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Capa do romance Das Cinzas ao Altar: Sua Vingança

Das Cinzas ao Altar: Sua Vingança

Após perder a mãe em um crime sem solução e ver seu pai morrer por negligência de Heitor, seu próprio marido, Helena vive um pesadelo. Heitor a silenciou com tortura e humilhações, destruindo sua carreira e profanando as cinzas de sua mãe para esconder a verdade. No entanto, o plano de quebrá-la falhou. Ao fugir de São Paulo, ela inicia uma transmissão global para expor os crimes dele. Helena perdeu tudo, mas agora sua única missão é revelar ao mundo toda a face do monstro.
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Capítulo 3

Ponto de Vista de Helena:

O escritório da advogada parecia um santuário. A pesada porta de carvalho, os sussurros abafados dos assistentes jurídicos, o cheiro de papel velho e café fresco – era um mundo distante da grandiosidade sufocante da mansão de Heitor. Observei enquanto minha advogada, Dra. Matos, uma mulher cuja calma escondia uma mente afiada como uma navalha, revisava cuidadosamente o documento que Heitor havia assinado. Meu coração martelava contra minhas costelas, um ritmo nervoso contra o tique-taque silencioso do relógio de parede.

"É válido, Helena", disse Dra. Matos finalmente, sua voz suave, mas firme. Ela empurrou os papéis de volta pela mesa polida. "Ele assinou o acordo de divórcio. Sob coação, talvez, mas legalmente vinculativo. Você está oficialmente livre."

Uma onda de alívio, tão profunda que quase dobrou meus joelhos, me invadiu. Livre. A palavra tinha gosto de oxigênio depois de anos de sufocamento. "Obrigada", consegui dizer, minha voz crua de emoção.

"Qual o próximo passo?", ela perguntou, seus olhos perscrutando os meus.

"O próximo passo", disse eu, minha voz endurecendo, "é expô-lo. E a eles. Para o mundo." Eu já havia planejado minha fuga. Um voo reservado para o Rio de Janeiro. Uma nova vida, longe do alcance sufocante da elite de São Paulo. Mas primeiro, um ato final de justiça. Eu vinha secretamente reunindo cada pedaço de evidência, cada confissão coagida, cada mensagem de texto manipuladora. Estava tudo criptografado, carregado e pronto para ser liberado.

Saí do escritório da Dra. Matos, o decreto de divórcio assinado um fardo leve como uma pena em minha bolsa, mas mais pesado que ouro. Meu plano estava traçado. Eu estava começando de novo. Um novo estado, um novo nome, uma nova vida. Eu só precisava finalizar algumas coisas.

Naquela noite, voltei à mansão uma última vez para pegar alguns itens pessoais. A grande sala de jantar estava iluminada por velas, o tilintar dos talheres ecoando pelo espaço cavernoso. Heitor e Anita estavam à mesa, seus rostos próximos, uma imagem de felicidade doméstica. Eles olharam para cima quando entrei, suas risadas morrendo.

"Helena! Querida! Você chegou bem a tempo!", Anita ronronou, seu sorriso muito largo, muito doce. "Junte-se a nós! Heitor fez sua famosa moqueca baiana super picante. Sua favorita, não é, Heitor?" Ela piscou para ele.

Heitor apenas grunhiu, sem encontrar meu olhar. Minha favorita? Meu estômago revirou. Heitor sabia que eu não tolerava comida apimentada. Ele também sabia que a pressão arterial dele não aguentava. Era a favorita dele. Uma pequena e insidiosa provocação.

"Não, obrigada", respondi, minha voz firme. "Só vim pegar algumas coisas."

Heitor finalmente olhou para mim, seus olhos frios. "Ainda se fazendo de vítima, vejo. Sempre tão dramática." Ele se virou de volta para Anita, sua mão tocando suavemente a bochecha dela. "Minha doce Anita, você está absolutamente radiante esta noite. Você me faz esquecer toda a desagradabilidade." Ele me lançou um olhar pontual.

Anita se envaideceu sob sua atenção. "Oh, Heitor, você é tão gentil." Ela então se virou para mim, sua falsa preocupação de volta. "Helena, você parece um pouco pálida. Tem certeza de que não deveria comer algo? Ou talvez uma boa e quente tigela de sopa?" Ela pegou uma tigela fumegante, sua superfície brilhando com óleo de dendê. Meu estômago se contorceu.

"Não, obrigada. Sou alérgica a... drama", disse eu, minha voz seca. Tirei o celular do bolso, tocando sutilmente no botão de gravação. Apenas por precaução.

O sorriso de Anita se apertou. "Oh, Helena, você é sempre tão difícil." Ela se levantou, tigela na mão, e caminhou em minha direção. "Aqui, você realmente deveria comer um pouco. É tão bom para você." Ela tentou pressionar a tigela em minhas mãos.

"Eu disse não", avisei, dando um passo para trás. Minhas alergias eram reais, uma reação severa a certas pimentas. Isso não era um acidente.

Mas Anita era implacável. Ela se lançou, forçando a tigela contra minhas mãos. "Não seja boba, Helena. Só um gostinho." Seu aperto era surpreendentemente forte.

A sopa fervente espirrou em minhas mãos, queimando minha pele. Eu arquejei, derrubando a tigela. Ela se estilhaçou no chão de mármore, o líquido picante espirrando por toda parte. A dor foi imediata, aguda e lancinante.

"Ah!", Anita gritou, segurando o braço, embora nem uma gota de sopa a tivesse tocado. Ela desabou nos braços de Heitor, lágrimas instantaneamente brotando em seus olhos. "Ela fez de propósito! Ela me queimou!"

"Anita! Minha querida, você está bem?", Heitor rugiu, seu rosto uma máscara de preocupação por ela. Ele nem sequer olhou para minha pele avermelhada e empolada. "Chame o médico! Imediatamente!"

"Estou bem, Heitor, só um pouco abalada", Anita choramingou, seus olhos se voltando para mim com um olhar triunfante. "Mas a Helena... ela é tão violenta. Sempre foi."

"Ela não te queimou, Anita! A sopa estava quente, espirrou!", gritei, minha voz tremendo de dor e incredulidade.

"Oh, Helena, não tente mentir para sair dessa", disse Anita, sua voz ainda um sussurro teatral. "Eu sei que você está chateada, mas me machucar deliberadamente... eu te perdoo, é claro, mas foi uma coisa terrível de se fazer." Ela se virou para Heitor, seus olhos nadando em lágrimas. "Ela precisa de ajuda, Heitor. Ela está claramente instável."

Meu estômago revirou, não de dor, mas de puro nojo. Sua atuação era doentia e brilhante. Eu queria gritar, arrancar seus cabelos perfeitos, mas me contive. Eu tinha a gravação. Era o suficiente.

Virei-me e saí da mansão, deixando os gritos e as lágrimas falsas para trás. O ar fresco da noite era um bálsamo em minha pele queimada. Chamei um táxi, minha mente já no próximo passo.

Mas o destino, ao que parece, tinha uma última e cruel reviravolta reservada. Antes que o táxi pudesse sequer virar a esquina, um sedã escuro nos fechou. Dois homens fortes, com os rostos mascarados, me arrancaram do veículo. Gritei, mas foi abafado, perdido no rugido da cidade. Uma mão áspera cobriu minha boca, um cheiro doce e enjoativo enchendo minhas narinas. A escuridão me reivindicou mais uma vez.

Acordei com a umidade arrepiante da pedra sob minha bochecha. Minha cabeça latejava. Eu estava em um porão, uma escuridão fria e opressiva me pressionando. O ar estava pesado com o cheiro de mofo e algo mais... algo vivo e rastejante. Minha respiração ficou presa. Meu coração começou a bater com um ritmo frenético e doentio.

Então, uma voz familiar, distorcida por um alto-falante, ecoou pelo espaço cavernoso. Heitor. "Então, Helena. Ainda acha que pode me desafiar? Ainda acha que pode ir embora?" Sua voz era assustadoramente calma. "Você tentou machucar a Anita. Você tentou arruinar minha família. Esta é a sua punição."

Um gemido escapou dos meus lábios. Eu não conseguia ver nada, mas podia sentir. Os pequenos movimentos rastejantes. Meu coração era um pássaro frenético preso em meu peito. Meu medo mais primitivo. Aranhas. Ele sabia. Ele se lembrava.

"Não... por favor..." Tentei falar, mas minha voz era um soluço engasgado. Encolhi-me em posição fetal, meu corpo tremendo incontrolavelmente.

"Grite o quanto quiser, Helena", a voz de Heitor continuou, fria e inabalável. "Ninguém vai te ouvir. E ninguém se importa."

Eu podia ouvi-las agora, os sons suaves e farfalhantes. Chegando mais perto. Podia sentir perninhas na minha pele, subindo pelos meus braços, meu pescoço. Um grito agudo rasgou minha garganta, cru e desesperado. Debati-me descontroladamente, minhas mãos batendo na minha pele, tentando desalojar as criaturas imaginárias. Ou eram imaginárias? Eu não conseguia mais dizer. Cada sombra se movia, cada partícula de poeira se transformava em um aracnídeo monstruoso. O terror era avassalador.

Minha mente se fragmentou. Implorei. Supliquei. Chorei por minha mãe, por meu pai, por qualquer um. As palavras eram incoerentes, perdidas no barulho do meu próprio terror. Mas ninguém veio. O silêncio de Heitor era um julgamento, uma confirmação da minha total insignificância.

Então, uma dor aguda e lancinante. Uma picada. No meu tornozelo. Meu grito foi interrompido quando uma onda de tontura me atingiu. O mundo inclinou, girou. Escuridão. Ela me engoliu por inteiro. Mas naquele breve e agonizante momento antes da inconsciência, um único pensamento perfurou o terror: Ele matou minha mãe. Ele matou meu pai. Ele fez isso comigo. Eu vou fazê-lo pagar.

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