
Dançando Com As Estrelas
Capítulo 2
Sofia descansou a cabeça sobre o travesseiro e fechou os olhos. Grata por finalmente poder descansar. Depois de atender Noah, um menino meigo, educado, que trouxe a ela uma consulta bem mais tranquila que aquela de João Pedro.
Saiu da Granja Comary tarde. Fez anotações, depois saiu pra jantar sozinha.
Ela vivia com uma amiga em Vitória. Morou em Salvador durante a infância, mas aos sete anos foi para Cachoeiro de Itapemirim, lá se fez, pegou o sotaque da região e nunca mais largou. Foi para Vitória com uma amiga estudar, mesmo quando a tia dizia que Campos dos Goytacazes, no estado vizinho, era mais próximo.
Sofia gostava de agitação, por isso foi pra Vitória, foi para a bagunça de uma capital porque quis e aquele friozinho de Teresópolis e a solidão do quarto vazio parecia querer consumi-la.
Ligou o celular, abriu o aplicativo de músicas e apertou na opção aleatório.
A vida sempre era sarcástica e brincalhona com Sofia, exatamente como João Pedro naquela tarde, e ironicamente a música que começou a tocar foi “Olha Só Moreno” da cantora Mallu Magalhães cujo primeiro verso era “Olha só moreno, do cabelo enroladinho...”.
Um frio tomou conta do corpo dela. Ela sentiu sua pele esfriar definitivamente e mordeu o lábio inferior.
- Mas que porra! – Xingou baixinho e desligou o aplicativo colocando o celular o mais longe possível dela. Ficou um tempo encarando o aparelho jogado do outro lado do colchão e voltou para ele. Sua garganta tinha um bolo, ela não conseguiu segurar aquela sensação de agonia. Era simplesmente uma mistura de sentimentos.
Ela se conhecia muito bem, seu lado ruim e seu lado bom e não sabia dizer se isso era uma virtude ou uma maldição. Ela sabia como algumas pessoas que simplesmente havia acabado de conhecer poderiam afetar perdidamente, e para sempre, sua perspectiva de mundo. E era aquilo que João Pedro tinha causado nela.
A forma de olhar, as piadinhas, tudo. E mesmo depois do “fora”, se é que se podia chamar assim, que Sofia lhe deu ele ainda insistiu um pouco.
Por outro lado o garoto tinha umas coisas boas, aparentemente era esforçado, religioso e que amava crianças. Seria um bom pai, ela sabia disso. Segundo ele namorava uma portuguesa chamada Sara. “Então por que estava dando em cima de mim?” Auto-afirmação? Não estava satisfeito com o relacionamento? A distância quem sabe?
Antes que tivesse noção de seus atos Sofia estava digitando o número de Clara.
Clara era o Robin do Batman dela, o Catatau de seu Zé Colméia, o Salsicha do seu Scooby-Doo... Enfim, Clara era a melhor pessoa que Sofia poderia ter conhecido.
Era a amiga de todas as horas, aquela que carregava a amiga na volta para a casa durante as bebedeiras, que defendia de caras chatos, que ouvia as mágoas, que dava conselhos e poderia ir até o inferno para ajudar.
Clara nunca deixou Sofia na mão e vice-versa. Ela era a imagem que psicóloga formou de sua falecida mãe. Cuidadosa, bem-humorada, sorridente, amorosa, amiga.
Clara era médica em Vitória e nem namorado tinha. Sofia a via como uma grande destruidora de corações que cada fim de semana estava com um.
Oh, e Sofia tinha tanta inveja nesse sentido da amiga. Queria ela ser tão fria, queria ela dar de ombros quando perguntada sobre algum cara do final de semana. Clara nem ligava se eles não soubessem seu nome, Sofia chorava se não ligassem, mas uma complementava a outra.
- Fala, meu bom! – Clara saudou a amiga. – Me diz que você ficou responsável pelo Miguel, vai.
A amiga fez graça no telefone e Sofia soltou aquela risada gostosa que prendeu o dia inteiro. Sentiu vontade de bater na amiga por ser a única fonte de diversão para ela. Por ser a única pessoa que conseguia tirar o ar de sobriedade de seu rosto e fazer o mundo ao seu redor ficar mais leve.
- Que mané Miguel. Aquele homem horroroso! – Se Sofia pudesse ver do outro lado perceberia que sua amiga estaria fazendo um biquinho.
- Ah ele não é horroroso. Ele é um fofo. – A psicóloga nunca questionava o gosto da médica, principalmente quando ela havia passado de primeira no vestibular da faculdade que queria quando parecia ter passado o terceiro ano inteiro sem nem ligar para a escola. Segundo as teorias de Sofia, Clara era um ET disfarçado de gente.
- Só se ele raspar o cabelo. – Ela ouviu um barulho de panelas batendo do outro lado da linha e supôs que a amiga estivesse fazendo alguma coisa na cozinha, e começou a rezar para que quando ela voltasse, em duas semanas, a casa tivesse arrumada.
- Enfim, me conta logo. Quem você está atendendo? Qual é o esquema? - Sofia suspirou e se jogou na cama. Olhou para o teto, só de pensar em sua resposta já sentia aquela coisa daquela tarde voltar em sua cabeça e se sentia muito mal, como uma sensação de náuseas. Respirou fundo e começou a falar.
- Hoje foi João Pedro e Noah. Amanhã é Danilo. E eu só vou ficar duas semanas aqui, depois eles vão voltar para os times deles, é só uma temporada de testes. Se os resultados forem satisfatórios eu volto no ano que vem para a Copa do Mundo.
Tentou focar um pouco mais no tempo que ficaria lá, tentou focar em outras coisas e dar uma respirada profunda antes da amiga começar a falar, sabia que ela ia falar alguma coisa sobre algum deles. E pelo que ela sabia...
- Porra, essa seleção não está precisando de uma médica, não? – Clara havia se especializado em ouvidos e garganta, que acabava sendo uma área que as pessoas precisavam bastante. Fazendo com que Sofia entendesse bem a piadinha. – Putz João Pedro! Ah ele é um anjinho! Meu Deus, ele é tudo isso, mesmo? Ele é bonito ao vivo? – Sofia deu de ombros e virou a cabeça para o travesseiro, com vontade de gritar, mas se o fizesse a amiga repararia que havia algo de muito errado.
- É... Só que, amiga... Eu preciso desabafar. – Clara estava tentando fazer uma panela de brigadeiro do outro lado. Ela estava jogando tudo na panela quando ouviu o tom de voz triste da amiga. Mordeu o lábio inferior e percebeu que a coisa era séria. Sentiu seus músculos retraindo e os olhos se fecharem. Era péssima com conselhos.
-A psicóloga é você, mas pode falar. Eu vou te escutar. – E ela sabia que era só isso que Sofia precisava. Alguém para escutá-la, um ombro amigo.
Ela não precisava de conselhos. Até porque não seguia nenhum.
Mas Sofia era tão sinestésica, tão humana. Gostava tanto do calor das pessoas, da presença de algo vivo que a olhasse nos olhos e dissesse “Tudo bem, isso acontece. Eu estou do seu lado, você nunca estará sozinha.”
- Eu estou querendo largar o João Pedro. Quer dizer, não atendê-lo mais. – Sofia virou a cabeça para o lado e viu a hora no relógio ao lado da cama. Pensou em ir pegar o laptop enquanto falava com a amiga, mas ficou com preguiça de levantar.
- Você pirou? Sério? Olha que chance, amiga! – Sofia revirou os olhos. Tudo era uma chance para Clara.
E se não fosse?
Talvez nunca tivesse ido tão longe em sua vida como médica, como tudo. Se tivesse aceitado que seu terceiro ano havia sido uma bosta e que ela não teria chance de passar no vestibular, talvez nunca tivesse tentado, passado e hoje teria a vida boa que tinha.
Clara arriscava. Sofia temia. Novamente ambas se mostravam completos avessos uma da outra e mesmo assim se completavam.
- Vou ser sincera, ele é muito infantil. E mesmo que eu rompesse essa barreira de psicólogo e cliente eu realmente não conseguiria nada por muito tempo com ele. Sabe aquela coisa infantil e até que assusta um pouco? Ele deu em cima de mim descaradamente sem nem me conhecer direto. Tá certo que ele é aparentemente um amor de pessoa, mas olha só, um cara que tem namorada ficar dando em cima de uma mulher que mal conhece, e fazer umas piadinhas sem graça, sinceramente, eu não aguento.
Quando terminou de falar Sofia sentia que estava até sem ar. O que acabou lhe surpreendeu. Falava pouco sobre seus problemas, reclamava menos ainda e isso a deixava completamente sufocada. E quando colocava tudo para fora sentia como se tivesse soltado algo muito pesado que tivesse em suas costas. Era de se admirar que ela ficasse assustada quando tinha reações do gênero, já que lutava tanto para que seus pacientes tivessem as mesmas reações e se libertassem de seus demônios.
- Ei, calma. Você não acha que tá levando tudo isso super a sério, não? – Clara simplesmente desconstruiu toda uma imagem que Sofia tinha com apenas uma frase. Aquilo que ela já sabia sobre a coisa da diferença e já sabia que esse era o lado da amiga que ela deveria carregar consigo. O lado que não liga para nada.
- Isso é uma coisa tão sua... Eu queria conseguir.
- Oh e quem disse que você não consegue? Eu hein! Vou rasgar esse seu diploma de psicologia se você repetir isso. Faz o seguinte, não quer nada? Ignora, segue em frente. Vê no que vai dar. Apesar de eu achar que você é meio louca.
Ela mordeu o lábio inferior.
-E você não vai desistir de nada não. E já que você tá reclamando vou aparecer aí no sábado pra gente sair.
Sofia riu, não conseguiu resistir as palhaçadas da melhor amiga de novo. Só de pensar que as duas estariam juntas no fim de semana para jogar as mágoas fora, como nos velhos tempos, aquilo parecia acalmá-la.
João Pedro repousou a cabeça na borda da cama.
- Aquela menina, a Sofia, ela é bem legal, o que você achou? – Noah parecia esgotado quando sentou na cama ao lado da de João Pedro, o jogador estava digitando alguma coisa no computador quando olhou para o amigo.
- Ela é muito bonita, mas muito séria. Qual o problema dela? - Noah levantou uma das sobrancelhas indicando que não havia entendido alguma coisa, como se ele tivesse dito algo que não fazia sentido para ele. – Quer dizer, ela não riu de nenhuma das piadinhas, não riu nem nada.
- Que estranho, comigo ela deu umas risadinhas, mas nada alto. – João Pedro arqueou as sobrancelhas, coçou a cabeça, mas deu de ombros.
- Comigo ela só sorriu. Nem risadinha teve. – Noah deu de ombros e deitou na cama, pegando o celular na cabeceira e digitando nervosamente. E olhando para o lado com cautela.
- Você me desculpa, mas eu acho que sou eu que vou dar uns pegas nela. – João Pedro mudou sua expressão no que parecia ser de calma para raiva em questão de segundos. – O que foi, menino? A menina tá solteira, eu também, não tem nada de errado nisso.
João Pedro tinha fama de bom moço, e realmente era um bom moço. Quando ia pro culto, o pastor falava de influencias ruins do demônio. Que fosse. Talvez Sofia fosse realmente uma influência demoníaca, uma mulher que veio na vida dele só para tentá-lo, disfarçada de anjinho que poderia ajudá-lo com seus conflitos mentais.
Olhou para o amigo Noah, que estava tirando uma selfie para postar na internet, já imaginava até a legenda “Dia de treino pesado #maiscansadoqueopentedopedro”, conhecia tão bem o amigo que distraidamente cogitou olhar seu instagram logo depois para ver se era algo assim que ele havia postado, mas de qualquer maneira, foi só respirar fundo que o ar que invadiu suas narinas o fez lembrar-se da psicóloga. Lembrou do seu perfume doce de mais cedo, não era nenhum Angel do Thierry Mugler como o da sua namorada portuguesa, nem beirava a um Victoria’s Secret, estava mais para um desses da Boticário, mas ficava tão bem nela.
Que ele começou a fantasiar como seria fazer com que ela risse para ele.
“Pense no bom moço que você é, mantenha sua cabeça boa. Você é um cara bom, não pode magoar a Sara. Você ama ela, não ama?” João Pedro repetiu o pensamento várias vezes na sua cabeça, mas a dúvida pairava “amo mesmo?”, mas ele tentava se convencer que sim.
Olhou para Noah e sorriu.
- Vai que é tua, menino Noah! Esse gol é seu, moleque! – o amigo riu e piscou para o amigo, grato, mas sem entender a mudança de humor. João Pedro nunca torceu tanto para que um gol de seu time batesse na trave.
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