
Depois da Tempestade: A Ascensão Inesperada
Capítulo 2
O meu carro capotou na A5, a caminho de Cascais.
A chuva caía tão forte que os limpa-para-brisas não conseguiam dar conta do recado.
O metal rangeu, o vidro partiu-se em mil pedaços.
Fiquei pendurada de cabeça para baixo, presa pelo cinto de segurança.
Uma dor aguda e lancinante atravessou a minha barriga.
O meu bebé.
Com as mãos a tremer, agarrei no telemóvel. O ecrã estava estalado, mas ainda funcionava.
Liguei ao meu marido, Tiago.
A chamada foi direta para a caixa de correio.
"Por favor, atende", murmurei para o ar húmido e com cheiro a queimado.
Liguei outra vez. E outra. E mais uma.
Na décima tentativa, ele atendeu. A sua voz soava distante, aborrecida.
"Sofia? O que foi? Estou ocupado."
"Tiago, eu tive um acidente. O carro... capotou. Preciso de ajuda."
A minha voz era um fio, quase inaudível por causa da minha própria respiração ofegante.
Houve uma pausa do outro lado.
Consegui ouvir uma voz de mulher ao fundo, a rir-se de qualquer coisa.
Era a Catarina. A melhor amiga dele.
"Um acidente? Estás bem?", perguntou ele, mas o tom era de obrigação, não de preocupação.
"Não sei. Dói-me muito a barriga. Tiago, o bebé..."
"Ouve, a Catarina torceu o pé a sair do carro e o cão dela, o Max, está a passar mal com os trovões. Estou a tratar deles, não posso sair agora."
A voz da Catarina ficou mais perto do telefone, melosa e fraca.
"Tiago, querido, diz à Sofia que lamento, mas preciso mesmo de ti aqui. Se não fosses tu, nem sei o que seria de mim e do Max."
Ele não estava a tratar deles. Ele estava com ela.
O meu mundo parou de girar. O carro já estava parado, mas foi a minha alma que se imobilizou.
"Onde é que estás?", perguntei, com uma calma que me assustou.
"Estou em casa da Catarina, em Sintra. Olha, liga para o 112, eles resolvem isso. Tenho de ir, o Max está a vomitar outra vez."
Sintra.
Eu estava na A5, a caminho de nossa casa, em Cascais. Sintra era na direção completamente oposta.
"Tiago", disse eu, a voz a sair-me como um arranhar de unhas em ardósia. "Vamos divorciar-nos."
Ele riu-se. Uma risada curta e sem alegria.
"Deixa de ser dramática, Sofia. Estás grávida, as hormonas deixam-te assim. Falamos quando estiveres mais calma."
Ele desligou.
Olhei para o telemóvel na minha mão. Tentei ligar de volta.
O número estava bloqueado.
A dor na minha barriga intensificou-se, uma onda de fogo que me roubou o ar.
Depois, tudo ficou escuro.
Você pode gostar





