
De Vítima a Vingadora
Capítulo 3
O cheiro de antisséptico barato e mofo enchia minhas narinas quando eu acordei.
Meu corpo inteiro doía, mas o vazio no meu ventre era a pior dor de todas.
Eu estava em um quarto pequeno, com paredes descascadas, a única luz vinha de uma lâmpada fraca pendurada no teto.
Eu estava sozinha.
Tentei me sentar, mas uma tontura forte me forçou a deitar novamente, eu estava fraca, drenada.
A porta se abriu com um rangido e Juliana entrou, ela carregava uma bandeja com um prato de sopa rala e um copo de água.
Ela colocou a bandeja na mesinha de cabeceira ao meu lado com um baque.
"Coma, você precisa recuperar suas forças."
Seu tom era falsamente preocupado, mas seus olhos brilhavam com malícia.
Eu desviei o olhar, incapaz de encará-la.
"Por quê, Juliana? Por que você me odeia tanto?"
Ela riu, um som desagradável.
"Odeio? Não, Sofia, eu não te odeio, eu tenho pena de você, sempre tão ingênua, tão cega pelo amor, você realmente achou que o Pedro, um astro do futebol, iria se casar com uma órfã sem eira nem beira como você?"
Suas palavras eram cruéis, calculadas para me ferir.
"Nossa mãe…" eu comecei a dizer.
"Não se atreva a falar da minha mãe!" , ela me interrompeu, sua voz subitamente cheia de veneno. "Sua mãe roubou meu pai da minha mãe, ela destruiu nossa família, você é filha da mulher que causou a infelicidade da minha vida inteira, você acha que eu ia deixar você ser feliz? Nunca."
Então era isso, uma vingança distorcida, passada de uma geração para outra.
Eu era a culpada pelos pecados da minha mãe, aos olhos dela.
"E o bebê?" , perguntei, a voz embargada. "Ele não tinha culpa de nada."
Juliana deu de ombros, um gesto de total indiferença.
"Era um mal necessário, ele só iria atrapalhar nossos planos, Pedro precisa de dinheiro, e você, minha querida irmã, vai nos fornecer."
Ela se inclinou sobre mim, seu rosto a centímetros do meu.
"Você vai voltar para a boate, e desta vez, não será só para dançar, você vai fazer o que for preciso para conseguir clientes, clientes ricos, o gerente já tem uma lista para você."
O horror me gelou por dentro, eles não queriam apenas que eu fosse uma dançarina, eles queriam me transformar em uma prostituta.
Usar meu corpo, minha humilhação, para financiar a vida luxuosa deles e do filho que eles tinham juntos.
"Eu não vou fazer isso" , eu disse, reunindo a pouca força que me restava.
O sorriso de Juliana se alargou.
"Ah, você vai sim, porque se não o fizer, nós temos maneiras de te convencer."
Ela tirou o celular do bolso e me mostrou uma foto, era uma senhora idosa, com cabelos brancos e um sorriso gentil, sentada em uma cadeira de rodas em um jardim.
Era Dona Elvira, a única família que me restava, a vizinha que cuidou de mim depois que minha mãe morreu.
Ela estava em um asilo, e eu pagava as despesas com o dinheiro que economizava.
"Ela parece tão frágil, não é?" , disse Juliana, com uma doçura aterrorizante. "Seria uma pena se acontecesse um acidente, um incêndio, talvez? Asilos podem ser tão perigosos."
A ameaça era clara, a crueldade, ilimitada.
Eles usariam a pessoa mais vulnerável da minha vida para me controlar.
As lágrimas que eu segurava finalmente rolaram pelo meu rosto, lágrimas de raiva, de impotência, de desespero.
Juliana sorriu, satisfeita com a minha reação.
"Eu sabia que você entenderia, agora seja uma boa menina e coma sua sopa, você tem uma longa noite pela frente."
Ela se virou e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si, me deixando sozinha com a minha dor e a certeza de que meu pesadelo estava apenas começando.
Eu olhei para a sopa rala, meu estômago se revirou, mas eu sabia que ela tinha razão.
Eu precisava recuperar minhas forças, não para obedecê-los, mas para lutar.
Eu comi cada colherada daquela sopa insípida, cada gole de água, sentindo a energia, por menor que fosse, voltar ao meu corpo.
Eles achavam que tinham me quebrado, mas estavam errados.
Eles tinham acabado de criar seu pior inimigo.
Eu não sabia como, nem quando, mas eu ia escapar daquela prisão.
E quando eu escapasse, eu faria Pedro e Juliana pagarem por cada lágrima, cada gota de sangue, cada pedaço da minha alma que eles tentaram roubar.
A vingança não seria apenas um prato servido frio.
Seria um banquete.
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