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Capa do romance De Sol e Sombras

De Sol e Sombras

Fred habita o Bairro das Sombras, um lugar isolado do radiante Bairro do Sol Nascente por um rio e mitos sobre um antigo Reino. Intrigado pela divisão entre vizinhos idênticos, ele vigia a claridade distante todas as noites. Sua rotina pacata sofre uma reviravolta com a chegada de Patrick, um jovem sofisticado e enigmático. Ao acolher o forasteiro em sua casa simples, Fred inicia uma amizade profunda que desafia os segredos e as fronteiras de seu mundo.
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Capítulo 2

O meu bairro não era ruim, como poderia parecer ao povo do outro lado do rio. Éramos, sim, um pouco menos abastados, mas a vida seguia como em qualquer outro lugar.

Eu era o filho mais velho de um casal apaixonado e unido, tinha três irmãs mais novas e todos nós vivíamos em uma pequena casa. Meu quarto era o menor de todos, mas tinha a melhor vista e não era preciso dividir o espaço – benefícios de ser o único menino.

Gostava de lá, mesmo com todos os problemas que enfrentávamos. Gostava de ajudar meu pai com as coisas que plantava, gostava de acompanhar minha mãe até a escola onde ela ensinava as crianças pequenas, gostava de me sentar junto com todos ao redor de nossa mesa gasta e dividir um jantar que muitas vezes era bem escasso.

Sim, haviam vários garotos vivendo na rua e alguns adultos. Isso gerava alguns problemas, mas eu já estava tão habituado que não me assustava. Nós aprendíamos a nos cuidar desde muito pequenos e evitar certos lugares.

O bairro das Sombras, como o próprio nome sugere, tinha um certo aspecto frio e escuro. As casas eram todas pintadas em tons de cinza e azul, haviam grandes árvores com copas espessas por todas as ruas e ventava bastante.

Toda noite eu me sentava na janela do quarto, que ficava no andar superior, e observava as pequenas casas iluminadas ao longe – o bairro do Sol Nascente. Não poderíamos ser tão diferentes, poderíamos? Todos éramos pessoas e o reino deixou de existir muito tempo antes.

No entanto, eu nunca tinha ido até lá e nunca tinha visto ninguém de lá aqui. Era como se houvesse um acordo implícito de que os herdeiros de Elisabeth jamais retornassem ao “castelo” e aos herdeiros que Leopoldo supostamente criou do outro lado do rio.

Não havia motivos para acreditarmos nisso, é claro. Não havia registro sobre nenhum Rei que expulsou a filha do castelo, muito menos de um bebê que foi criado por uma mulher de cabelos pretos e olhos roxos.

Tudo não passava de suposição e apenas tradição passada de geração a geração. Até que eu nasci e as coisas passaram a ser um pouco mais formais.

Eu era o único do bairro que tinha olhos roxos. Não só de toda minha família e meus antepassados, mas de todo o lugar. A primeira criança em tempo indeterminado a nascer com os olhos de Elisabeth.

Passei a ser visto como um herdeiro distante. As pessoas me olhavam diferente, alguns até com adoração, como se eu realmente pudesse fazer parte da família real. Mas isso, na verdade, não importa porque, se tal ligação existisse, minha família não passa de uma vertente ilegítima criada por Elisabeth e o tal empregado.

Não costumava pensar nisso, afinal tinha coisas demais para fazer em casa do que fantasiar. Nós não tínhamos muito tempo para ficar saboreando fantasias, precisávamos cuidar das nossas hortas e ficar de olho nas crianças pequenas. Mas toda noite eu me permitia sonhar enquanto observava o outro lado do rio.

- Fred? – minha mãe abriu a porta do quarto – O que ainda faz acordado? – seus olhos cansados estavam circundados por olheiras profundas.

- Nada. – rapidamente desci da janela – Estava sem sono, mas já vou dormir.

- Suas irmãs já estão quietas, não faça nenhum barulho. – eu sempre podia notar a preocupação de mamãe com dormir tão pouco.

- Claro. – concordei rapidamente.

Me afundei nas cobertas no mesmo instante. Escutei o suspiro dela e depois seus passos arrastados pelo chão.

- Durma bem, querido. – seus lábios pousaram um beijo suave em minha testa.

- Você também.

Assim que a porta se fechou e seus passos sumiram, eu me levantei outra vez e fui para a janela. As luzes do bairro do Sol Nascentes eram fortes, se comparadas as nossas, mesmo tarde da noite. Parecia que lá realmente sempre tinha um sol, e aqui sempre as sombras, mesmo ao meio dia.

Quando eu era criança, costumava ficar nas margens do rio. Meu sonho era atravessá-lo e chegar na outra margem, de onde eu poderia explorar todos os cantos misteriosos.

Foi por isso que, aos sete anos, mergulhei nas águas. Foi um banho gelado e aterrorizante, porque fui arrastado pela correnteza sem chance alguma de controlar o lado para o qual estava indo.

Um homem me salvou e eu nunca mais o vi. Meus pais ficaram tão bravos que nunca mais tive permissão para chegar tão perto do rio, muito menos minhas irmãs mais novas – algumas ainda nem nascidas.

As únicas formas de chegar no bairro do Sol Nascente eram através do rio, de barco, ou por uma ponte onde só passa o trem. Nunca vi um só barco boiando nas águas agitadas, e o trem não fazia parada aqui – ele era exclusivo meio de transporte do lado mais rico da cidade.

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