
Destino Quebrado, Coração Renovado
Capítulo 3
Eu mantive os olhos fechados, regulando minha respiração para parecer que ainda estava profundamente adormecida. O som dos passos de Miguel pelo quarto era o único barulho, um ritmo medido que me causava arrepios. Ele achava que tinha vencido, que seu plano era infalível.
A porta se abriu novamente e a voz do médico soou, cautelosa.
"Sr. Miguel, sua esposa sofreu múltiplas fraturas na perna esquerda e uma concussão. Ela precisa ficar em observação e, assim que estiver estável, precisará de cirurgia na perna."
"Cirurgia?", a voz de Miguel era cortante. "Não. Eu vou transferi-la para uma clínica particular. Os médicos da minha família cuidarão dela."
"Mas senhor, não é aconselhável movê-la agora," o médico insistiu. "O transporte pode agravar as lesões. Os especialistas aqui são excelentes..."
"Eu não me importo com a sua opinião," Miguel o interrompeu, a arrogância pingando de cada sílaba. "Prepare os papéis da transferência. Agora."
Ouvi o médico suspirar, derrotado. Ele sabia que não podia discutir. Os ricos sempre conseguiam o que queriam. Ouvi seus passos se retirando e a porta se fechando mais uma vez.
Miguel se aproximou da cama. Senti sua presença pairando sobre mim, seu hálito com cheiro de café caro e mentira.
"Ah, minha querida Sofia," ele sussurrou, e eu senti seus dedos frios tocarem meu rosto. Tive que usar toda a minha força de vontade para não recuar. "Você não sabe o favor que me fez. Esse acidente... foi uma tragédia, claro. Perder nosso Pedrinho... meu coração está partido."
A ironia era tão venenosa que quase me engasgou. Ele acariciou minha bochecha com uma ternura falsa que me revirou o estômago.
"Mas agora, poderemos recomeçar. Só nós dois. Sem distrações. Você vai se recuperar, e nós vamos viajar, como sempre quisemos. Vamos para a Grécia. Você se lembra?"
Ele estava falando da viagem que eu sonhava em fazer, a viagem que ele sempre adiava por causa de "reuniões importantes". A mesma desculpa que ele usou enquanto nosso filho morria.
A porta se abriu de novo, mas desta vez os passos eram mais leves, acompanhados de um perfume floral enjoativo.
"Ela ainda está apagada?", uma voz feminina e afetada perguntou.
Clara. A amante. O "meu amor" do telefonema.
"Sim. A coitadinha está exausta," disse Miguel, seu tom mudando para um de falsa compaixão. "Clara, meu amor, que bom que você veio."
Senti o colchão afundar do outro lado da cama. Eles achavam que eu era um objeto inanimado, um obstáculo temporário em seu caminho para a felicidade.
"E o garoto?", ela perguntou, sem rodeios.
"Já foi. Tudo conforme o plano," respondeu Miguel. "Agora só precisamos cuidar dela. O médico queria operá-la aqui, mas eu já arrumei a transferência para a clínica do Dr. Alves. Lá, teremos controle total."
"Bom," disse Clara. "E os papéis da empresa? Ela precisa assinar logo, antes que algum advogado da família do velho apareça."
"Eu sei. Vou dizer que é para resolver o funeral do pai dela e do Pedro. Com a dor, ela nem vai ler o que está assinando. Vai confiar em mim," ele disse, com uma risada baixa e presunçosa.
Confiar nele. A palavra era uma piada de mau gosto.
"Mas e se ela demorar a acordar? Ou se ela se lembrar de algo?", a voz de Clara tinha um tom de ansiedade.
"Não se preocupe," disse Miguel. "Eu tenho uma coisinha para garantir que ela fique... calma e cooperativa por um tempo."
Ouvi o som de algo sendo desembrulhado, um plástico farfalhando.
"O que é isso?", perguntou Clara.
"Um sedativo forte. O Dr. Alves me deu. Uma pequena dose no soro dela vai mantê-la grogue, confusa. Fácil de manipular. Quando ela acordar, não vai se lembrar de nada direito, vai pensar que é efeito dos analgésicos."
Não. Eles tidak podiam fazer isso. Se eu ficasse sedada, não conseguiria pensar, não conseguiria planejar minha fuga, minha vingança. O pânico começou a borbulhar sob a minha fachada de inconsciência.
"Dê aqui," disse Clara, sua voz cheia de uma crueldade casual. "Deixa que eu faço. Tenho mais prática com agulhas."
Senti o toque frio dos dedos dela no meu braço, perto da entrada do cateter do soro. Meu corpo inteiro se enrijeceu. Eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa.
"Espere," a voz do médico soou da porta, surpreendendo a todos nós. "O que vocês estão fazendo?"
Miguel se virou rapidamente. "Doutor? Pensei que tinha mandado você preparar os papéis."
"Eu preparei, mas a enfermeira me alertou que a senhora aqui," a voz de Clara era puro veneno, "é uma amiga da família e queria ajudar a trocar o soro."
"Isso é medicação particular. Não é da sua conta," rosnou Miguel.
"Tudo que é administrado a um paciente neste hospital é da minha conta," o médico respondeu, sua voz firme. "E eu não autorizei nenhum sedativo adicional. A Sra. Sofia já está com a medicação necessária para a dor. Mais que isso pode ser perigoso."
"Perigoso?", Miguel riu. "Não seja ridículo. Eu sou o marido dela. Eu sei o que é melhor para ela."
Ele se aproximou do médico, sua voz baixando para um tom ameaçador. "Agora, se você não quer ter problemas na sua carreira, sugiro que você volte para a sua sala e esqueça o que viu aqui. Entendido?"
Houve um momento de silêncio tenso. Eu podia sentir a luta interna do médico, sua ética contra o medo. Por fim, ouvi seus passos hesitantes se afastando. Ele tinha desistido. Eu estava sozinha.
Miguel voltou para a cama.
"Idiota intrometido," ele murmurou.
"Anda logo com isso, Miguel," apressou Clara. "Vamos sair deste lugar fedorento."
Senti a agulha perfurar a borracha do meu acesso venoso. Um líquido gelado começou a se espalhar pela minha veia, uma sensação estranha e pesada. O pânico deu lugar a uma clareza desesperada. Eles estavam me drogando.
Eu precisava lutar.
Mas meu corpo não me obedecia. A escuridão nas bordas da minha consciência começou a avançar, espessa e pegajosa. A última coisa que senti foi a mão de Clara dando um tapinha condescendente no meu braço.
"Durma bem, querida," ela sussurrou. "Quando você acordar, o mundo será um lugar muito, muito diferente."
A escuridão me engoliu por completo, e a dor, o ódio e o medo se dissolveram em um nada absoluto.
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