
Da Ferramenta ao Tesouro: Minha Nova Vida
Capítulo 3
Eu tateei em busca do meu telefone, meu coração martelando contra minhas costelas. Um número bloqueado. Hesitante, atendi.
"Helena?" Uma voz suave, familiar, mas distante, sussurrou no telefone. "É a Heloísa."
Meu sangue gelou. Heloísa. Minha irmã gêmea. O mero som de sua voz, uma voz tão parecida com a minha, me causou arrepios. Compartilhávamos um rosto, uma voz, um passado, mas nossas vidas haviam divergido espetacularmente, especialmente depois que ela foi adotada por uma família rica e eu permaneci à deriva no sistema. Mantivemos uma conexão frágil e secreta ao longo dos anos, algumas ligações sussurradas, sempre com ela me lembrando: "Não conte ao Heitor. Ele acha que fui eu que o salvei."
"Heloísa", eu sussurrei, minha voz quase inaudível.
"Meu Deus, você parece péssima." Seu tom se suavizou, um lampejo de preocupação genuína. "Você está bem, mana?"
Mana. A palavra soou estranha, emocionante e dolorosa ao mesmo tempo. Ela raramente me chamava assim.
Antes que eu pudesse responder, sua voz baixou, uma pitada de aço sob o veludo. "Olha, eu sei que é repentino, mas o Heitor está furioso. Seus contratos foram todos cancelados. Suas contas de redes sociais... sumiram."
Meu coração despencou. Eu sabia que isso estava por vir. A "limpeza", como a equipe implacável de Heitor chamaria. Removendo quaisquer conexões inconvenientes antes de seu grande anúncio de noivado.
"Eu sei", eu disse, as palavras uma dor surda. "Eu vi."
"Você sabe?" Sua voz se elevou ligeiramente. "Por que você não disse nada? Por que não me ligou? Não ligou para o Heitor?" Havia irritação em sua voz agora, um flash de sua natureza pragmática e orientada para resultados.
De repente, a voz de Heitor, carregada de fúria fria, explodiu pelo telefone. "Helena! Quem é? Por que você não está atendendo minhas ligações?" Ele deve ter pego o telefone de Heloísa. "O que está acontecendo, Helena? Por que a Heloísa está me dizendo que sua conta foi desativada?"
Trinquei os dentes. Ele sabia agora. Sabia o que ele mesmo havia orquestrado. A hipocrisia era um gosto amargo na minha boca.
"Eu não queria te incomodar", consegui dizer, minha voz vazia.
"Me incomodar?" Sua voz era um rosnado baixo, vibrando com raiva possessiva. "Você acha que ter sua carreira inteira destruída não é um incômodo? Por que você não veio até mim? Eu poderia consertar isso. Eu posso consertar isso. Você sabe que eu posso." Suas palavras eram uma ameaça, uma promessa de controle absoluto. "Não se atreva a tentar lidar com isso sozinha. Você é uma inútil sem mim."
A voz de Heloísa, suave e calmante, veio do fundo. "Heitor, querido, deixe-me falar com ela. Ela está chateada."
"Eu não te contei", insisti, minha voz ganhando um tom desesperado, "porque eu não quero consertar. Eu não quero mais fazer isso."
A linha ficou em silêncio por um instante. Então a voz de Heitor, mais fria do que eu já tinha ouvido. "O que você disse?"
"Eu disse... eu não quero mais ser uma influenciadora", repeti, as palavras ganhando força ao saírem da minha boca. "Eu não quero essa vida."
"Não seja ridícula", ele retrucou. "Você vai ao escritório amanhã de manhã. Vamos resolver isso."
"Não!" A palavra explodiu de mim, crua e desafiadora.
"Helena, eu disse para vir ao escritório!" Sua voz era um trovão, acostumada à obediência instantânea.
Meus olhos se encheram de lágrimas quentes e ardentes. "Por que, Heitor?", forcei-me a perguntar, minha voz tremendo. "Por que eu tenho que ir? Eu sou apenas... uma substituta conveniente? Uma versão mais fácil de outra pessoa?" As palavras jorraram, anos de dor finalmente se libertando.
Uma inspiração aguda do outro lado. "Como você me chamou?", ele exigiu, sua voz perigosamente suave.
"Heitor", sussurrei, o nome soando estranho na minha língua. "Você nunca me chama pelo meu nome quando está com raiva. Só quando está... sendo gentil. Ou quando está com ela. Você sempre me chama de 'amor' ou 'querida'. Nunca apenas Helena. Isso me faz sentir como se eu fosse qualquer uma. Como se eu não fosse ninguém." Minha voz falhou. "Eu sou apenas alguém que você pode moldar, alguém que se parece muito com a Heloísa, para que você não precise procurar tanto por ela?"
Sua respiração estava pesada, irregular. "Que porra há de errado com você, Helena? Por que você está agindo assim?"
Enxuguei furiosamente minhas lágrimas. "Porque eu não quero mais ser uma substituta!" A verdade estava dita, feia e sem verniz. "Eu não quero ser seu saco de pancadas emocional para que você possa ser charmoso para sua namorada de verdade. Eu não quero mais fingir."
Uma risada fria e sem humor ecoou pelo telefone. "Substituta? Não se elogie tanto, Helena. Estou entediado com esse joguinho. Acabou."
A linha ficou muda.
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