
Desacorrentado de um Casamento Tóxico
Capítulo 3
A cidade zumbia ao meu redor, mas tudo que eu ouvia era a batida frenética do meu coração. O táxi acelerava pelas ruas caóticas de São Paulo, cada sinal vermelho um atraso doloroso. Minha mãe. Sua vida frágil, agora pendurada pelo mais fino dos fios. Era minha culpa. Tudo culpa minha. Se eu tivesse apenas engolido meu orgulho, se eu tivesse apenas suportado a humilhação de Donato, ela poderia ter tido uma chance.
Entrei de rompante no silêncio estéril da UTI, o cheiro antisséptico ardendo em minhas narinas. Minha mãe jazia na cama, uma sombra pálida e frágil sob um emaranhado de fios e tubos. Seus olhos estavam fechados, sua respiração superficial e irregular. Meus joelhos cederam.
"Mãe", sussurrei, minha voz embargada por lágrimas não derramadas, enquanto tocava gentilmente sua mão, fria e sem resposta. "Sinto muito. Sinto muito, muito mesmo."
Suas pálpebras se abriram, seu olhar desfocado, depois lentamente se fixou em meu rosto. Um sorriso fraco e débil tocou seus lábios.
"Ava, minha filha", ela sussurrou, sua voz quase inaudível. "Não... não lute mais com eles. Não vale a pena, querida."
Suas palavras, um apelo altruísta mesmo em seus momentos finais, torceram a faca em meu coração. Ela sempre odiou o espetáculo público do meu casamento. Ela sempre quis apenas que eu fosse feliz, que fosse livre.
Lembrei-me de um tempo, não muito tempo atrás, quando Donato costumava visitá-la regularmente, trazendo-lhe flores, chocolates caros. Ele se sentava ao lado de sua cama, encantando-a com histórias, fazendo-a rir. Ele tinha sido um genro amoroso, ou pelo menos, ele havia desempenhado o papel lindamente. Ele até mesmo criou um fundo privado para seus cuidados médicos, garantindo que ela recebesse o melhor de tudo. Esse era o Donato que eu amei, o homem a quem me agarrei, desesperada por seu afeto. Para onde aquele homem tinha ido?
Meus pensamentos foram abruptamente interrompidos por uma enfermeira, seu rosto sombrio.
"Sra. Alencar, precisamos discutir as contas médicas pendentes de sua mãe. Os pagamentos da conta do Sr. Alencar foram interrompidos na semana passada."
Meu sangue gelou. Interrompidos. Exatamente como Donato havia ameaçado. Ele não tinha apenas cortado meu acesso. Ele havia cortado o suporte de vida da minha mãe, financeiramente falando. A raiva, aguda e fria, perfurou minha tristeza.
Confrontei Donato no momento em que o encontrei. Ele estava em sua cobertura, rindo à vontade com Yasmin, uma imagem de felicidade doméstica.
"Donato!", gritei, minha voz rouca de dor e fúria. "Como você pôde? Você cortou os fundos médicos dela! Minha mãe está morrendo!"
Sua risada morreu, substituída por um escárnio.
"Oh, então agora você está recorrendo ao melodrama, Ava? E a ataques online? Yasmin tem recebido mensagens maldosas o dia todo, acusando-a de ser uma 'destruidora de lares' e uma 'interesseira'. Imagino quem colocou essas ideias na cabeça das pessoas." Ele me encarou com uma acusação gélida.
Yasmin, sempre a atriz, desabou em lágrimas, agarrando o braço de Donato.
"Tem sido horrível, Donato. As pessoas estão dizendo as coisas mais terríveis. E agora, isso, dela. É demais." Ela enterrou o rosto no peito dele, seus soluços ecoando na opulenta sala de estar.
O rosto de Donato se contorceu de raiva. Ele me fuzilou com os olhos, que ardiam.
"Olha o que você fez, Ava! Fazendo Yasmin chorar? Depois de tudo? Que tipo de monstro você é?"
"Monstro?", gritei, uma risada histérica borbulhando. "Eu sou o monstro? Você está deixando minha mãe morrer! Você cortou os fundos dela!"
"Talvez", disse Donato, sua voz perigosamente baixa, "você devesse pedir desculpas a Yasmin. Pela sua campanha maliciosa online. E por perturbar nossa paz."
Ele estava me pedindo para pedir desculpas à mesma pessoa que estava contribuindo diretamente para a morte da minha mãe.
O absurdo de tudo, a pura audácia, me deixou entorpecida.
"Pedir desculpas?", repeti, a palavra com gosto de bile. "Você quer que eu peça desculpas a ela? Pela sua traição? Pelo fato de você estar matando minha mãe?" Minha voz subiu, rachando de desespero. "Não. Eu não vou. Este... este casamento acabou. Eu quero uma separação judicial. Agora."
Donato congelou, seu braço ainda em volta de Yasmin. Um lampejo de choque genuíno cruzou seu rosto, uma rachadura momentânea em sua fachada cuidadosamente construída de indiferença. Ele não esperava aquelas palavras.
Mas Yasmin, rápida como uma víbora, se recuperou. Ela se afastou de Donato, seus olhos arregalados com angústia fingida.
"Oh, Donato, não! Não a escute. Ela está apenas atacando porque está chateada. Vocês dois pertencem um ao outro! Não deixe que ela destrua sua linda família." Suas palavras eram uma tentativa calculada de manter sua posição, de manter a dinâmica tóxica viva.
Os olhares de pena e nojo dos funcionários da casa de Donato, que se reuniram a uma distância discreta, queimaram em mim. Eles me viam como a esposa louca e ciumenta, ainda agarrada a um casamento morto.
Donato, mais uma vez, escolheu Yasmin. Ele acariciou o cabelo dela, seus olhos cheios de segurança, depois voltou seu olhar endurecido para mim.
"Uma separação judicial, Ava? Qual é o seu jogo? Você está tentando tirar mais dinheiro de mim? É disso que se trata?"
"É sobre minha mãe, Donato!", gritei, minha voz rouca. "Ela tem dias, talvez horas! E é porque você cortou os fundos médicos dela!"
Sua mandíbula se contraiu.
"Se você quer que os fundos sejam restabelecidos", disse ele, sua voz fria e monótona, "há um preço. Você fará uma declaração pública. Reconhecerá seu assédio online a Yasmin. Pedirá desculpas por seu comportamento errático do passado. E fará isso diante das câmeras, para a mídia."
Ele estava pedindo uma confissão pública de culpa, uma obliteração completa do meu caráter.
Minha mente girou. Lembrei-me de seus votos, sussurrados no dia do nosso casamento. "Prometo te valorizar, te proteger, te amar na saúde e na doença." Mentiras. Todas elas. Ele era um monstro, envolto em ternos caros e sorrisos encantadores.
Meus joelhos tremeram. Minha mãe. Seu rosto, gravado com dor. A imagem era um motivador poderoso, superando cada pingo de dignidade que me restava. O que era meu orgulho comparado à vida dela?
"Eu... eu farei isso", engasguei, as palavras com gosto de veneno. "Mas você restabelece os fundos. Imediatamente."
Os olhos de Yasmin brilharam com triunfo malicioso.
"E, Donato", ela interveio, sua voz doce, mas firme, "acho que a Sra. Alencar deveria usar aquele vestido horrível que ela usou no baile de caridade. Aquele que a fez parecer tão... desesperada. E ela deveria desabar em lágrimas. Para uma sinceridade verdadeira."
Ela estava pintando o quadro da minha completa e total humilhação.
Donato realmente sorriu. Um sorriso lento e cruel.
"Excelente ideia, Yaz. Sim, Ava. Aquele vestido verde-esmeralda medonho. E certifique-se de que essas lágrimas sejam reais."
Ele estava gostando disso. Ele estava se deleitando com minha destruição.
Meu coração se partiu em um milhão de pedaços. O homem que eu amei, o homem por quem lutei, era capaz de uma crueldade tão inimaginável. Ele sentia prazer na minha dor.
Naquele momento, meu telefone tocou novamente. Era o hospital. A voz da Dra. Ramos, tensa e urgente, cortou o barulho.
"Sra. Alencar, a condição de sua mãe piorou. Estamos perdendo-a. Precisamos realizar uma cirurgia de emergência, mas sem os fundos imediatos..." Sua voz sumiu, a implicação clara.
Os olhos de Donato encontraram os meus, frios e insensíveis.
"Bem, Ava?", disse ele, sua voz um sussurro arrepiante. "A vida de sua mãe. Sua escolha. O quanto você quer que ela viva?"
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