senhora sabe que se eu casar com Darwin, não serei a Duquesa de Argyll. – explica Ashley fechando a caixa.

— Se? Você irá se casar com Darwin! – responde a duquesa, irritada pegando a caixa de volta. – Você será a próxima Duquesa de Norfolk... E se casará com o vestido da casa dos Campbell.

— Vovó, sei que a senhora teve um enorme trabalho em encontrar o vestido, mas eu e Darwin andamos conversando e achamos melhor que eu não usasse o vestido de nossa família... Ou melhor, nenhuma das duas famílias.

— Como assim?– questiona Stephanie , horrorizada com as palavras de sua neta. —Por que não?

— Porque a senhora sabe a posição delicada em que Darwin se encontra agora. Qualquer passo que dermos será prejudicial para ele, ainda mais por conta do partido que ele representa.

— Progresso, mudança , desenvolvimento, crescimento, evolução... Eu sei bem do que ele está falando. Mas , a tradição vem antes de qualquer coisa. Nosso país é feito de tradição e isso é o que o torna forte, estável e memorável. – argumenta Stephanie ,encarando a neta —É isso que você irá enfiar na cabeça do seu futuro marido quando falar para ele que irá usar o vestido de nossa família. Precisa lembrá-lo porque o partido o indicou para a candidatura. Estamos entendidas?

— Vovó,eu não sei se ele aceitará – responde Ashley.

— Então faça com que aceite – rebate a avó tocando no queixo da neta — Você é uma Campbell , antes de qualquer coisa.

— Tudo bem , vovó. Eu falarei com ele, quando surgir a oportunidade hoje no jantar que oficializará sua candidatura – concorda Ashley retirando a mão de sua avó.

— Ótimo. – solta Stephanie com um sorriso de satisfação —É uma pena que eu já tenha um compromisso inadiável hoje. Porém, tenho plena certeza de que Daisy não se importará de acompanhá-la.

— Não será necessário, sei me virar sozinha, vovó.– informa Ashley.— Além do fato os pais dele também estarão presentes.

— Tudo bem, mas esteja em casa antes da meia noite – determina Stephanie.

— Vovó, nós estamos no século 21, meu carro não irá se tornar uma abóbora – zomba Ashley.

— Eu sei, mas eu não quero que fique até mais tarde na casa dele e depois saiam falando ao seu respeito. Para todos os efeitos, vocês dois são imaculados.

— Pode deixar , vovó. Até por que Darwin cumpre muito bem seu papel de cavalheiro. Então se tem uma coisa que eu ainda sou... É imaculada.

— É assim que uma lady deve agir. – afirma Stephanie.

— Tudo bem, vovó. Agora , por favor, pode me deixar descansar? Tive uma manhã difícil e agora tudo o que eu mais quero é um bom banho. – finaliza indicando para a porta. — Tenho que estar descansada para o evento de hoje à noite.

— Pedirei a Daisy para vir buscar o vestido– comenta a duquesa caminhando até a porta.

— Não precisa... Quero apreciá-lo mais um pouco – responde Ashley admirando o vestido mais uma vez.

A resposta vem com a porta se fechando, finalmente Ashley pode respirar fundo. Ela vai para perto da sua cama, abaixa e vasculha embaixo até encontrar seu sketchbook, um caderno com páginas sem pauta, frequentemente usado por Ashley para desenho até algumas pinturas, como parte do seu processo criativo até finalmente passar para a tela.

Algo que raramente acontecia, pois aquilo era apenas um hobby adquirido durante seu internato, como válvula de escape. Tinha vários rascunhos com retratos, cenários e o cotidiano do colégio. Em algum momento, a jovem pensou em tornar seu hobby uma profissão, mas não foi incentivada pela a duquesa , bem como a faculdade, mas sua avó acabou cedendo pelo último.

Ashley pega seu estojo e retira seu carvão em pau, afia com a navalha , se ajeita na cama e então começa a plasmar a atmosfera , a luz e outros componentes ao redor do vestido que está apenas com leves traços. De início, idealiza fazer todo o vestido, mas então surge uma nova ideia: fazer mais um retrato. Ela abandona o esboço e então decide usar a barra de carvão na página nova.

Analisa com cuidado, até que aos poucos os seus traços fluem no papel, combinando com o lápis grafite, dando valores tonais de claro e escuro para compor os detalhes do vestido a sua frente. Os traços variados estão ricos em efeitos, se transformando aos poucos em braços que se posicionam no colo do vestido, busto , os cabelos soltos com a fluidez de um véu. Os olhos são um desafio para a loira que toma o dobro de cuidado para que fique o mais próximo da realidade, bem como o nariz, boca, queixo. O rosto fica cada vez mais familiar, o que deixa Ashley satisfeita. Ajeita os últimos detalhes com a borracha pão, o pano de camurça e até sua própria mão.

Levanta o caderno e passa a camada de spray para fixar o retrato da única mulher que não usou o tradicional vestido dos Campbell: Janet Leonor Dorothy Campbell Davenport, sua mãe.

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