
Deixada para Arder: A Traição do Meu Marido
Capítulo 3
Ponto de Vista: Celeste Menezes
A mansão parecia cavernosa, ecoando com um silêncio que antes me sufocava, mas que agora parecia um bálsamo. Caminhei pelos cômodos vazios, um fantasma em minha própria casa, e comecei a fazer as malas. Meus pertences eram surpreendentemente poucos, considerando cinco anos de casamento com um magnata da tecnologia. A maior parte do que eu possuía havia sido escolhida para agradá-lo, para se encaixar no molde da presença fantasmagórica de Isabela.
Parei no meu closet, encarando as fileiras intermináveis de vestidos de grife. Creme, azul claro, rosa suave – todas as cores que Isabela preferia. Eu os tirei, um por um, jogando-os em uma pilha para doação sem pensar duas vezes. Aquela não era eu. Aquela era quem eu fingia ser, e aquela mulher se foi.
Assim que eu estava prestes a fechar a porta do closet, ouvi o som familiar do carro de Heitor na entrada, seguido pela risada tilintante que costumava me causar um pavor gelado. Isabela.
Eles entraram na casa, suas vozes animadas, alheios à minha presença no quarto principal. A voz de Heitor, profunda e ressonante, estava carregada de uma familiaridade fácil que ele nunca usou comigo.
Isabela chamou, sua voz irritantemente doce: "Celeste, querida, você está aí?"
Saí do closet, uma camiseta preta simples e jeans substituindo os vestidos de seda. Meu rosto estava impassível. "Estou."
Heitor pareceu surpreso ao me ver. "Celeste. Isabela só veio dar uma passada. Ela disse que sentia falta do cachorro." Ele ofereceu um sorriso forçado, uma tentativa patética de normalidade.
Eu apenas assenti, sem me dar ao trabalho de validar sua desculpa esfarrapada.
Isabela, sempre a manipuladora, ajoelhou-se e cobriu nosso golden retriever, Max, de atenção. "Oh, Max, meu menino lindo! Sua mamãe sentiu tanto a sua falta!" Ela então olhou para mim, um brilho malicioso em seus olhos. "Sabe, Celeste, é tão estranho. Heitor sempre diz que Max é como o filho que nunca tivemos."
Heitor pigarreou, um aviso em sua voz. "Isabela, já chega."
Ela fez beicinho, fingindo inocência. "O quê? É verdade! Ele ama o Max mais do que tudo." Ela então voltou seu olhar para Heitor. "Heitor, ainda estou um pouco abalada com o que aconteceu ontem. Você se importa se eu passar a noite aqui? Só para apoio moral?"
Heitor olhou para mim, um apelo silencioso em seus olhos. Ele ainda precisava da minha permissão, uma relíquia da "esposa perfeita" que eu já fui.
"Claro", eu disse, minha voz calma, quase sem emoção. "O quarto de hóspedes está pronto. Ou você pode ficar no sofá, se preferir."
Os queixos deles caíram, simultaneamente. Eles claramente não esperavam que eu concordasse, muito menos com tanta indiferença. Heitor parecia completamente perplexo, enquanto o sorriso presunçoso de Isabela vacilou.
"Viu, Isabela? Celeste está sendo perfeitamente razoável", disse Heitor, sua voz tensa, uma pitada de aço em seu tom. "Não cause problemas." Ele então me deu um olhar rápido e apologético antes de ir para seu escritório. "Tenho uma ligação de trabalho tarde."
Ele saiu, como sempre fazia, me deixando sozinha com ela.
A fachada de Isabela desmoronou. Ela se levantou, seus olhos se estreitando. "Você acha que venceu, não é? Bancando a mártir. Mas Heitor sempre voltará para mim. Você não significa nada."
Eu não respondi. Apenas peguei um livro da prateleira, uma biografia de uma diplomata.
Seus olhos percorreram o cômodo, procurando por uma reação, qualquer sinal da antiga e insegura Celeste. Quando não encontrou nenhum, sua raiva explodiu. Ela estalou os dedos para Max. "Max! Pega ela! Mostra pra ela quem manda!"
Max, geralmente um gigante gentil, rosnou. Ele avançou, mostrando os dentes, e mordeu minha perna. Uma dor aguda e lancinante subiu pela minha panturrilha. Eu ofeguei, cambaleando para trás, mas não gritei.
Isabela bateu palmas, um sorriso triunfante se espalhando por seu rosto. "Bem feito, sua vadia!"
Olhei para a ferida sangrando, depois para ela, minha expressão ainda indecifrável. "Sabe, Isabela", eu disse, minha voz baixa, "esta casa tem vigilância de última geração. Em todos os cantos. Todos os cômodos. Até no jardim."
Seu sorriso presunçoso desapareceu. Seu rosto ficou branco. Ela sabia. Ela sabia que cada palavra manipuladora, cada ação cruel, havia sido gravada.
"Não tenho interesse em você ou em seus joguinhos patéticos", continuei, minha voz ganhando força. "Mas se você encostar em mim de novo, ou machucar este cachorro, eu te prometo, Isabela, você vai se arrepender."
Ela me encarou, o medo finalmente substituindo a malícia em seus olhos. Virei-me e voltei para o quarto, fechando a porta suavemente. Limpei a ferida, apliquei um curativo e, então, pela primeira vez em meses, senti um sono profundo e tranquilo me dominar. Eu não esperei por Heitor. Eu não o esperava.
Horas depois, uma sensação de sufocamento me acordou. Fumaça. Fumaça espessa e acre enchia o quarto, queimando minha garganta e meus olhos. Fogo. A casa estava em chamas.
O pânico, frio e agudo, perfurou minha dormência. Saí da cama às pressas, tossindo, tentando encontrar meu caminho através da névoa negra. As chamas lambiam as paredes, rugindo.
Naquele momento, eu o vi. Heitor. Ele irrompeu pela porta do quarto, seu rosto sombrio, seus olhos arregalados de medo. Um lampejo de esperança se acendeu em meu peito. Ele voltou por mim. Ele estava aqui.
Ele me viu, depois viu Max, choramingando ao lado da cama. Sem um momento de hesitação, ele pegou o cachorro, aninhando-o protetoramente, e se virou para correr para fora do quarto.
Ele salvou o cachorro. Antes de mim.
Observei suas costas se afastando, Max seguro em seus braços. Uma risada histérica borbulhou da minha garganta, crua e dolorosa, mas totalmente silenciosa. O fogo rugia ao meu redor, o calor queimando minha pele, mas tudo o que eu conseguia sentir era a percepção gelada que atravessou o pouco que restava do meu coração.
Até o cachorro significava mais para ele do que eu.
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