
Depois do Adeus
Capítulo 3
🛵
Amélia Duarte
O terceiro dia foi o mais difícil.
Não porque a dor tivesse aumentado - mas porque eu já não tinha forças pra fingir que ela passaria logo.
Chorei.
Chorei como no primeiro dia, quando decidi ir embora.
Chorei como no segundo, tentando convencer meu coração de que era o certo.
E chorei agora, no terceiro, porque entendi que o amor, quando não é leve, deixa feridas que não cicatrizam da noite pro dia.
Hoje era domingo. O dia em que eu buscaria o que restava da minha vida - minhas roupas, meus objetos, pedaços de lembranças e tudo o que sobrou da mulher que fui ao lado dele.
O dia em que eu precisaria ser mais forte do que a saudade, mais firme do que o medo.
O dia de me reerguer.
Clara e Rebeca estavam comigo desde cedo.
Clara, minha prima, sempre prática, dirigia o carro com o rosto sério e decidido, como se quisesse absorver a minha dor pra que eu não sentisse tanto.
Rebeca, minha amiga desde os tempos de escola, estava encostada na porta, mexendo no celular e tentando me distrair com piadas bobas.
Mas nada realmente distraía. A mente da gente tem o péssimo hábito de voltar exatamente onde mais dói.
- Tem certeza que quer fazer isso hoje, Amé? - perguntou Clara, virando o rosto pra mim.
Assenti devagar.
- Se eu adiar, vou acabar voltando atrás. E eu não quero mais viver assim.
Rebeca suspirou, apoiando a cabeça no banco.
- A gente vai com você até o fim, tá? Se ele tentar falar algo, eu juro que desço do carro e mostro pra ele o significado de "respeita o espaço da mulher".
Apesar da dor, sorri fraco.
- Não precisa brigar, Beca. Eu só quero paz.
Ela bufou. - Paz é o mínimo que ele devia te dar.
A viagem até a casa dos pais dele foi silenciosa. O som do motor parecia acompanhar o ritmo lento do meu coração. Pela janela, vi as ruas que percorri tantas vezes de mãos dadas com ele - o mercadinho onde comprávamos pão, a esquina onde ele me esperava de moto, o parquinho onde rimos no nosso primeiro encontro.
Tudo agora parecia um cemitério de lembranças.
Quando chegamos, o ar ficou pesado. O portão estava aberto, e a casa - a mesma onde vivi os últimos cinco anos - parecia menor, mais fria, como se já não me pertencesse.
- Quer que a gente entre com você? - perguntou Clara.
Balancei a cabeça.
- Ainda não. Se eu cair, vocês me seguram, tá?
Ela assentiu e desligou o carro.
Desci com passos hesitantes. O barulho do cascalho sob meus pés ecoava alto demais.
Respirei fundo antes de bater na porta.
Mas eu nem precisei.
A porta se abriu.
E ele estava lá.
Caio.
Os olhos fundos, o cabelo bagunçado, a barba por fazer.
Aquela imagem - tão familiar e tão distante - fez meu coração disparar por reflexo, mas logo o medo e o instinto de autoproteção falaram mais alto.
- Amélia... - ele disse num sussurro. - Amor, por favor...
Senti as mãos dele tocarem as minhas, quentes, trêmulas, desesperadas.
Mas eu me desvencilhei.
- Caio, não faz isso. - minha voz saiu fraca, mas firme. - Não insista. Eu não tô fazendo bem pra você, e você não tá fazendo bem pra mim.
Ele mordeu o lábio inferior, os olhos marejados.
- E o nosso filho?
O ar sumiu dos meus pulmões.
Senti o chão girar por um instante.
A ferida mais profunda, ele sabia exatamente onde estava.
- Caio, não toca nesse assunto... - pedi num sussurro, desviando o olhar. - Você sabe como me dói.
Ele deu um passo à frente, e as palavras saíram em desespero:
- Nós demos frutos, Amélia! Como você pode simplesmente ir embora?
As lágrimas caíram antes que eu pudesse conter.
- E o nosso fruto não está aqui. - minha voz tremia. - Não tenho nada que me prenda a você. Deus levou o nosso filho pra que eu pudesse ter uma chance de recomeçar longe de você.
Ele recuou, atordoado, como se cada palavra fosse um golpe.
- Não diz isso... - murmurou. - Você não pode dizer isso.
- Posso, Caio. - respirei fundo, limpando as lágrimas. - Eu te amo. E provavelmente vou te amar por muito tempo. Mas esse amor... ele tá me matando aos poucos.
As mãos dele tremiam. Ele tentou me tocar novamente, e eu dei um passo atrás.
- Por favor - continuei. - Não usa a memória do nosso filho em vão. Não transforma a dor que a gente passou numa moeda de troca pra eu continuar aqui. A perda dele já foi mais do que eu podia suportar.
Por um instante, o silêncio nos envolveu.
O vento balançou a cortina da janela, e eu ouvi o som distante de Clara chamando meu nome.
Ele abaixou a cabeça.
- Eu não sei viver sem você.
- Aprende. - sussurrei. - Eu também vou precisar aprender.
Dei as costas e caminhei até o carro.
Cada passo parecia uma despedida de tudo o que eu fui.
Clara e Rebeca me esperavam de portas abertas.
Rebeca levantou imediatamente, avaliando a expressão dele de longe.
- Ele tentou te tocar? - perguntou, em voz baixa, mas carregada de raiva.
- Tentou... - murmurei. - Mas eu consegui dizer tudo que precisava.
Clara segurou minha mão e me puxou pra dentro do carro.
- Então bora. O que ficou pra trás não te pertence mais.
Assenti, engolindo o choro.
Olhei pela janela enquanto nos afastávamos.
Caio ainda estava lá, parado no portão, me observando ir embora como quem assiste a própria vida se desmanchar.
E talvez fosse exatamente isso que estava acontecendo - com ele, e comigo também.
---
O caminho de volta foi silencioso.
O rádio tocava uma música lenta, e eu me peguei olhando o céu, tentando entender onde Deus se encaixava em tudo aquilo.
Talvez Ele tivesse me poupado.
Talvez tivesse me arrancado daquele lugar pra que eu pudesse renascer.
Clara quebrou o silêncio.
- Você quer passar na loja amanhã? O gerente ligou perguntando se você tá bem.
Assenti.
- Quero. Preciso voltar à rotina. Se eu ficar parada, eu desabo.
- É isso aí - disse Rebeca, mexendo no espelho retrovisor. - Você vai recomeçar, Amé. E dessa vez vai ser por você, não por ele.
Sorri de leve.
- É o que eu quero. Recomeçar por mim.
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Chegamos na casa de Clara pouco antes do entardecer.
Ela me ajudou a descarregar as malas, enquanto Rebeca fazia café na cozinha.
O cheiro me trouxe lembranças boas - aquelas de antes de tudo desandar, quando eu e Caio ainda éramos dois adolescentes rindo à toa, sem saber o peso que o amor podia ter.
Depois que elas foram dormir, fiquei sozinha na sala.
A luz do abajur iluminava metade do sofá, e o silêncio da casa parecia gritar os meus pensamentos.
Peguei o celular e abri a galeria. As fotos ainda estavam lá - sorrisos, viagens, datas, promessas. Tudo congelado num tempo que já não existia.
Apaguei uma por uma.
Cada toque na tela era uma facada e, ao mesmo tempo, um alívio.
Quando a última imagem sumiu, o coração apertou.
Mas logo senti algo diferente - um espaço, um respiro.
Um começo.
Fui até a janela e olhei o céu estrelado.
As lágrimas vieram de novo, mas dessa vez não doíam tanto.
Senti que, em algum lugar, o meu filho estava olhando por mim.
- Eu vou ser forte, meu amor - sussurrei. - Por mim. Por você.
E ali, sozinha, entre o silêncio e as lembranças, percebi que talvez o "adeus" não fosse o fim.
Talvez fosse só o início de uma nova chance de viver.
{...}
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