
Destino e a Dança da Vingança
Capítulo 3
Pedro, recuperando a sua compostura, decidiu levar a humilhação a um novo nível, ele aproximou-se dela, o seu olhar era condescendente, como se estivesse a falar com uma criança.
"Olha, Sofia, eu sei que as coisas devem ter sido difíceis para ti", começou ele, a sua voz cheia de uma falsa piedade que a fez sentir o estômago a revirar. "Eu tornei-me bastante bem-sucedido, como podes ver, e a Camila tem estado ao meu lado, ajudando-me a construir o meu império."
Ele fez uma pausa, saboreando o momento.
"Que tal isto? Eu posso oferecer-te um emprego, podes fazer umas bainhas, umas pequenas reparações na minha empresa, eu pago-te um salário mínimo, claro, seria uma forma de caridade, para te ajudar a reergueres-te."
A oferta era um insulto tão grande, tão descarado, que Sofia ficou momentaneamente sem palavras, ele não estava a oferecer ajuda, estava a afirmar o seu poder, a tentar reduzi-la a uma mendiga à sua mercê.
Camila riu-se e passou os braços pelo pescoço de Pedro, beijando-o deliberadamente na frente de Sofia, um beijo longo, possessivo.
"És tão generoso, meu amor", disse ela, olhando para Sofia por cima do ombro de Pedro. "Mas tens a certeza de que ela é competente o suficiente? Não queremos que ela estrague nenhum tecido caro."
A visão deles juntos, a forma como a tocava, a intimidade forçada e exibida para a magoar, trouxe de volta uma onda de memórias que ela tinha lutado tanto para enterrar.
Ela lembrou-se do dia seguinte ao casamento que não aconteceu, Pedro apareceu à sua porta, os olhos vazios, a expressão confusa, ele disse que tinha tido um acidente de carro na noite anterior, que tinha batido com a cabeça, ele não se lembrava de nada, não se lembrava de a ter deixado no altar.
"Amnésia", disseram os médicos, influenciados pelo dinheiro da família de Pedro.
Ela acreditou, ela cuidou dele, perdoou-o, amou-o através da sua suposta confusão, até que um dia, ela foi visitá-lo de surpresa e encontrou-o no jardim com Camila.
A porta de vidro estava entreaberta e ela ouviu as suas vozes, claras como o dia.
"Até quando vais continuar com esta farsa da amnésia, Pedro?", perguntou Camila, a sua voz impaciente. "Já a humilhaste, já te livraste dela, agora tens de te concentrar nos negócios, em nós."
Pedro suspirou, um som cansado.
"Eu sei, Cami, mas é a forma mais fácil, se eu simplesmente a tivesse deixado, ela faria um escândalo, assim, ela pensa que sou uma vítima, é mais limpo."
"Limpo?", Camila riu. "Tu és um génio, meu primo, um génio cruel, mas um génio, agora vem cá, temos coisas mais importantes para celebrar."
A verdade atingiu Sofia como uma parede de tijolos, não tinha havido acidente, não havia amnésia, era tudo uma mentira, um plano cruel orquestrado por eles para a destruir da forma mais humilhante possível.
O som das suas risadas naquele jardim ecoou na sua mente, misturando-se com as risadas dos convidados no salão de baile, a dor daquela traição, a profundidade da sua crueldade, voltou com uma força avassaladora.
O seu corpo inteiro tremeu, o salão começou a girar, as luzes brilhantes tornaram-se pontos desfocados, ela sentiu uma náusea súbita, o peso de anos de dor reprimida a esmagá-la de uma só vez.
Ela não disse mais uma palavra, simplesmente virou-se e caminhou, ou melhor, tropeçou, para a saída mais próxima, empurrando as pessoas para fora do seu caminho, a sua única necessidade era respirar, fugir daquele ar sufocante, daquelas memórias, daquelas pessoas.
Lá fora, o ar frio da noite atingiu o seu rosto, mas não trouxe alívio, as lágrimas que ela segurou por tanto tempo finalmente caíram, quentes e amargas, ela encostou-se a uma parede, o corpo a tremer incontrolavelmente.
Foi assim que a sua família a encontrou minutos depois, num estado de colapso, eles não fizeram perguntas, apenas a abraçaram e a levaram para longe, para longe da cidade, para longe da dor, para um lugar onde ela pudesse começar a juntar os pedaços de si mesma.
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