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Capa do romance Dançando com o Diabo

Dançando com o Diabo

Laura Silva acorda em 1850, presa em uma realidade impossível onde a escravidão ainda dita as regras. Longe de 2019, ela se vê em uma fazenda rústica, vítima de uma maldição geracional que começou com sua antepassada, Aurora. Encurralada em um século perigoso, Laura enfrentará um triângulo amoroso complexo e lutará pela própria sobrevivência. Em um jogo de segredos e destino, será que ela conseguirá vencer o passado ou sucumbirá ao peso dessa herança maldita?
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Capítulo 1

⁠"Quando estou em outro tempo, estou invertido, transformado numa versão desesperada de mim. Viro um ladrão, um andarilho, um bicho que corre e se esconde. Assusto velhas e assombro crianças. Sou um truque, uma ilusão da mais alta ordem. É incrível eu ser mesmo real."

A Mulher do Viajante no Tempo.

FLASHBACK

Peguei mais uma vez a caneta, ansiosa em razão da turbulência em meu coração. Tenho de me livrar dessa paixão que me consome, mas não sei como.

Você veio até mim esta noite. Senti sua presença e seu calor antes mesmo de ouvir seus passos, pois meus sentidos estão altamente condicionados a captar sua aproximação. Seu encanto me escravizou com mais eficiência do que qualquer grilhão.

Você murmura meu nome e eu me viro em sua direção. Seus olhos negros são intensos, questionadores. Retribuo o olhar, enfeitiçada. É só você me olhar e sou tomada por uma torrente de prazer.

Deixo-me cair em seus braços, a ponto de sentir dor por tanto amor e desespero. Seu toque é como um bálsamo, sua mão em meu seio ao mesmo tempo conforta e excita.

Fecho os olhos, sentindo sua virilidade, seu vigor contra minha fragilidade. Você bem sabe como sou vulnerável a você, à sua paixão selvagem. Sinto meu corpo se incendiar. Fico trêmula ao sentir a carícia dos seus lábios, o calor da sua respiração, a habilidade dos seus dedos ao me despir.

Seu roupão cai, descendo ao chão. À luz de velas de essência de almíscar, seu corpo nu bruxuleia com graça e força, a maior de todas as fantasias femininas.

Sua mão toca levemente meus quadris e sinto o corpo todo estremecer. Em resposta, agarro seu membro cada vez mais duro e grosso. Não sinto nenhuma vergonha. Com você aprendi sobre os desejos da carne, e você tornou meu corpo sensível ao prazer, neutralizando qualquer inibição.

Sinto-me fluindo, minha fenda está quente e pulsante, desprendendo líquidos ao seu toque, quando você se deita comigo. Seus olhos têm um ar de desafio e desejo, você vem por cima de mim e desliza para dentro, me penetrando profundamente. Solto um grito rouco de satisfação enquanto arqueio o corpo e me rendo.

Você controla meus sentidos. Estou desesperada, faminta para prová-lo, inebriada com seu ópio, com a necessidade de preencher e ser preenchida.

Você me inunda com sua paixão. Estou me afogando e o puxo para se afogar comigo.

A seguir, nos deitamos próximos um do outro, nossas respirações ofegantes se misturam, a pele suada e grudenta. Sinto você silenciar enquanto prova o sal das minhas lágrimas. Erguendo-se diante de mim, você me olha nos olhos e vê a dor no coração que sou incapaz de ocultar.

Seu beijo violento tem a intenção de acalmar, mas apenas aprofunda o conflito que parte meu coração.

A escolha é minha, você diz. Você me oferece a liberdade, uma preciosa dádiva. Já que minha felicidade é mais importante para você do que a sua, você vai me deixar livre.

Mas serei capaz de viver sem você?

Será que essa escolha é realmente minha?

E

ra uma cena selvagem: o homem seminu e acorrentado, com o torso forte bronzeado pelo sol do Caribe. Encostado nos altos mastros do navio, ele mantinha o ar desafiador e firme.

Por um breve instante, lady Aurora Demming sentiu o coração vacilar enquanto olhava pelo gradil da fragata.

Ele poderia muito bem ser uma estátua entalhada por um grande escultor, com músculos bem contornados, ágeis e resistentes, a não ser pelo fato de se tratar de um homem de carne e osso — e bem vivo, por sinal. A luz do sol aquecia os traços brutos de seu corpo e fazia reluzir seu cabelo dourado escuro.

O tom louro-dourado lhe era bastante familiar. À primeira vista, Aurora vacilou diante da memória de outro rosto perdido para sempre. Mas aquele homem insolente e quase nu era um estranho para ela, possuidor de uma masculinidade crua, totalmente diferente do homem que lhe fora prometido em casamento.

Ele vestia somente o culote, mas apesar de estar acorrentado como um prisioneiro, mantinha-se firme, com o olhar impassível e distante enquanto observava o cais. Mesmo à distância, os olhos dele pareciam tremeluzir perigosamente, passando a impressão de uma raiva latente que por pouco não saía do controle.

Ao sentir-se observado, o foco de sua visão aos poucos foi se deslocando até se fixar nela. A azáfama e o barulho da orla de repente sumiram. Durante um breve momento, o tempo parou e apenas os dois existiam.

A intensidade do olhar dele a deixou sem movimento, e, ainda assim, Aurora sentiu-se trêmula, e seu coração repentinamente começou a bater em um ritmo dolorido e quase selvagem.

— Aurora?

Ela tomou um susto quando seu primo Percy a chamou para perto dele. Ela estava no cais do porto de Basseterre, na ilha de São Cristóvão, diante do escritório da companhia marítima, castigada pelo quente sol do Caribe. A mistura acre do cheiro de peixe e de alcatrão permeava a maresia junto com o canto estridente das gaivotas. Para além do movimentado cais era possível observar as águas calmas e de um azul-esverdeado brilhante, enquanto à distância emergia a exuberante e montanhosa ilha de Névis.

O primo acompanhou seu olhar na direção do prisioneiro da fragata.

— O que tanto chamou sua atenção? — perguntou ele.

— Aquele homem — murmurou Aurora. — Por um momento ele me fez lembrar de Geoffrey.

Percy semicerrou os olhos para enxergar por sobre o cais.

— Como você pode dizer isso a uma distância dessas? — questionou ele, franzindo a sobrancelha. — Talvez a cor do cabelo seja parecida, mas qualquer outra semelhança é superficial. Não consigo imaginar o falecido conde de March como um condenado, você consegue?

— Acho que também não.

No entanto, ela não conseguia tirar os olhos do prisioneiro louro. E nem ele dela, aparentemente. Ele continuava observando-a enquanto estava parado no alto da prancha de desembarque aguardando sua vez. Tinha as mãos acorrentadas e era escoltado por dois marinheiros fortes e armados da marinha britânica, mas parecia não dar a menor atenção a seus captores até um deles puxar violentamente a corrente que prendia seus pulsos.

Dor ou fúria fizeram seus punhos se fecharem, mas ele não ofereceu mais nenhum sinal de luta enquanto era escoltado pela prancha à mira de um mosquete.

Uma vez mais Aurora ouviu seu nome ser chamado, dessa vez com mais firmeza.

O primo a tocou no braço, com o olhar cheio de simpatia.

— Geoffrey se foi, Aurora. Não vai lhe fazer nenhum bem remoer a perda. E seu luto não fará nada além de prejudicar seu casamento. Tenho certeza de que seu futuro marido não apreciará seu luto por outro homem. Para seu próprio bem, você deve aprender a reprimir seus sentimentos.

Ela não estava pensando em sua perda, tinha vergonha de admitir, nem no casamento indesejado ao qual seu pai queria obrigá-la, mas assentiu para agradar o primo. Ela não tinha nada a ganhar demonstrando interesse por um estranho quase sem roupa. Um criminoso, para dizer o mínimo. Alguém que evidentemente havia cometido algum crime hediondo para ser punido de maneira tão brutal.

Dando de ombros, Aurora forçou-se a desviar a atenção. Aquela demonstração tão primitiva não era coisa para uma donzela, ainda mais para a filha de um duque. Em poucas ocasiões na vida ela vira tantas partes desnudas de um corpo masculino. Certamente nunca havia sido sacudida por um homem da maneira como fora momentos antes, quando ele a fisgou pelo olhar.

Como que se punindo, ela virou-se, permitindo que o primo a puxasse pela mão até a carruagem aberta. Ela iria com Percy às docas para confirmar sua passagem para a Inglaterra. Por causa do conflito na América e dos perigos da pirataria, havia poucos navios deixando as Índias Ocidentais. O navio de passageiros seguinte deveria partir da ilha de São Cristóvão somente dali a três dias e estava esperando somente uma escolta militar.

Ela temia voltar para casa e retardou o regresso o máximo que pôde, por meses além do planejado originalmente, com a desculpa de que era perigoso viajar com uma guerra em andamento. Mas o pai dela estava determinado a fazer com que aparecesse de uma vez por todas para se preparar para o casamento com o nobre que havia escolhido para ela. Em sua última carta, o pai havia ameaçado viajar pessoalmente para buscá-la, caso ela não honrasse o acordo que ele havia feito em nome dela.

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