
Deixe-Me Te Amar
Capítulo 2
Embora eu esteja cada vez mais inclinada a chutá-lo para
escanteio, confesso que o processo é lento. Meu namorado parece uma versão mal-acabada de uma planta: não sai de casa, não me leva a lugar algum e trata um convite para o cinema como se fosse uma missão de resgate.
E eu? Estou ficando exausta de carregar sozinha o papel de protagonista nesse relacionamento.
Ah, finais de semana, como amo! Meu momento sagrado para renovar as energias depois de uma semana repleta de faculdade, estágio e minha mãe no meu pé. Afinal, ainda sou jovem e, claro, não vou desperdiçar meus preciosos anos ouvindo sermões ou esperando que ele se anime a dar um passeio na esquina!
Enquanto isso, ele passa o dia em casa, feito uma samambaia, só precisando de água e sombra.
Em breve, vai ser só mais um número nas estatísticas dos relacionamentos de três meses. Sempre o mesmo ciclo: ou encontro alguém que não quer sair nem do sofá, ou outro que quer ser o dono da minha vida.
Detalhe, nem minha mãe consegue controlar! Imagine um namorado…
Falando na minha mãe, lá vem ela me chamar, do nada:
— Lara, você vai continuar com aquele morto-vivo? Jura? Ele não faz nada além de esquentar o sofá. Não entendo como você consegue!
Saio de casa deixando-a lá, falando sozinha, antes que eu mesma me irrite. Às vezes, tenho certeza de que fui trocada na maternidade. Por que mais eu estaria numa família onde o senso de humor se perdeu na curva da evolução?
Naquele mesmo dia, decidi dar um fim àquele “relacionamento” com o André se é que podemos chamar de relacionamento.
E o mais difícil de todo o processo foi ouvir dele que eu sou a perdedora e que ele tem "várias" opções.
Várias opções? Achei que ia cair dura de tanto rir!
Larguei o coitado lá, na frente de todo mundo, e segui minha vida.
Sabe de uma coisa?
Aquela gargalhada foi a melhor decisão que já tomei. Agora, ele é apenas um item descartável na minha galeria de ex.
À noite, já planejo meu rolê: vou flertar, beber e dançar até o chão naquela boate!
E não, eu não moro de graça com meus pais; contribuo sim, pago minha parte das contas e ainda suporto o clássico “papo de mãe”: as regrinhas e cobranças infinitas, que, claro, são feitas só para mim.
Vida boa?
Boa para eles, que estão lucrando enquanto eu aproveito!
Uma das regras sagradas na minha casa é que meu namorado não pode dormir aqui. Já minha irmã, Keila, é praticamente uma hóspede VIP; o namorado dela não só pode dormir como parece ter a chave da casa!
Para piorar, o quarto dela é ao lado do meu. Ou seja, quando eles estão “em clima de romance”, eu fico ali, com a trilha sonora da noite deles tocando alto. Tem vezes que nem consigo me segurar e bato na porta. Só assim consigo uns segundos de paz… mas só uns segundos, porque logo o show recomeça.
Ah, a igualdade de direitos, um sonho distante!
Para minha mãe, Keyla é a santa intocável, enquanto eu? Sou a “problemática” da família.
E nem preciso repetir as palavras carinhosas que ela usa para me descrever. Todo mundo me pergunta: "Por que você não sai de casa, Lara?" Mas, cá entre nós, viver sozinha é caro, e mesmo ajudando nas despesas aqui, juntar para sair é outra história. Mas, se Deus ajudar, esse dia chega logo.
Agora, vamos mudar de assunto, né? Já estou pensando nos gatinhos que me aguardam naquela nova boate!
Depois do plantão na clínica odontológica, o plano é passar na casa da Hadiya para arrastá-la comigo. Ela não é muito fã de festas e rolês, vive com um ar meio melancólico, mas eu não desisto!
Minha amiga carrega um passado complicado que não dá para entender. Tipo… qual mãe deixa a filha de doze anos com uma família estranha?
Hadiya virou a babá de três crianças, sendo que, naquela época, mal sabia cuidar de si mesma!
E o mais bizarro de tudo é que ela se apegou a uma das crianças, um garoto de olhos claros. Ela nunca esqueceu dele, é impressionante!
No fundo, eu sei que ele foi especial. Lembro até do dia em que Hadiya entrou na minha sala pela primeira vez, mais velha que os outros, e com aquela timidez estampada no rosto. As crianças não perdoavam, e aquele olhar triste era algo constante. Perdi as contas das vezes que ela chorou e eu tive que segurar o tranco ao ver aquilo.
Com o tempo, Hadiya e eu nos tornamos inseparáveis. Ela compartilhou tudo sobre sua vida, e eu só queria arrasar as vidas daqueles que abusaram da boa vontade dela.
Se pudesse, já tinha tocado fogo na casa onde tudo aconteceu!
Mas tinha uma exceção: Kevin, o garoto dos olhos claros. Ele era diferente, parecia ver além da tristeza dela, e até hoje Hadiya guarda essa lembrança como um tesouro. E, quem sabe, ainda existe uma esperança no fundo do coração dela.
Hoje sinto que preciso falar com Hadiya. Ela está a mil, se preparando para uma reunião com o novo chefe, e eu conheço bem minha amiga: ela nunca dorme direito antes de uma reunião dessas, mesmo sabendo que é uma funcionária exemplar. Hadiya é dedicada, talentosa e brilhante no que faz. Espero que esse novo chefe saiba reconhecer a jóia rara que tem em mãos.
Sério, por que alguns patrões parecem incapazes de ver o talento diante deles?
É como se usassem uma lente que só enxerga defeitos, e isso me deixa perplexa. Aliás, o mundo está cheio de gente sem um pingo de empatia, e a gente vê isso todos os dias. E, infelizmente, Hadiya sempre acabou cruzando com esse tipo de gente.
Ainda bem que ela teve Maitê, a verdadeira “mãezona” que apareceu em sua vida como um anjo protetor. Maitê foi a salvadora de Hadiya, oferecendo tudo que ela precisava para viver, estudar e ter um lar de verdade. Acho que, sem aquela mulher incrível, a vida de Hadiya teria sido muito mais dura.
Os desafios dela nunca foram leves. Vi de perto como a depressão quase a derrubou. Hadiya passou por tanto: o abandono da própria família, a exploração da outra família e, claro, a ausência de Kevin, aquele garoto de olhos claros que ela nunca conseguiu esquecer.
Até hoje me impressiona como ela é forte. A perda de Maitê me deu medo, achei que Hadiya pudesse desmoronar, mas, com muita garra e apoio profissional, ela se reergueu. Graças a Deus.
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