
Deixado para morrer, eu ressuscito
Capítulo 3
Ponto de Vista de Helena Almeida:
"Sofia, você está bem? Você se machucou?" A voz frenética de Ricardo ecoou na escuridão que me consumia.
Ele a acompanhou cuidadosamente para longe da bagunça, o braço firmemente em volta da cintura dela, seu corpo um escudo. "Vamos sair daqui. Vou pedir para alguém te examinar."
Observei suas costas enquanto ele se afastava, uma silhueta forte e protetora me abandonando no chão frio e duro. Uma frieza amarga, mais profunda que a inconsciência que se aproximava, instalou-se em meus ossos.
Minha visão era um borrão vermelho. O mundo era uma sinfonia caótica de vozes gritando e pés correndo. Alguém estava gritando por um médico.
Então, nada. Apenas uma vasta e vazia escuridão.
A próxima vez que tive consciência, eu estava flutuando em uma névoa cinzenta, presa à realidade apenas pelo cheiro agudo e clínico de antisséptico e pelo bipe frenético de uma máquina.
"Ela perdeu muito sangue. Precisamos começar uma transfusão agora. O tipo sanguíneo dela é O negativo." Uma voz, calma e urgente, cortou a névoa. Um paramédico.
"Alguém aqui sabe seu tipo sanguíneo? Alguém é O negativo?", outra voz chamou.
Uma voz suave e familiar perfurou o véu. A de Sofia. "Eu sou. Eu sou O negativo. Peguem meu sangue."
Uma onda de náusea me invadiu. A ideia do sangue dela correndo em minhas veias, me salvando, era uma violação pior que a própria lesão.
Mas a voz de Ricardo, afiada e fria como gelo, respondeu a ela. "De jeito nenhum."
"Mas Ricardo, ela está..."
"Sofia, você está muito fraca", ele a interrompeu, seu tom não deixando espaço para discussão. "Você acabou de entrar em estado de choque. Não vou deixar você arriscar sua saúde. Não por ela."
Não por ela.
As palavras foram uma sentença de morte. Naquele momento, ele deixou sua escolha clara. Ele preferiria me deixar morrer a permitir que Sofia sentisse um momento de desconforto.
"Mas e se...", ela começou, sua voz tremendo com preocupação fabricada.
"Eu não posso te perder, Sofia", ele disse, sua voz quebrando com uma emoção que ele nunca, nem uma vez, demonstrou por mim. "Eu não posso."
A dor na minha cabeça era uma supernova branca e quente, mas não era nada comparada ao rasgar lento e torturante do meu coração. Era uma dor que parecia ser esfolada viva, pedaço por pedaço.
A agonia finalmente me dominou, e a escuridão me engoliu inteira mais uma vez.
Quando acordei, o mundo estava quieto e branco. Eu estava em um quarto de hospital particular. Um soro estava preso ao meu braço, uma bolsa de solução salina pingando firmemente em minhas veias. Minha cabeça estava envolta em uma bandagem grossa.
Uma enfermeira entrou, sua expressão profissionalmente plácida.
"Você tem sorte", ela disse, verificando meus sinais vitais. "Conseguimos o sangue que você precisava bem a tempo. O banco de sangue recebeu um estoque novo esta manhã."
"Eu ouvi... alguém se ofereceu para doar", eu grasnei, minha garganta seca.
A enfermeira assentiu, um toque de simpatia em seus olhos. "Sim, uma senhorita Viana. Mas o Sr. Montenegro recusou. Ele disse que ela estava muito frágil e não podia arriscar."
Ela fez uma pausa e acrescentou: "O Sr. Montenegro é um dos maiores benfeitores do hospital. A palavra dele tem muito peso por aqui. Se ele diz não, é não."
Um arrepio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado do quarto penetrou até a medula dos meus ossos. Ele não apenas escolheu Sofia em vez de mim. Ele usou seu poder para garantir que essa escolha fosse a única opção.
Minha vida era uma moeda que ele estava disposto a gastar para manter Sofia confortável.
"Meu... meu marido está aqui?", perguntei, embora já soubesse a resposta.
Os olhos da enfermeira se suavizaram com pena. Era um olhar com o qual eu estava me familiarizando demais. "Ele esteve aqui por um tempo, mas disse que tinha assuntos urgentes da cidade para resolver. Ele é um homem muito ocupado."
Ocupado. Sim. Ocupado cuidando de Sofia.
"Você quer que eu ligue para algum outro familiar para você?", ela perguntou gentilmente.
Eu balancei a cabeça, uma nova onda de dor atravessando meu crânio. "Não. Obrigada. Você pode... pode apenas me ajudar a arranjar uma cuidadora particular?"
A enfermeira pareceu surpresa, mas assentiu. "Claro."
Quando ela saiu do quarto, uma única lágrima quente finalmente escapou e traçou um caminho pela minha têmpora, desaparecendo no branco estéril do travesseiro.
Não era uma lágrima de tristeza. Era uma lágrima de finalidade.
Minha vida, aos olhos dele, era descartável.
Na semana que se seguiu, Ricardo nunca veio. Nenhuma vez.
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