
De Esposa Destroçada a Poder Bilionário
Capítulo 3
Ponto de Vista de Alice Dias:
O médico sentou-se à minha frente, sua expressão séria, quase simpática. Dr. Elias Viana, um homem renomado por suas terapias controversas e de ponta. Ele segurava uma varredura holográfica do meu cérebro, uma nebulosa rodopiante de dados.
"Sra. Dias", começou ele, com a voz calma, "preciso confirmar sua decisão. Este procedimento é irreversível. O apagamento de memória não é como deletar arquivos de um computador. É... profundo. Você tem certeza absoluta de que quer prosseguir?"
Olhei para ele, depois para a imagem rodopiante da minha própria mente. Minha mente, uma prisão de dor. "Tenho certeza", disse eu, minha voz plana, vazia de emoção.
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos. "Só realizamos isso em pacientes com TEPT extremo e debilitante, onde a terapia tradicional falhou. É um último recurso." Ele fez uma pausa, o olhar suavizando. "Você é jovem. Seu cérebro ainda é notavelmente neuroplástico. Há uma chance... uma pequena chance, de que este procedimento possa ter efeitos colaterais imprevistos. Que ele possa até desbloquear caminhos adormecidos."
Eu apenas balancei a cabeça. "Eu não me importo. Preciso esquecê-lo. Tudo isso."
Os olhos dele demoraram nos meus. "Você mencionou que foi encontrada há cinco anos, após um acidente. Amnésia."
"Sim", confirmei, um eco distante de um passado esquecido se agitando dentro de mim. Parecia outra vida. Fui encontrada em uma praia, machucada e ferida, sem nenhuma lembrança de quem eu era ou de onde vinha. Érico Alencar, um pianista em dificuldades na época, me descobriu. Ele foi gentil, doce, e me acolheu. Ele me deu o nome de Alice Dias. Parecia um novo começo.
"Ele foi meu salvador", continuei, as palavras uma dor surda. "Meu cavaleiro. Ele me ensinou tudo. Como viver de novo. Como amar."
Nossos primeiros dias foram um borrão de sonhos compartilhados e intimidade silenciosa. Passávamos horas em seu apartamento pequeno e bagunçado, eu desenhando as mãos dele enquanto ele tocava, ele compondo melodias que fluíam de sua alma. Ele cozinhava refeições simples, e eu limpava seu pequeno espaço, fazendo com que parecesse um lar. Éramos uma equipe, uma unidade contra o mundo. Ele era meu mundo.
"Tornei-me a fotógrafa dele", expliquei, um fantasma de sorriso tocando meus lábios. "Capturei a essência dele, a paixão dele. As capas dos álbuns, as fotos promocionais... eram todas obra minha. Ele era o artista, eu era sua musa silenciosa, sua maior apoiadora."
O público o adorava. Chamavam-no de "Príncipe do Piano", cativados por seu talento e pela história romântica da mulher misteriosa ao seu lado. Eles nunca souberam meu nome. Nunca souberam da minha contribuição. E por muito tempo, eu não me importei. O sucesso dele era o meu sucesso. A felicidade dele era a minha.
"Lembro-me de uma vez", contei, uma dor aguda perfurando a névoa, "ele estava praticando até tarde e se esforçou demais. Ele desmaiou. Chamei uma ambulância, frenética. Ele estava com tanto medo. Ficava murmurando sobre as mãos, suas mãos preciosas. Elas estavam seguradas por milhões, mesmo naquela época."
O Dr. Viana ouvia pacientemente.
"Ele segurou minha mão com tanta força na ambulância", continuei, um tremor na voz. "Ele olhou para mim, realmente olhou para mim, e disse: 'Alice, você é minha âncora. Meu tudo. Não consigo fazer isso sem você.' Ele me prometeu o para sempre. Prometeu que sempre me protegeria."
Eu acreditei nele. Com cada fibra do meu ser, eu acreditei nele. Construiríamos uma vida juntos, uma sinfonia linda e harmoniosa.
Mas então, os aplausos ficaram mais altos. Os palcos ficaram maiores. O dinheiro entrou. E Érico mudou.
O ponto de virada foi sutil, uma mudança gradual. Ele começou a passar mais tempo fora, a "negócios". Ficou distante, distraído. Dizia que era a pressão, as exigências da fama. Eu aceitei. Eu sempre aceitava.
Então veio a noite da tempestade. O acidente de carro. Minha ligação desesperada para Érico, minha voz tremendo, contando a ele sobre o acidente, sobre o bebê.
O bebê. Mesmo agora, uma dor fantasma se instalou no meu útero.
"Ele atendeu", disse ao Dr. Viana, minha voz um sussurro oco. "Mas ele não estava sozinho. Ouvi uma voz suave e ronronante ao fundo, uma risadinha. Era a Babi. Ouvi ela dizer: 'Ah, Érico, sua esposa é tão dramática. Diga a ela que a Princesa precisa mais de você.'"
Meu sangue gelou naquele momento. Ele deu uma desculpa, uma desculpa esfarrapada, sobre estar preso no trânsito. Mas eu sabia. Eu tinha aquela sensação nauseante no estômago.
Mais tarde, da minha cama de hospital, eu pesquisei. A rede social privada dele, aquela que ele dizia ser apenas para "amigos próximos e família". Ele tinha postado uma foto de um jantar à luz de velas, brindando com champanhe com a Babi. A legenda dizia: "Celebrando com minha verdadeira musa. A inspiração por trás de tudo."
Quando ele finalmente me ligou de volta, horas depois, parecia cansado, irritado. "Alice, você está exagerando. A Babi é apenas uma colega. Estávamos discutindo um novo projeto. Você sabe como minha imagem é importante. Você não pode simplesmente me acusar." A voz dele estava carregada de uma condescendência que fez minha pele arrepiar. "E o que é isso sobre um bebê? Você sabe que concordamos em esperar."
Lembrei-me de forçar um sorriso, fingindo acreditar nas mentiras dele. Fingindo não ouvir a inflexão sutil na voz dele, a maneira como ela se elevava quando ele falava o nome dela, a possessividade que nunca esteve lá para mim. Mas uma parte de mim, uma parte pequena e teimosa, sabia a verdade.
"Eu só precisava saber", eu tinha dito, minha voz tremendo, "que você ainda está aqui. Que estamos bem."
Ele suspirou, um som de profunda exasperação. "Claro, Alice. Sempre." As palavras eram ocas, ecoando no espaço vazio entre nós.
Agora, sentada no consultório do Dr. Viana, a memória parecia uma ferida aberta. Ele nunca tinha sido verdadeiramente meu. Ele tinha sido uma miragem, um truque cruel de uma memória danificada.
"Eu quero que suma", repeti, meu olhar fixo na varredura do meu cérebro. "Cada memória dele. Cada toque, cada palavra, cada mentira. Quero tudo apagado."
O Dr. Viana assentiu lentamente. "Entendido. O procedimento está agendado para a próxima terça-feira. Você... quer uma última memória? Um último gesto antes?"
Um último gesto. Um adeus final a uma vida que nunca tinha sido verdadeiramente minha. Fechei os olhos, imaginando a cobertura, o piano, os cantos silenciosos onde eu tinha encontrado consolo.
"Sim", disse finalmente, "acho que sim."
O Dr. Viana confirmou os arranjos. "Tudo bem, Sra. Dias. Terça-feira, então. Descanse."
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