
Crime, Desejo e Corrupção
Capítulo 3
A virada definitiva, o meu batismo nas sombras, aconteceu há dez anos. Chovia tanto naquela madrugada que o Complexo da Caveira parecia que ia desabar e afundar na lama junto com a miséria dos moradores. Nós recebemos uma denúncia anônima de movimentação de carga pesada e eu cometi o erro de liderar a incursão, subindo o morro na frente, como um idiota que ainda carregava um resto de crença no dever e na cartilha. Achei que tava indo limpar a área, fazer o meu trabalho de polícia. No fim, descobri que o perigo real não tava de bermuda tactel e chinelo segurando o fuzil na laje. Tava de farda do meu lado.
O tiroteio começou pesado no meio da subida, naquele labirinto de beco escuro. Confusão generalizada. Rádio falhando na estática, gente correndo, gritaria, escuridão rasgada por traçante. E então eu senti o vento da traição passar perto da minha cabeça. Meu próprio inspetor de confiança, um cara que frequentava a minha casa, que bebia a minha cerveja no churrasco de domingo, que chamava o meu irmão Bento pelo apelido de infância... o desgraçado tentou me meter uma bala pelas costas no meio do breu. Ele já tinha vendido a minha cabeça pro chefe do morro por uma mala de dinheiro e a promessa de assumir a minha cadeira na especializada.
Ainda me lembro perfeitamente da expressão de pavor dele no clarão do tiro quando percebeu que errou a minha nuca por milímetros e acertou o reboco da parede. Não senti tristeza. Não senti raiva. Não senti o coração acelerar. Só senti uma clareza mental absurda, gélida, cortante. Naquela madrugada de tempestade, o delegado Marco que ainda acreditava em alguma coisa morreu afogado dentro daquele beco inundado de esgoto. Porque eu finalmente entendi a regra máxima e única desse jogo: quem hesita por um segundo perde a vida e o trono.
Matei o traficante que vinha de frente primeiro, com dois tiros no peito. Depois me virei pro meu inspetor. Ele tentou levantar a arma, gaguejou, tentou pedir desculpa. Não dei tempo pro show. Meti um tiro na boca dele pra ele parar de falar e outro na nuca pra garantir o óbito. Sem discurso moralista. Sem tribunal. Sem um pingo de culpa no peito. A chuva forte lavou o sangue da calçada enquanto eu olhava os dois corpos caídos no valão e percebia a verdade mais nua e crua da minha existência: se o sistema inteiro era podre e funcionava na base da violência e do suborno... então eu não precisava desperdiçar a minha vida lutando contra ele. Eu precisava ser o dono dele. Precisava gerenciar o caos.
E foi exatamente o que eu fiz nos anos seguintes. Subi de cargo pisando em cima de quem tentou me atravessar. Fiz alianças estratégicas com as cúpulas mais escuras do poder. Comprei o silêncio de promotor com dossiê de traição. Enterrei inimigos em cemitérios clandestinos que eu mesmo gerenciava através de terceiros. Transformei delegados caxias em cachorros obedientes que abrem inquérito contra quem eu mando, e transformei os chefes de facção em funcionários terceirizados do meu império. Porque no Rio de Janeiro, meu parceiro, o crime organizado não sobrevive uma semana sem a autorização do Estado. E hoje, o Estado que autoriza sou eu. O carimbo da licença pra roubar e vender tem as minhas digitais.
Atualmente, deputados influentes apertam a minha mão em restaurantes de luxo no Leblon, elogiando a minha postura técnica, sem ter a menor pista de que parte do dinheiro que financiou as campanhas milionárias deles saiu diretamente dos carregamentos de cocaína pura que eu ordenei que as minhas viaturas escoltassem pelas rodovias federais. Jornalistas renomados de televisão me ligam pedindo exclusiva, me chamando de o maior exemplo vivo de combate ao crime, enquanto os meus homens de confiança montam a logística de distribuição das armas que entram pelo porto. Secretários de segurança pública sorriem orgulhosos do meu lado em coletivas de imprensa transmitidas ao vivo pro país inteiro, enquanto eu, discretamente no celular embaixo da mesa, decido quais morros vão entrar em guerra pra fazer média com a opinião pública e quais terão a paz comprada pro tráfico lucrar sem perturbação.
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