
De Bolsa de Sangue a Rainha Bilionária
Capítulo 3
A ala VIP do Hospital São Lucas não cheirava a hospital. Cheirava a lírios frescos e cera de chão cara. O silêncio ali era comprado a dez mil dólares por noite.
Ametista saiu do elevador. Seus saltos não faziam barulho no tapete felpudo.
Dois seguranças estavam do lado de fora do Quarto 808. Eles a viram e se afastaram, assentindo. Para eles, ela ainda era a Senhora Barro, a bolsa de sangue obediente.
Ela não os corrigiu.
Empurrou a porta.
Safira estava sentada na cama. Segurava uma colher, comendo delicadamente de uma tigela de porcelana. Sopa de ninho de andorinha. Suas bochechas estavam coradas de saúde, os olhos brilhantes enquanto ela rolava a tela do celular com a mão livre.
No momento em que a porta se abriu, Safira congelou.
Em menos de um segundo, a transformação aconteceu. A colher caiu na tigela. Safira desabou contra os travesseiros. Seus olhos caíram, a respiração tornando-se superficial e trabalhosa.
- Ametista... - sussurrou Safira, a voz trêmula. - Você finalmente veio. Barro disse que você me salvaria...
Ametista entrou no quarto. Não parou aos pés da cama. Caminhou para o lado, elevando-se sobre a mulher deitada.
Alcançou a fechadura atrás de si sem olhar e girou a tranca.
Clique.
O som foi pequeno, mas no quarto silencioso, soou como um tiro.
Os olhos de Safira piscaram. A atuação vacilou por um milissegundo.
- Por que... por que você trancou a porta?
Ametista pegou o prontuário médico pendurado aos pés da cama. Abriu-o.
- Hemoglobina, 12,5 - leu Ametista em voz alta. - Pressão arterial, 12 por 8. Frequência cardíaca, estável.
Ela fechou o prontuário com um estalo e o largou na cama. Caiu sobre as pernas de Safira.
- Você está mais saudável do que eu, Safira. Atuar te cansa, ou a adrenalina de ser uma sociopata te mantém de pé?
O rosto de Safira mudou. A flor frágil e moribunda desapareceu. Seus lábios se curvaram em um escárnio.
- E daí? - Safira riu. Foi um som feio. - Não importa o que o prontuário diz. Se eu digo que estou tonta, Barro entra em pânico. Se eu digo que preciso de sangue, ele sangra você. É assim que funciona.
Safira se inclinou para frente, baixando a voz para um sussurro conspiratório.
- Ele esteve aqui ontem à noite, sabe. Bem nesta cama. Ele me disse que você é como um pedaço de madeira. Chata. Fria.
Ametista sentiu uma calma se instalar sobre ela. Era o olho da tempestade.
- É mesmo? - perguntou Ametista.
Safira, interpretando mal o silêncio como derrota, estendeu a mão. Agarrou a manga de Ametista com força surpreendente.
- Vá chamar a enfermeira - ordenou Safira. - Quero minha transfusão. E me traga um chocolate quente enquanto isso.
Ametista olhou para a mão em sua manga.
Ela se moveu.
Arrancou o braço. Safira engasgou, jogando-se para trás contra a cabeceira, abrindo a boca para gritar.
Antes que o som pudesse deixar sua garganta, a mão de Ametista cortou o ar.
Plaf!
O som foi úmido e agudo.
A palma da mão de Ametista conectou-se com a bochecha de Safira com cada grama de frustração, traição e fúria que ela suprimira por três anos.
A cabeça de Safira estalou para o lado. O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Ametista flexionou a mão. A palma ardia. A sensação era incrível.
- Isso - disse Ametista, a voz firme - foi pela garota que passou três anos drenando as veias por uma mentirosa.
Safira tocou a bochecha. Uma marca vermelha de mão florescia ali, vívida contra sua pele pálida.
- Você me bateu! - Safira gritou. - Você realmente me bateu! Barro vai te matar!
Ametista se inclinou. Agarrou o queixo de Safira, os dedos afundando na carne macia, forçando a outra mulher a olhá-la nos olhos.
- Grite mais alto - sussurrou Ametista. - Vamos ver se ele consegue "desbater" na sua cara.
Safira lutou, os olhos arregalados com medo genuíno agora. Aquela não era a Ametista que ela conhecia. Aquilo era algo perigoso.
- Eu tenho os registros digitais - mentiu Ametista com suavidade, embora soubesse que seu contato já havia garantido os arquivos reais do servidor do hospital. - Aqueles que você pensou ter deletado. Se você chegar perto de mim de novo, todos os jornais de Nova York publicarão a história da Falsa Herdeira.
A maçaneta chacoalhou violentamente.
- Safira? Ametista? - A voz de Barro veio do corredor, abafada, mas zangada.
Os olhos de Safira se iluminaram. Ela imediatamente bagunçou o cabelo e soltou um lamento de desespero.
BAM.
Uma bota pesada chutou a porta perto da fechadura. A madeira lascou.
A porta se escancarou, batendo contra a parede.
Barro correu para dentro, o peito arfando. Ele absorveu a cena: Safira soluçando nas mãos, a bochecha vermelha brilhante, e Ametista parada ao lado da cama, parecendo um carrasco que acabara de soltar o machado.
- Barro! - chorou Safira, apontando um dedo trêmulo. - Ela tentou me matar! Ela é louca!
Barro viu a marca vermelha. Uma veia saltou em sua testa.
Ele avançou contra Ametista, a mão erguida como se fosse empurrá-la.
Ametista não recuou. Não piscou. Travou os olhos com ele, canalizando a autoridade gélida de seu pai, Rocha.
- Toque em mim - disse ela, a voz caindo para um sussurro mortal - e você perde a mão.
Barro congelou. Sua mão pairou a centímetros do ombro dela. A pura ameaça irradiando dela o parou completamente. Era como olhar nos olhos de um predador, não de uma presa.
O ar na sala ficou espesso, sufocante.
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